7 de dezembro de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Mariana, lama tóxica e a natureza a venda

Hoje, já faz mais de um mês que vivemos o que foi possivelmente a maior tragédia ambiental que o nosso país já viveu. Mortes de pessoas; um rio assoreado e morto, que caminha para fazer o mesmo com os seus afluente; espécies endêmicas (aquelas que só existem em um lugar) que desapareceram e, portanto, entraram em extinção e uma cidade simpática que desapareceu do mapa. Isso sem falar das perdas materiais e do dilaceramento do coração e da cabeça de quem teve tudo o que tinha levado pela lama. Tudo isso faz com que alguns especialistas estejam dizendo que a tragédia de Mariana foi a Fukushima brasileira.

Você deve imaginar que, para ter feito todo esse estrago, a quantidade de lama que vazou da barragem deve ter sido imensa. E foi. Mais especificamente, 62 milhões de metros cúbicos. Alguém ai já foi para São Paulo e foi no enorme Edifício Banespa? Então, é como se enchessem 315 prédios iguais a aquele de lama, e demolissem todos de uma vez. Até agora, sabe-se que isso causou em torno de 20 mortes. O número só não foi muito maior porque as pessoas começaram a se avisar por telefone, sair correndo pela cidade avisando os vizinhos, e fugindo da cidade só com a roupa do corpo. Se o acidente tivesse acontecido de madrugada, por exemplo, a cidade toda teria sido arrasada sem perceber, já que nem alarme de segurança a empresa possuía.

Análises feitas na lama da Samarco, feitas pela própria Vale (uma das donas da empresa), já confirmaram que há níquel, arsênio e chumbo na lama tóxica que tomou conta da terra e dá água dos lugares por onde passou. Já análises feitos pelo SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Baixo Guandu (ES) confirmaram presença de arsênio, chumbo, cromo, zinco, bário e manganês, entre outros elementos, em níveis muito acima do recomendável na agua que abastece a cidade. Ainda que estes estudos tenham revelado primeiros sinais do problema ambiental que temos a enfrentar, o tipo de resíduo e a quantidade exata de cada um deles ainda não podem ser mensurados, o que impossibilita até a adoção de medidas para cuidar destes problemas. O que sabemos é que, em termos práticos, todo este desastre está se refletindo em: fauna sendo morta; solo se tornando infértil e, consequentemente, flora também sendo morta; além de contaminação de água que impossibilita o consumo humano. Essa água também não poderá ser usada para irrigação na agricultura. Todos estes problemas, além de serem ambientais, acabam se tornando também sociais, porque toda a população que dependia de atividades como a pesca, o extrativismo, a agricultura e o turismo ecológico da região perdem seu emprego e, consequentemente, sua fonte de renda. Gente que, além de estar sem casa, está também sem possibilidade de realizar o trabalho que realiza há muito tempo, e geralmente é o único que se sabe fazer.

Depois do desastre ambiental ter ocorrido, se seguiram vários absurdos, de todos os tipos. O primeiro deles é que quem estava fazendo a segurança da área atingida pela lama era uma empresa terceirizada contratada pela própria Samarco. Como disse uma militante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) para esta entrevista no Jornalistas Livres: “A Samarco é acusada de um crime ambiental seríssimo, que pode ter causado dezenas de mortes, e é ela que ainda tem moral para cuidar da cena do crime? Que loucura é essa?”. É, de fato, um absurdo. Com essa medida, a Samarco teve total autonomia para escolher quem entrava e quem não entrava nas áreas atingidas, o que pode esconder informações valiosas da mídia, dos moradores da região e dos movimentos sociais.

Outra infelicidade que aconteceu depois desse crime ambiental foi a declaração do Secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, que consiste na simples e terrível frase: “A Samarco foi vítima do rompimento das barragens”. A Samarco, que tem como uma de suas donas a Vale, que é uma empresa que tem um histórico horrível quando se trata de respeito aos Direitos Humanos e o Meio Ambiente, é a vítima. Uma empresa que teve um lucro líquido de R$ 7,5 bilhões em 2014, é a vitima. Uma empresa que não fez nada sobre a manutenção de uma barragem que já estava condenada por um laudo técnico do Ministério Público desde 2013, e que funcionava com uma licença que não havia passado pelo aval do MP, é a vitima. Essa empresa é a vítima do crime que ela mesma cometeu? E os mais de 20 mortos, os 612 desabrigados, e o meio milhão de pessoas sem água, são o que? Os algozes?

Bom, já percebeu que, quando se trata de natureza e de respeito à vida, a gente tá meio por baixo, né? Mas tem bastante gente por aí querendo mudar essa situação. Uma dessas pessoas é o fotógrafo Sebastião Salgado, que já se propôs a criar um fundo exclusivo só para a recuperação do Rio Doce, já que as multas pagas pela Samarco, apesar de serem as maiores já cobradas pelo Ibama na história, não são suficientes para pagar os estragos que foram feitos pela lama tóxica. Há também os movimentos sociais, como o Movimento dos Atingidos por Barragens e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que há muito tempo estão se colocando na linha de frente contra a mercantilização da natureza, que é a raiz de todos estes problemas ambientais catastróficos que vivemos hoje. Se temos tantos rios assoreados, espécies em extinção, mineradoras que retiram minérios da terra como se não houvesse amanhã, e latifúndios que produzem tudo, menos comida, é porque já há algum tempo a preservação e a soberania  dos povos fica atrás do lucro e do mercado por aqui. O crime que ocorreu em Mariana é só um exemplo do tamanha da irresponsabilidade de quem constrói impérios as custas da vida e dos recursos mais precioso do nosso país.

“O homem chega, já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o Sertão ia alagar

O sertão vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão
Adeus Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai-se embora com medo de se afogar.

Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Pilão Arcado, Sobradinho
Adeus, Adeus …”

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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