23 de outubro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Maternidade: sobre doulas, partos e direitos

Eu não sou mãe e também não carrego esse desejo em mim. Mas, enquanto feminista, reconheço na maternidade uma questão de muita importância. Sabemos e reconhecemos a gravidade de pautas relacionadas a violência obstétrica, a maternidade compulsória, questão do aborto, morte materna e os necessários recortes raciais, sociais e culturais a serem feitos dentro dessa realidade. Mas hoje estamos aqui para falar mais especificamente sobre o nascer, sobre quem de fato é a doula e todas aquelas dúvidas que acabam se criando devido a grande moralidade e fantasia que são colocadas sobre essa fase.

Para nos falar mais sobre isso, convidei Fernanda Sherer Lopes. Fernanda é ativista feminista, mãe, doula, criadora do grupo GestaFoz – grupo de apoio online para mães – e membro do Núcleo Filhas de Gaia, que nasceu do descontentamento de mulheres da cidade de Foz do Iguaçu em relação a realidade obstétrica e do desejo de discutir e dar visibilidade a pautas como humanização do parto, valorização e cuidados com a infância. Clique aqui e aqui pra mais informações sobre ela.

O que é uma doula? Há uma diferença entre doula e parteira?

Doula é uma acompanhante de parto treinada. São pessoas informadas, sem envolvimento afetivo com a família, que tem um olhar “de fora” da situação. Costumam acompanhar já na gestação, informando a gestante e sua família sobre o processo fisiológico do parto, trazendo informações científicas para que eles possam tomar decisões informadas sobre o parto.

A Parteira, tanto a tradicional (que aprendia o ofício com sua mãe ou avó) quanto a urbana (enfermeiras obstetras, ou obstetrizes, que atuam comumente nos grandes centros urbanos), são profissionais responsáveis pelo atendimento clínico ao parto. Tendo formação profissional, atuam em hospitais, casas de parto ou à domicílio, monitorando todos os aspectos clínicos do parto, verificando possíveis dificuldades e em gestações de baixo risco (chamada de risco habitual) prosseguindo com o atendimento até o nascimento e primeiros cuidados.

A doula é uma profissional de saúde ou é tida como uma cuidadora?

Ela entra como apoio emocional, não se envolvendo em questões de saúde física ou técnicas. Também não faz acompanhamento psicológico, visto que é função de psicólogo/psiquiatra/terapeuta. O apoio físico, emocional e informativo, o colo, abraço, massagem, banho, estas são as funções da doula.

Qual a diferença entre o parto humanizado e o parto normal?

Parto normal é quando um bebê nasce pela vagina, independente do que foi feito.

Parto natural, é quando o bebê nasce pela vagina, e não foram feitas intervenções, independente do tratamento recebido pela mãe.

Parto humanizado é quando a mulher-parturiente é tratada como ser humano, único, com suas vontades, desejos e direitos. Dotada de todo direito sobre o próprio corpo, ela é respeitada em suas solicitações, o atendimento é individualizado, e só há intervenções quando necessárias. Todas as intervenções são explicadas, seus prós e contras, e sua decisão é respeitada.

Lembrando que pelo Código de Ética Médica, o ser humano tem total poder sobre seu corpo, exceto se a não-intervenção médica resultar em óbito. Fora isto, o paciente de qualquer especialidade tem direito da recusa informada de procedimentos.

Precisa de algum tipo de capacitação para uma pessoa ser doula? Pode ser autodidata?

Existem cursos presenciais para formação de doulas, curso EAD e também doulas autodidatas. O curso ensina basicamente sobre a atuação prática, e todo conhecimento técnico-informativo que julgar necessário é de responsabilidade da doula buscar.

Pode sim existir doula autodidata, embora considero que o curso seja muito importante para iniciar a doula nesta função, trazendo questionamentos, ensinamentos sobre ética, atuação, apoio emocional, análise e encaminhamento da cliente para outras especialidades (nutrição, fisioterapia, psicologia, etc.), e outros pormenores da atuação.

E sobre a questão financeira, o parto humanizado é sempre caseiro? Custa mais caro para ser realizado?

O parto pode ser humanizado independentemente do local onde seja feito: hospital, casa de parto, residência, ou mesmo quando acidentais (carro, ambulância). Humanizar é conduta, não é tipo de parto.

Infelizmente hoje no Brasil são poucos os profissionais que atendem humanamente os partos, sendo que não conseguem se sustentar apenas com atendimento por planos de saúde, então atendem normalmente apenas particular. Desta forma, estes profissionais acabam não sendo viáveis para pessoas que não disponham de condição financeira para pagar um parto particular, mas ainda assim os valores são próximos aos de outros profissionais “comuns” que fazem atendimento particular.

Em Foz do Iguaçu, consegue-se atendimento humanizado apenas para parto domiciliar. A mesma equipe destes partos domiciliares atende partos hospitalares em Cascavel, com obstetra e pediatra. Esta equipe cobra valor próximo à obstetras não-humanizados na cidade, com os quais não há garantia nenhuma sequer de um atendimento cordial.

Todo parto natural precisa de episiotomia?

Nenhum parto precisa de episiotomia.

Não existe necessidade clínica comprovada para episiotomia, nem mesmo com o uso de fórceps ou vácuo-extrator (ventosa/kiwi). Este procedimento foi inserido sem real estudo de seus efeitos, e até hoje é feito supondo que abrevia período expulsivo do parto, facilita a saída do bebê, protege o períneo de danos e é mais fácil de suturar por ser um corte reto.

Estudos atualizados já comprovaram que, quando feita episiotomia, os danos são maiores do que quando há lacerações naturais, inclusive com o aumento de lesões graves. Não há prevenção de danos ao períneo, já que a episiotomia por si só é uma laceração de segundo grau.

Artigo de exemplo: http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00404-012-2460-x

Texto Dra Melania Amorim sobre episiotomia: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-episiotomia.html

Por que a cesariana hoje em dia é tão requisitada? O que está por trás disso?

É uma saída “fácil”. É considerado um procedimento controlado, o médico tem total domínio da situação, é programado, não atrapalha a agenda do profissional ou da família.

Há o mito de que a taxa de cesarianas está desta forma porque as mulheres pedem cesárea. Não, não é bem assim. Levantamento recente da Fundação FioCruz demonstra que 70% das gestantes inicia o pré-natal desejando o parto normal, e apenas 15% ainda deseja parto normal no final. Não há informação sobre direitos, sobre fisiologia do parto, sobre humanismo. Não há atualização dos profissionais da saúde, nem interesse nisto.

Com o passar dos anos, a cultura medicalocêntrica e a descrença no corpo da mulher auxiliaram no aumento da taxa de cirurgias cesarianas, sendo que há hospitais que já não atendem mais partos normais, apenas cirurgias agendadas. Desta forma, muitos profissionais se formam na obstetrícia sem realmente ter atendido partos fisiológicos, perpetuando a cultura da cirurgia.

Não é apenas um fator que define nossa situação atual, é um emaranhado de situações: pagamento ruim para os médicos, a praticidade da cirurgia agendada, a falta de informação de qualidade para o público, a comodidade em entregar o poder de decisão à equipe médica, a cultura do medo e da dor do parto, e estes são só alguns pontos.

O que pode impedir alguém de realizar o parto natural?

Necessidades clínicas de intervenções, por dificuldades com o bebê ou com a mãe.

Há casos onde a cesariana se faz necessária (estima-se que de 10 a 15% das gestações), como por exemplo Prolapso de Cordão (quando o cordão nasce antes do bebê, impossibilitando sua passagem), Descolamento Prematuro da Placenta (com bebê vivo e fora do período expulsivo, onde sua oxigenação seria prejudicada levando à possível óbito), Placenta Prévia (quando a placenta se localiza de forma a atrapalhar a saída do bebê), Posição Transversa (quando o bebê está atravessado na barriga, não estando em posição de parto ou sentado), e outros raros casos.
Temos hoje mais de 150 indicações FALSAS para cesariana, incluindo bebê grande demais, pequeno demais, mãe velha, mãe nova, primeira gestação, muitas gestações, “bacia estreita”, “passar do tempo”, bolsa rompida fora de trabalho de parto, “não ter dilatação” (que não existe, toda mulher em trabalho de parto dilata)., etc.

O que significa e quais as consequências da recente resolução em relação as políticas de incentivo ao parto normal no SUS?

Temos que esclarecer que cesarianas necessárias não deixarão de ser feitas. O Ministério da Saúde não quer que mulheres e bebês morram para economizar dinheiro dos cofres públicos, de forma nenhuma! Mas com níveis alarmantes de cirurgias desnecessárias sendo feitas, e com o aumento das mortes maternas e neonatais (o Brasil é campeão nisso!) que poderiam ser evitadas, se faz necessário tais incentivos.

Somos uma piada pronta: com bom alcance em atendimento pré-natal, mas com altas taxas de morte neste tipo de atendimento. Há algo de errado nessa conta, algo que não bate. A cultura do medo que nos foi criada, do excesso de intervenção, do “glamour” que o procedimento traz, dos traumas de violência narrados de geração em geração, faz a mulher brasileira muitas vezes querer fugir do parto. Há sim cesarianas a pedido. Há muitas cesarianas trocadas por favores, encomendadas, forjadas como necessárias. Há cesarianas por comodidade mesmo no SUS, pra limpar plantão, pra liberar macas, pra calar parturientes escandalosas. Isso precisa mudar.

Você percebe que há um certo privilégio material de pessoas que podem optar por um parto normal? Como fazer do parto humanizado e natural os mais amplos possíveis?

Sim e não. O parto normal é o caminho natural de qualquer gestação saudável. Quanto maior o poder aquisitivo, maior a possibilidade de contratar uma cirurgia cesariana por praticidade. Pessoas com pouco poder aquisitivo acabam se rendendo ao sistema público de saúde, que ainda trabalha tendo o parto normal como prioridade. Então é mais provável que mulheres pobres tenham parto normal, do que mulheres ricas.

Entretanto, o parto humanizado entra em outra categoria: a de mulheres informadas. Deixam de comprar artigos para o bebê, economizam nas futilidades e investem em atendimento, seja contratando equipe completa para hospital, seja contratando o parto domiciliar, ou até mesmo com o acompanhamento de uma doula, o que não necessita de tanto dinheiro assim. Nessa categoria reúnem-se mulheres pobres, ricas, classe média, todas em busca de atendimento de qualidade, conforme a disponibilidade de dinheiro ou criatividade para soluções (bingos, rifas, sorteios, vaquinhas).

Humanizar o atendimento não é difícil, mas requer colaboração das equipes de atendimento técnico. Sair do senso comum, repensar práticas clínicas, individualizar casos, PENSAR. Deixar de agir no automático, fazer o melhor possível para cada paciente, cada mulher, cada parto. Não precisa de uma super estrutura, nem de glamour, iluminação ou música ambiente. Precisa de atenção, carinho e uma dose de respeito!

Precisa devolver à mulher o protagonismo, o direito sobre o próprio corpo.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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