10 de fevereiro de 2017 | Saúde | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Meditação, arteterapia e reiki no SUS: porque essa decisão pode significar um avanço na saúde

Você já se perguntou como são definidas as práticas permitidas e oferecidas dentro de um atendimento médico básico? Como se dá a separação entre o que é realmente considerado medicina e o que não é? O que é considerado cuidar da saúde? Sempre foi igual? Na verdade, esse conceito não é fixo, ele vem sofrendo alterações há um bom tempo e depende de como a própria sociedade enxerga a concepção de saúde.

[PS: a primeira parte vai ser mais técnica, então se você faz mais o tipo que gosta da discussão objetiva da coisa, pule direto pro segundo tópico; se precisar volte a consultar essa parte]

 

  • 1 – Levantando conceitos

           Os procedimentos médicos se dividem no que se chama de “medicina convencional” e “medicina não convencional”. A primeira categoria se baseia num modelo médico em que todas as técnicas, métodos, processos de diagnóstico e tratamentos são baseados em evidências científicas (pelo menos da forma como é definido pela comunidade médica e científica). Já a não-convencional seria todas as demais técnicas que fugissem disso. Essa terminologia passou a ser problematizada, pois dentro da medicina não convencional entravam muitos métodos diferentes, desde aqueles que realmente não eram provados na eficácia e a outros que ofereciam resultados positivos de tratamento, o que fazia com que os que funcionavam perdessem a credibilidade

              O termo utilizado para métodos que fugiam do padrão era “medicinas alternativas”. Esse nome também carregava uma visão negativa e, em 2014, a OMS mudou a terminologia de “medicina tradicional, complementar e alternativa” somente para “medicina tradicional e complementar”. O termo anterior segmentava muito as práticas e tratava como central só as técnicas selecionadas como científicas, tratando qualquer outro aspecto de promoção de saúde com práticas diferenciadas como sem validade.

               Para a OMS, terapia alternativa vinha como práticas que substituíam a medicina convencional; já a terapia complementar trabalhava em conjunto com a convencional, com a intenção de adicionar mais técnicas para melhorar a saúde. É daí que surge o termo “medicina integrativa” – que é o utilizado atualmente – que vem do conjunto das medicinas convencionais com métodos complementares e/ou alternativos, com evidências científicas e baseado em uma concepção de saúde integrada, em que as diversas ações podem ser consideradas importantes para se manter saudável.

 

  • 2- Então vamos sair da técnica e discutir:

              Tá bom, ok, até agora foi tudo muito técnico, né? Então, por que é que a gente tá falando tudo isso? Não sei se vocês viram, mas no dia 13 de janeiro (2017), foi publicado no Diário Oficial da União que Meditação, Arteterapia e Reiki seriam oferecidos no SUS, dentro de práticas que entravam na categoria de ações de promoção e prevenção de saúde. Isso representa um avanço para o que se considera como saúde, em vários sentidos.

             Além de contribuir para a luta pelo reconhecimento de práticas que se diferenciam dos modelos médicos tradicionais, mas que são benéficas pra saúde da população, essa decisão também demonstra a passagem para uma visão que considera o “ser saúdavel” não simplesmente como não estar doente, mas uma visão ampliada de bem estar, melhor qualidade de vida e a prevenção [Você se lembra desse texto que escrevemos sobre saúde?]. Também traz uma perspectiva da integração completa daquilo que somos: biológico, físico, psicológico e social. E essa passagem de uma concepção para outra vem sendo feita há um bom tempo, nos meios produtores de conhecimento e de práticas voltadas à promoção de saúde.

             Não podemos esquecer que hoje, ainda, existe um modelo de tratamento que é muito focado em medicar. É remédio pra absolutamente tudo, mesmo que os sintomas sejam por questões psicológicas (estresse, ansiedade, depressão etc). E não que o tratamento medicamentoso não tenha sua importância, mas do modo como é feito, sem englobar outros aspectos da vida de uma pessoa e sem investigar a fundo as razões da doença, acaba servindo muito para “tapar os sintomas”… e a questão que provocou aquilo continua ali, por vezes os sintomas voltam a aparecer de outras formas.  

             O fato é que: quem pode dizer que o Reiki, a Meditação, a Arterapia não funcionam enquanto processo terapêutico? Existem pesquisas e resultados que comprovam que essas práticas dão certo sim, com muito mais pessoas do que se imagina no senso comum. E são práticas perfeitamente capazes de funcionar dentro de um modelo médico englobado, que procure o equilíbrio para a vida saudável de alguém. A própria meditação funciona muito bem – em conjunto com outras formas de terapia, claro – para a redução de sintomas depressivos e ansiosos, por exemplo.

             Outra coisa importante para se pensar é que a ciência produz um tipo de linguagem, sofrendo influência do contexto de quem produz pesquisa naquela época. Pensando que a diversificação no ambiente de pesquisa é mais atual (antigamente só homens, brancos, ricos, extremamente padrão pesquisavam), a diversificação dos temas pesquisados também é atual. Esses homens-super-padrão carregavam seus interesses específicos baseados nas próprias vivências. Então, se não existem certas produções, isso é muito mais pelo fato do grupo que pesquisa, do que pelo fato do assunto não carregar motivos para ser pesquisado. Ainda é um cenário bem elitizado, mas ele tem, cada vez mais, vivido uma abertura a diferentes contextos e cenários. Por isso, pode-se pensar que não surgiam muitas pesquisas a respeito dessas terapias vistas como alternativas, pois ninguém considerava “respeitável” ou achava que deveria dedicar tempo àquilo. Hoje, surgem interesses (que conforme são demonstrados resultados positivos, vão aumentando) em pesquisar essas diferentes maneiras de promover saúde. O que é muito bom, pois quanto mais diversificado, mais representativo.

             Então, pra resumir tudo o que esse texto traz: é importante pensar em como essas ações demonstram mudanças e embates dentro do modelo médico que é vigente agora e que está se modificando aos poucos. O que é realmente estar saudável? Faz muito mais sentido ser a procura, cada vez maior, por qualidade de vida dentro das próprias possibilidades. A promoção de melhor qualidade de vida, aliada à prevenção de doenças vem contra a remediação pura. Até porque a prevenção é muito mais benéfica, menos desgastante pra vida do indivíduo e mais econômica pro governo e, consequentemente, pra população; além de se pautar em evitar doenças e processos invasivos de tratamento (a saúde psicológica agradece, né, gente?). Dessa maneira, a gente pode focar em promover BEM-ESTAR. Diminui a fila dos hospitais, diminui a necessidade dos remédios, diminui os gastos com saúde e aproxima mais os indivíduos de práticas de autocuidado.

             Tudo isso, claro, analisando num cenário ideal demais. A gente – tanto a população quanto os profissionais de saúde, dentro de um compromisso ético – ainda tem muito que lutar (e aqui falo de luta pessoal, social e política, principalmente) para que a saúde alcance cenários favoráveis e acessíveis a todos. É de se pensar por que estão sendo feitos tanto cortes no SUS e, logo agora, surge essa nova possibilidade.

 

  • 3- Informações extra:

             Mas calma… Isso não quer dizer que você vá encontrar Reiki, Meditação e Arteterapia na sua região… As iniciativas de oferecer o serviço são locais; a decisão só define que, caso o local queira instalar, existe um financiamento (uma verba) do Ministério de Saúde para isso para cada município.

             Além dessas categorias, algumas outras terapias já eram oferecidas anteriormente dentro das “práticas integrativas”, como, por exemplo: terapia comunitária, dança circular, ioga, práticas corporais em medicina tradicional chinesa, auriculoterapia, massoterapia, tratamento termal e oficina de massagem.


REFERÊNCIAS

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-01/meditacao-arteterapia-e-reiki-serao-oferecidas-pelo-sus

https://terapeuticasnaoconvencionais.wordpress.com/2015/03/07/afinal-em-que-ficamos-medicina-alternativa-complementar-integrada-nao-convencional/

Karoline Siqueira
  • Colaboradora de Saúde

Estudante do ultimo ano de Psicologia, no interior de SP. É mãe solo de um bebêzinho de 8 meses, trabalha, estuda, escreve e CORRE MUITO na vida. Gosta de falar sobre temas que envolvem a maternidade real, pra desmistificar um pouco essa coisa mágica em torno da maternidade, e de questões que envolvem a área da saúde psicológica. É feminista interseccional e tenta, dentro das possibilidades com o bebê, participar dos grupos e eventos que envolvem sua militância (também gosta de discutir o espaço materno dentro do feminismo). Foi mãe jovem, engravidou com 21 anos e ainda estudando, então tenta formar ao máximo uma figura de apoio à jovens mamães, provando que mesmo nas maiores adversidades, respeitando a própria vontade e intuição: é sim possível. Também gosta de dançar, de ler, de Beyoncé, gatos e chocolate.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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