11 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
É preciso ter a coragem de dizer: o medo na ditadura
Ilustração: Isadora Carangi.

Ilustração: Isadora Carangi.

A gente já falou, aqui na Capitolina, sobre o exílio e a censura na ditadura. Nos dois textos, conversamos sobre pessoas que lutaram contra a ditadura e sobre como foram fortes, como sofreram punições por isso, sobre como a coragem delas foi importante para que tivéssemos o mundo que temos hoje. Apesar de terem feito tudo o que fizeram, com certeza essas pessoas sentiram muito medo – e com todos os motivos.

Durante este período, a repressão acontecia a torto e a direito. O habeas corpus (que é uma medida jurídica para proteger pessoas que estão tendo sua liberdade infringida) para crimes políticos foi abolido e o poder judiciário teve sua autonomia diminuída; o que possibilitava que se prendessem e acusassem pessoas sem existirem provas consistentes. Os militantes sabiam disso, então a partir do momento que se decidia lutar de fato contra a ditadura, assumia-se o risco de ser torturado, morto, exilado, ou até de colocar sua família e pessoas próximas em risco.

Viver lado a lado ao medo todos os dias afetava todas as esferas da vida do militante, porque quando se sente inseguro e invulnerável rotineiramente se vive em “estado de alerta” quase que a todo momento, mesmo quando não se está diante do perigo. O medo atinge a pessoa em sua totalidade e alguns militantes possuem marcas até hoje.

O medo também era plantado naqueles que não eram militantes, criando-se uma imagem das pessoas que lutavam que não correspondia com a realidade. Os comunistas eram os mais estigmatizados da época, e até hoje tem gente que ainda fala deles com ar de deboche, e usa expressões como “comedor de criancinhas” para se referir a eles. O medo que a população tinha do comunismo era muito importante para que o golpe parecesse uma ótima medida para nos salvar dessa suposta ameaça, mas o comunismo não estava tão próximo da realidade do Brasil e os militares não tinham a pretensão de melhorar a vida do povo. Dizer que eles iam “nos salvar do comunismo”, como se isso fosse um ato muito heroico, era só a utilização do medo que as pessoas já possuíam em seu próprio benefício.

Para você ter uma ideia do que eu estou falando, essa é uma manchete que saiu no jornal O Globo, em 1964, logo depois do golpe:

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos.”

Quando o jornal fala de “comunização” ele se refere ao governo do Jango, que tinha posturas esquerdistas, e que foi derrubado pelo golpe.

E olha que o medo dos comunistas nem foi algo inventado na ditadura de 1964. Ele pertence ao início dos anos 1940, quando os Estados Unidos começaram a pintar o comunismo como o grande inimigo do povo e da liberdade. Quando Cuba se tornou socialista, a preocupação de que os demais países da América Latina também seguissem o mesmo caminho foi potencializada, o que levou os Estados Unidos a tomarem providências que inclusive apoiaram as ditaduras militares que aconteceram aqui e nos nossos vizinhos.

Com tudo isso, dá para perceber que o medo, apesar de ser um sentimento, pode ser usado para controlar pessoas de diversas maneiras, seja através de criações de imagens falsas sobre conceitos, seja através de posições políticas, ameaças etc.

Esse poema do Carlos Marighella, que foi um militante morto pelos militares durante a ditadura e que chegou a ser considerado o “inimigo número um” do regime, fala exatamente sobre esse medo que permeava a vida dos lutadores:

Rondó da Liberdade

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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