3 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Medo: não é nada pessoal, mas é tudo pessoal
Ilustração: Isadora M.
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Texto por Mariana Paraizo.

FOBIAS

Desde o momento que você saiu de uma barriga até o presente, a sua vida foi uma sucessão de experiências que, em conjunto e em particular, são únicas. Você gosta de comer milho e as festas juninas sempre foram sua época do ano favorita, você amarra seus sapatos fazendo o nó que sua professora de jazz te ensinou, você teve alguns peixes, um gato, nove hamsters e odeia passar por aquela rua onde você foi assaltada pela primeira vez. Às vezes, as pessoas têm traumas de infância, outras têm medos irracionais. É normal, mas, se você, por causa destes medos, já criou impedimentos para a sua vida, motivos para não ir a algum lugar, se passa por situações mais complicadas e treme, sua ou sente o coração disparar só pela simples lembrança… Bem, você tem uma fobia.

A fobia tem uma cara própria, às vezes louca, às vezes meio torta. Pode ser de qualquer coisa, até de farelos e migalhas de cabelo (farelofobia capilar), e ter diversos graus de intensidade. Há vezes em que a fobia toma controle da vida do seu “hóspede”, como um parasita, causando mudanças de comportamento que comprometem o sucesso de uma pessoa, causando tormento psicológico e até sintomas físicos. Problemas deste calibre não são “frescuras” e, sim, motivos de tratamentos sérios e com profissionais qualificados. A raiz destes medos, muitas vezes, tem origem profunda nas nossas memórias e só com algum tempo de terapia que a situação pode se reverter. O próprio fóbico pode procurar ajuda por causa de seu desespero, como forma de se proteger, ou pode ficar paralisado. Nestes casos, é preciso conscientizar o fóbico de que ele está passando por problemas psicológicos sérios e precisa de ajuda.

O MEDO DE TER MEDO

O medo também pode se manifestar de forma refletida, como um espelho. “O medo de ter medo”, forma como também é chamada a crise ou síndrome do pânico, causa confusão até em quem sente. Como compreender algo que é tão abstrato, que quase não pode ser descrito? Mesmo quem sente tem dificuldade em descrever o motivo real da sua ansiedade. A agorafobia é o medo mais próximo da crise de pânico. Ela ocorre quando o fóbico sente ansiedade extrema ao pensar no mal estar que pode sentir em não conseguir sair do meio de uma multidão. Não é a multidão em si que traz o medo a esta pessoa e, sim, a sensação de que há perigo iminente. Este medo acaba por tornar aquilo que era apenas receio em realidade: o agorafóbico começa a sentir o mal-estar que ele próprio temia e sofre a situação que lhe causa tanto pavor. Uma crise de pânico acontece da mesma forma, com um detalhe diferente: não existe necessariamente uma ocasião que vá engatilhar a crise, então ela é sempre uma ameaça.

Quem está sob o peso de uma síndrome de pânico passa por muito estresse. Por não compreender as reações de seu corpo como reações a pensamentos, as crises podem lhe parecer sintomas de uma doença física desconhecida. A sensação de que você vai morrer e de que não consegue respirar, a taquicardia, o suor frio e, o pior, a despersonalização, vão minando a confiança de quem sofre da síndrome e podem levar à depressão. Passando a viver num mundo próprio, estas pessoas se sentem dissociadas do mundo ao qual pertenciam, se isolando. Tarefas que antes lhe causavam prazer podem se tornar fonte de estresse, por medo de que “ela”, a crise, volte. As primeiras crises de pânico, muitas vezes, são traumáticas, isto é, o cérebro armazena a situação como um perigo e toda vez que a sensação de ansiedade volta, é provável que esteja para vir uma nova crise de pânico por causa da memória neuronal.

Quando eu comecei a ter crises de pânico frequentes, eu meditava em grupo. Uma vez o medo me assaltou no meio de uma sala com um grupo de 50 pessoas de olhos fechados. O desespero me fez ter vontade de correr e gritar, mas eu não podia. A garganta parecia estar entalada, eu queria voltar a respirar. Naquela época, me disseram para dormir cedo, me alimentar bem, fazer exercícios. Se cuidar nunca é excesso, mas não era aquilo que eu precisava exatamente.

Não existe fórmula para sair da Síndrome do Pânico. Pode ser que você descubra sozinha, ou precise da ajuda de um terapeuta, de amigos, familiares, remédios, um desconhecido, uma crença ou algo para se ater. Pode ser que você também não descubra. Na minha primeira consulta com a minha psicóloga, eu pedi a ela que me prometesse que eu ia melhorar. Ela me disse que não poderia fazer isso. Por mais estranho que pareça, confrontar a minha total falta de controle sobre a situação foi algo necessário para a minha melhora. O pânico se relaciona intimamente com a ansiedade, a necessidade de que tudo saia como previsto. Criar expectativas só piora. É preciso confiar em algo, e, às vezes, admitir suas fraquezas.

Os remédios me salvaram. Este é um tema controverso, mas que precisa ser tocado. Foi a forma que eu encontrei de quebrar o ciclo do desespero, um intervalo para poder me encontrar nos meus pensamentos. Tomar os ansiolíticos e antidepressivos não me deixava completamente imune ao que eu sentia, como muita gente deve imaginar. Mas eles foram necessários para eu acreditar de novo que existia vida além da dor. Eu nunca abandonei meu tratamento psicológico e, apesar de eu ter saído do olho do furacão, sei que ainda estou na área de risco, aprendendo a quebrar o ciclo dos sentimentos antes deles virarem reações corporais, no estado em que eles ainda são apenas pensamentos. Desde a primeira crise de pânico, já fazem 6 anos. Este ano eu tive outra, mas elas não me assustam mais da mesma forma. Eu respiro fundo e lembro que eu sou forte, que é uma sensação e me sento por um tempo em algum lugar silencioso… E se tudo der errado, eu tenho meu Rivotril na gaveta – e isso me acalma.

Mariana Paraizo é colaboradora de Artes e ilustradora. Mazô, vim de um planeta onde copos não precisam ser lavados e roubar balas no supermercado não é errado. Estou constantemente viajando em mim mesma e nos meus desenhos. Gosto de cantar, mas o que eu decidi gostar mais foi de quadrinhos. Por isso, a maior parte do meu dinheiro em 2013 foi vertido em livros.
Site / blog / tumblr: https://mazotopia.tumblr.com
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  • Lu

    Ai, que texto importante! Eu sofro com síndrome do pânico e transtorno de ansiedade já fazem quase quatro anos, e durante todo esse tempo foi sempre um consolo enorme pra mim ler textos e depoimentos que falassem sobre o assunto de forma sincera, honesta, que conseguisse me refletir neles. E, deixa eu contar que, apesar de ser uma coisa muito comum, eu sempre tive um pouco de dificuldade em encontrar textos falando sobre isso de forma tão aberta – e que maravilhoso foi ver que vocês fizeram toda uma edição a respeito de uma coisa com a qual eu venho aprendendo a lidar há tanto tempo, o medo. Muito obrigada pelo depoimento, Mariana! ?

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  • barbarrá

    <3

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