Zumbis, bonecas, meteoros e músicas dodecafônicas: nossos medos de criança
Ilustração: Mariana Paraizo.

Ninguém é imune ao medo, disso a gente sempre soube. Quando somos crianças, somos ainda mais vulneráveis, porque a nossa percepção da realidade ainda é meio, digamos, confusa. E, se por um lado isso é incrível, porque nos permite sonhar e fantasiar sem limites, também abre espaço para que criemos uns medos meio malucos, geralmente totalmente infundados. Faz parte da infância temer uma série de maluquices, e a cultura popular está recheada de exemplos. Temos canções de ninar em homenagem ao bicho papão, um sem fim de lendas urbanas, um filme inteirinho da Disney Pixar só sobre monstros do armário (amo amo amo Monstros S.A.) e por aí vai.

Daí que nós resolvemos compartilhar os medos de algumas capitolinas com vocês – pra gente rir um pouquinho e pra lembrar que não há limites para a nossa loucura, e que você certamente não está sozinha na sua fobia de lagartixas ou coisas do tipo.

Começando com esta que vos escreve, que na verdade não tinha medo de uma coisa específica, mas de um evento. Passei boa parte da minha infância achando que o mundo poderia acabar a qualquer momento, e isso gerou muita ansiedade na minha pessoinha. Acho que aconteceu porque eu amava tudo relacionado a ciências e espaço, e aí acabei vendo algum programa na TV à cabo que falava sobre a probabilidade de asteroides atingirem a Terra. Soma-se isso aos filmes de catástrofe e está feito o estrago. Eu achava que podia ir pra cama uma noite e não acordar nunca mais. Veja bem, eu não tinha medo de morrer – tinha medo do mundo acabar, é diferente. Levei séculos pra confessar isso pra minha mãe, que acabou conseguindo me acalmar, mas essa história foi tão marcante que esse ainda é um dos meus assuntos preferidos, e aparece nos meus textos o tempo todo.

Agora vamos aos medos das coleguinhas. Preparada? Então faz uma pipoca e vem com a gente:

Gabriela Martins tinha (tem?) medo de zumbis e gostaria de uma metralhadora, por favor

Meu tio sempre gostou muito de filmes de terror, e eu nunca tinha visto um. Quando eu tinha cinco anos, ele me chamou pro quarto dele (ou eu simplesmente apareci lá, como eu fazia bastante), e ele estava vendo um dos milhares de filmes do Jason (Sexta-feira 13). O que eu lembro: matavam o Jason e deixavam o coração dele numa caixa. Um policial, em algum momento, resolvia ir lá pegar o coração – que ainda batia, todo marrom, metade podre e metade chocolate, do tamanho de um coração de boi – e… comer. E aí, ele virou o Jason. E aí, eu entrei em pânico. Mas isso não foi tudo. Uns poucos anos depois, com Resident Evil (o primeiro, do PlayStation 1!) em mãos, eu vi o Jason, de novo, só que diferente. Era uma cena em que o jogador andava até o fim de um corredor e, quando chegava lá, tinha um zumbi. Era ridículo, pensando nisso agora: usando uma calça marrom, uma camisa de manga comprida verde limão e tendo uma cabeça que parecia uma bola de golfe, meio furada e bizarramente branca. Mas, se eu lembro até hoje, é porque teve um impacto muito grande em mim. Eu comecei a ter pesadelos com os zumbis toda noite, por meses. Em algum nível, eu sabia que zumbis não existiam. Foi por isso que eu continuei jogando, e Resident Evil virou minha segunda série de jogos preferida. Mas mesmo assim eu olhava por cima do ombro em todo canto escuro, e me negava a recolher as roupas estendidas no pátio atrás da casa depois das 19h. Eu acho que superei o medo. Eu entendo 100% que zumbis não existem (e se vierem a existir, eu vou ser uma das malucas que vai querer uma metralhadora e sair por aí dando tiro), mas vou admitir que me dá um embrulho no estômago de nojo toda vez que penso nisso: gente, zumbi é carne podre andante! Eu, hein, que ideia.

Lorena Piñeiro tinha medo de bonecas e faz terapia, ok?

Medo de boneca é um daqueles clássicos infantis tão antigos quanto o próprio mundo. Imagino um homem de neandertal desenhando uma bonequinha na parede da caverna e aterrorizando as crianças de neandertal. Então eu peço desculpas pelo clichê, mas preciso desabafar. Acho que esse pânico irracional de garotinhas feitas de plástico brotou no meu cérebro com a descoberta do filme Brinquedo assassino, aquele do Chucky. Não gosto nem de falar o nome daquela coisa. Enfim, o você-sabe-quem me apavorava tanto que protagonizou um dos momentos mais icônicos da minha infância. Estava na recepção de um hotel com papai e mamãe esperando que eles fizessem o check-in. Fiquei distraída por alguns segundos quando uma propaganda começou na televisão: obviamente, era daquele filme. Não sei o que deu em mim, mas corri de olhos fechados por uns dez minutos até meus pais me encontrarem no oitavo andar do hotel, sentada quietinha no canto com os olhos bem arregalados. Alguns dias depois, cheguei em casa e enterrei o bonequinho ruivo que veio no meu balde de Lego. Por ter medo que minhas bonecas também se rebelassem contra mim e resolvessem usar as facas da cozinha, dava um doce beijo de boa-noite em cada uma delas antes de dormir, para demonstrar respeito. Eu as amava, mas andava na linha para que elas não ficassem insatisfeitas. Podem ficar tranquilas que eu já faço terapia, ok?

Sofia Soter fazia associações complicadas demais para crianças de três anos (e já pode voltar a assistir Game of Thrones)

Quando eu tinha dois anos, meus pais se mudaram para Paris, comigo a tiracolo. Um pouco depois, vi Bambi pela primeira vez. Para qualquer pessoa sensata – ou seja, não uma criança de dois anos – os dois fatos não teriam nenhuma relação. Mas a criança medrosa que eu era, tentando se adaptar a um lugar novo e totalmente incapaz de distinguir filmes da Disney da realidade, logo pegou o drama do filme e o aplicou à própria vida. Resultado? Conforme o inverno foi se aproximando, comecei a entrar em pânico. Os dias estavam esfriando, as folhas estavam caindo, todo mundo me dizendo que o inverno ia chegar, e que ia ser frio, e que talvez tivesse neve, mas eu ia me agasalhar e não devia me preocupar. Mesmo assim, a preocupação se mantinha, a ponto que, um dia, caí aos prantos, desesperada, no colo da minha mãe. Ela, claramente confusa e preocupada com o que me levava a tal reação, perguntou o que havia acontecido. Revelei, então, a correlação estranha e confusa que tinha feito entre a ficção e a realidade: no filme, o inverno é a estação em que a mãe do Bambi morre; portanto, na minha lógica infantil e apavorada, o inverno era uma estação aterrorizante, que levava à morte das mães. Fui reconfortada, o medo passou, e hoje em dia aprecio o inverno (até bem mais do que o verão). Mesmo assim, em conversa sobre esses medos com as meninas aqui da Capitolina, a Lorena me propôs uma teoria: talvez venha daí minha pequena implicância com Game of Thrones. Talvez eu ainda não esteja pronta para o inverno que está chegando.

Georgia Santana tem o pai mais zoeira da história

A minha família sempre gostou muito de música, eu cresci rodeada de muitos discos e é corriqueiro nos fins de semana eu ser acordada por alguma música escutada pelos meus pais, enquanto eles estão arrumando a casa ou tomando café da manhã. E, dentro desse ambiente, duas coisas me assustavam muito: a música “Time” do Pink Floyd, e o Ozzy Osbourne. O meu pai é absolutamente apaixonado pelo Black Sabbath, é a banda favorita dele, então toda vez que ele escutava o disco, a capa do disco ficava em evidência perto do aparelho de som, e eu sempre tinha que passar rápido pela sala para não ter que dar de cara com o Ozzy. Mas a capa mais problemática não era a do Black Sabbath, e sim a do Speak Of The Devil, trabalho solo do Ozzy. Até hoje eu morro de medo dessa capa, apesar de ter superado bastante o meu medo do Ozzy. Quando meu pai comprou um aparelho de DVD e passou a comprar DVDs dos shows do Black Sabbath, eu tinha que pedir pra ele ver quando eu não estivesse em casa. E meu pai nunca realmente levou a sério esse medo. Ele nunca achou que eu pudesse ter medo de um artista que ele gostasse. O mesmo acontecia quando ele ia colocar o disco Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, para tocar. Chegava na música “Time” e eu ficava com muito medo dos relógios. Eu achava muito sombrio, muito perturbador, nunca consegui entender por que me dava medo, mas eu não podia ouvir aquela música sozinha. E, como meu pai sempre foi ~da zoeira~, nunca levou em consideração que eu tinha medo daquela música e nunca respeitou muito isso. Então um dos momentos mais amedrontadores da minha infância foi uma vez que ele colocou “Time” pra tocar e desligou todas as luzes da casa. Acredito que ele possa ter feito isso para que eu enfrentasse esses medos, mas na época eu não entendi assim e a última coisa que eu queria era ter alguém em quem eu confiava me colocando em situações de tamanho pavor e não levando em consideração e não respeitando meus medos.

Bárbara Fernandes acreditava em tudo que seus pais diziam

Os meus, e acho que a maioria dos pais, usaram uma estratégia muito maligna pra evitar que os filhos, quando criança, fizessem algo “errado”: inventar uma história completamente fantasiosa, que pra gente fazia muito sentido, sobre as possíveis consequências de fazer besteira. Eu me lembro de um dia em que estava viajando para a praia com os meus pais e a gente decidiu dar uma volta. Como qualquer criança comum, eu estava cheia de energia e eufórica, afinal, era férias e eu estava na praia. Foi no meio dessa euforia que eu engoli um chiclete e imediatamente lembrei que se eu engolisse um chiclete ele ia grudar nas minhas tripas! E eu não conseguiria mais fazer o número 2! E, seguindo essa lógica, tudo o que eu comesse ia ficar acumulado dentro de mim por toda a eternidade (ou até que eu explodisse). Minha única reação em meio ao desespero foi fingir um desmaio no meio da rua. No fim eu descobri que o chiclete não tinha um poder tão grande de fixação (só no cabelo). Outra coisa que eu acreditava era que comer caroços faria nascer um pé de fruta no meu estômago. Melancia era a pior! Tinha tantos caroços e imagina que ruim ter um pé de melancia no estômago?! Eu ainda não aprendi a comer os caroços da melancia, mas sei que hoje não há chances de nascer nenhuma planta dentro de mim – se bem que não faz muito tempo eu vi uma notícia sobre alguém que tinha uma arvorezinha no pulmão porque respirou umas sementes, vai saber…

Julia Oliveira foi uma criança muito intelectual

Como muitas crianças, eu adorava assistir aos coloridos filmes da Disney. Em um dia não muito belo vi pela primeira e última vez O Corcunda de Notre Dame. Não, não foi o Quasímodo que me amedrontou. Eu fiquei impressionada foi com a cena em que o rosto do vilão (nem lembro o nome dele) aparece como um holograma em uma fogueira. Fim da cena, início do pavor. Os desenhos formados pelos veios naturais das portas de madeira começaram a parecer rostos em labaredas de fogo para mim, o que me deixava completamente assustada. Resumo da ópera: minha mãe teve que cobrir todas as portas de madeira da casa com lençóis. Também morria de medo de algumas músicas, especificamente as dodecafônicas do Arrigo Barnabé, “Noite no Castelo”, do Hélio Ziskind, e o álbum Rumo para Crianças, do Grupo Rumo, que tinha um monstrengo verde vestido de marinheiro em sua capa (sério, que péssima ideia fazer um disco pra criança com monstro na capa!). Basicamente todos os sons que evocavam uma atmosfera meio macabra, seja pelas letras ou pela sonoridade mesmo, me faziam colocar as mãos nos ouvidos e pedir aos gritos que pelo amor de deus tirassem aquela música. Eu continuo me borrando com o Arrigo, mas agora pelo menos consigo manter a compostura.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

Gabriela Martins
  • Colaboradora de Cinema & TV

Apaixonada por seriados, escrever e dar aula. Estudante de letras, professora de inglês, escritora amadora enquanto um agente literário não se apaixona e diz que ela é tudo que sempre sonhou. Acredita veementemente na capacidade de cada um de salvar o mundo, e tem uma metáfora capa de super-heroína que veste mentalmente em situações difíceis.

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Georgia Santana
  • Coordenadora de Revisão
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

25 anos, do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Natal - RN. Estuda Biblioteconomia na UFRJ. Assiste a qualquer tipo de competição esportiva e lê muitas biografias / autobiografias e já chorou de emoção ao comer caldinho de sururu. Odeia barulhos, luz artificial e frio. 90% lufa-lufa, 10% sonserina.

Bárbara Fernandes
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

Bárbara, 21 anos, vinte vividos na cidade de São Paulo até o dia da fuga pro sul numa tentativa falha de pertencer a algum lugar. Não sabe fazer decisões, medrosa além do normal, odeia usar sapato, sempre lê tudo o que está escrito nas embalagens, gosta de ficar conversando com os gatos e de tomar banho no escuro.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Johanna

    Eu tbm moria de medo do mundo acabar, uma vez amarrei uma boneca com medo que ela me matasse e gracas ao meu querido papai MORRO de medo de zumbis, serio ne gente que tipo de pai deixa uma menina de 9 anos ver Noite dos Mortos Vivos kkkk, sou traumatizada ate hoje com isso.

  • Pingback: Coragem não é o oposto de medo | Capitolina()

  • disqus_MwdVZLchhS

    Pensei que só eu tinha medo do brinquedo assassino e me sento estupida por isso pq já tenho 21 anos , mas enfim,é a vida né …

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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