20 de maio de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Meninas Malvadas, O Livro do Arraso e a irmandade entre garotas ou Por que a sororidade é importante?
Ilustração: Beatriz H.M. Leite.
Ilustração: Beatriz H.M. Leite.

Ilustração: Beatriz H.M. Leite.

 

Há 10 anos estreava um dos filmes mais repetidamente assistidos por mim (e creio que por outras Capitolindas – colaboradoras e leitoras – também): Meninas Malvadas (Mean Girls, no original em inglês). O filme é sobre a introdução de Cady (papel da Lindsay Lohan) na escola, o que para ela era uma novidade completa, já que, até aquele momento, tinha sido ensinada em casa por seus pais.

Cady se depara com um ambiente de intensa competição e ódio entre as garotas, que se dividem, invariavelmente, em “tribos” muito bem demarcadas e que exigem um estrito código de vestimenta, comportamento e desempenho na escola para quem pretende se adequar a qualquer uma delas: as nerds, gordas e inteligentes; as atletas, saradas e populares; as patricinhas, fashion e burras… A quantidade de estereótipos é enorme (e muito conhecida por todas nós).

E foi isso que motivou o Livro do Arraso, onde as garotas populares, lideradas por Regina George, escreviam coisas maldosas sobre todas as outras garotas da escola. Quando ele se tornou público, por meio de um ato de vingança da própria Regina, o caos foi completo, porque evidenciou a grande quantidade de fofocas e calúnia que as garotas levantavam umas contra as outras.

Todas as meninas, sem exceção e incluindo a professora, ficaram revoltadas em um primeiro momento, e muito tristes e machucadas depois, por saberem que suas colegas achavam coisas tão horríveis assim, que muitas vezes não eram nem verdades ou se baseavam em um grande mal entendido ou que eram apenas um julgamento muito hipócrita das ações alheias. Muito chato, né?

É claro que é sempre bom ter aquele sentimento de pertencer a algum grupo, cujas pessoas compartilham dos mesmos interesses que você, mas é preciso ter cuidado quando fazer parte de um grupo implica, necessariamente, hostilizar os outros grupos, só porque eles são de pessoas diferentes de vocês. Além disso, será mesmo que é necessário se enquadrar em um só grupo cujas pessoas tenham alguma coisa em comum com você? E se você for uma garota que gosta de seguir as tendências da moda, mas também adora matemática, como a Cady? Aliás, por que todas as garotas não podem ser incentivadas a seguir seu próprio estilo livremente e gostar de ciências exatas e praticar esportes?

Vivemos em um mundo que segue aquele lema “dividir para conquistar”: é mais fácil inibir a união poderosa e transformadora das garotas quando elas estão se odiando, separadas por picuinhas imaginárias já desde muito cedo. Quem não se lembra de inventar um apelido maldoso pra amiguinha só porque ela tinha uma característica física diferente? E quem nunca recebeu de volta um apelido igualmente maldoso por tirar notas mais baixas que a média da turma?

É assustador como, quando paramos pra pensar, tudo faz com que ressaltemos negativamente as diferenças entre nós. Aliás, como é comum desvalorizar tudo o que vem da “outra”: uma garota nova na escola, alguém que não é do seu ano, uma menina de outra etnia ou classe social… Ao invés de nos inspirarmos nas diferenças tão enriquecedoras, nós preferimos estar em caixinhas de categorias muito limitadas. Vocês não acham isso muito, muito ruim? A gente tem que começar a repensar todas essas caixinhas em que os outros insistem em nos colocar… Porque elas só separam e afastam as garotas, que poderiam sim ser muito amigas e ter muito o que compartilhar umas com as outras.

Estamos terrivelmente condicionadas a destruir a autoestima de nossas colegas e elas, a nossa. Estamos sempre escrevendo linhas e mais linhas n’O Livro do Arraso, traindo a confiança de nossas amigas ou nos impedindo (e impedindo as nossas colegas) de criar laços mais profundos e sinceros umas com as outras. E tudo o que fazemos de destrutivo às outras garotas, recebemos de volta das mais variadas formas.

Confundimos nossas maiores aliadas com inimigas, e fazemos delas alvo de xingamentos e agressões, fragilizando o psicológico de nossas colegas e enfraquecendo os laços com nossas amigas. E, como sabiamente a professora de Cady, Sharon Norbury (interpretada pela também roteirista do filme, Tina Fey) destacou, o fato de nós, garotas, ofendermos constantemente umas às outras, abre espaço para que os garotos também façam isso.

Esse tipo de experiência deixa marcas profundas em todas e em cada uma de nós, que saímos da escola com uma bagagem de relações de certa maneira traumáticas, o que tem repercussão em outros âmbitos de nossas vidas. A baixa autoestima é muito responsável por inúmeros problemas que enfrentamos na adolescência e na vida adulta, e as primeiras sementes desse mal já foram plantadas muito cedo em nós pelas mídias, pela escola e, infelizmente, por nossas próprias colegas.

Isso pode contribuir para que aceitemos passar por humilhações no trabalho, ou estar em um relacionamento abusivo, quando o agente dessas agressões for um homem, por exemplo, pois é uma relação em que a hierarquia está mais naturalizada. E diminui drasticamente nossas fontes de apoio, porque encontramos em nossas amigas mulheres mais uma fonte de julgamento e culpabilização.

O que é sororidade, afinal?

Sororidade é a irmandade entre as garotas, mais ou menos como o termo aplicado pros garotos brotherhood (o que significa, literalmente, fraternidade, mas pode ser entendido como “broderagem” haha). É o apoio mútuo entre meninas das mais variadas origens, mas que têm uma coisa muito importante em comum: a identidade feminina, que, ainda hoje, é muito desvalorizada por aí. A sororidade é um importante instrumento de fortificação de laços entre as mulheres, para formar uma rede de confiança, segurança e amizade, que só pode resultar em mais força pra nós mesmas.

Nesse sentido, é preciso que nós, garotas, sejamos mais unidas e solidárias umas com as outras, pra mostrar que, juntas, somos mais! E deixar bem evidente pra todo mundo que a gente se apoia e acredita uma na outra, e que estaremos aqui pro que der e vier. É importante sinalizar pras suas colegas que elas podem contar com você para o que elas precisarem e ser uma fonte de ajuda e segurança para elas, assim como elas devem o ser pra você. Não é muito melhor saber que tem com quem contar, ainda mais quando essa pessoa pode saber exatamente pelo o que você está passando, já que ela pode passar pelas mesmas coisas, por mais diferente que ela seja de você?

Como a Cady faz no baile, divida a coroa com todas as garotas, porque todas nós merecemos!

Imaginem a quantidade de experiências boas que podemos ter com gente diferente da gente, que são desperdiçadas em nome de um ódio infundado entre as garotas… Imaginem os frutos de uma união criativa dessas diferenças para construir coisas legais pra todas nós? Aliás, este tipo de união entre garotas diferentes, de tribos diferentes, de interesses diferentes, resultou nessa revista aqui, a Capitolina! Ai da gente se tivesse fechado os olhos pra essa diversidade que é tão boa e que resultou nesse projeto (sou suspeita pra falar, é claro) tão, tão bacana!! No limite, a Capitolina é só um dos infinitos frutos da sororidade.  :)

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Malu Stiepcich

    Amei o texto, amo vocês, suas lindas.

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  • Luísa

    Vontade de imprimir esse texto e sair distribuindo por toda a escola (tá, vai ficar só na vontade mesmo, mas pelo menos vou tentar fazer minhas amigas lerem). Eu penso nesse ódio gratuito que as meninas têm umas com as outras faz um tempinho, mas sempre que venho da escola com uma das minhas melhores amigas esse tema fica na minha cabeça por dias. Acontece que essa amiga passa o caminho todo da escola até nossas casas falando mal de várias outras meninas que não fazem parte do nosso grupo de amigas. E o pior é: ela não tem argumentos pra não gostar dessas meninas. O horrível é perceber que, por convivência, peguei essa mania chata de julgar ao próximo somente pelas roupas ou qualquer outra coisa insignificante. Eu realmente queria viver num mundo onde ir pra escola não fosse a pior coisa do meu dia, e não porque eu tenho que estudar, mas por saber que ali é uma constante competição pra ver quem é a melhor das meninas baseando-se em conceitos errôneos e superficiais….

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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