21 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Meninas, a rua é nossa também!
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Muita gente não sabe, mas a história meiga da Chapeuzinho Vermelho mais disseminada hoje nasceu, na verdade, como uma metáfora para alertar garotas do risco de falarem com estranhos se andassem sozinhas por aí. Ou seja, desde crianças, a ideia de que o mundo lá fora é perigoso para meninas é encucada em nossas cabeças, de maneira mais ou menos sutil, seja a partir de contos de fadas ou orientações explícitas de nossos pais de que não se deve andar sozinha na rua e muito menos confiar nos “outros”.

Conquistar nossa liberdade para começar a sair de casa sozinhas, passear com amigas ou voltar da balada de madrugada leva certo tempo, se comparado com a liberdade que nossos colegas meninos ou até mesmo nossos irmãos experimentam geralmente mais cedo que a gente. Imagino que vocês não se cansam de se perguntar o porquê.

Tudo isso porque, historicamente, as mulheres têm sido relegadas ao âmbito doméstico, dos afazeres e da vida privada; enquanto os homens ocupam os espaços públicos e externos da nossa sociedade. Ou seja, enquanto você ganhava uma cozinha de brinquedo no Natal, o que te lembrava do seu papel social, que é o cuidado da casa, seu irmão ganhava um carrinho ou uma bola, um super incentivo para ele entender que o lugar dele é lá fora, na rua, no mundo.

Para nos convencer da concretude (ilusória, é verdade) desses papéis, a sociedade também criou todo um repertório de ameaças físicas e psicológicas à mulher se ela ousasse estar nos ambientes que não lhe pertenciam (e não nos pertencem até hoje). Aliás, o discurso do medo do “outro” serve a infinitos propósitos, em geral de origem preconceituosa, mas ele recai muito mais duramente sobre nós, mulheres. E o grande responsável por isso é uma coisa nada nova, chamada machismo.

O machismo da nossa sociedade é responsável por engrossar, disseminar e recriar sempre esse discurso de que mulheres são frágeis, de que a rua não nos pertence, de que nosso lugar é em casa cuidando do jantar e dos filhos e, ao mesmo tempo, contribui para a existência real das ameaças que nos fazem sentir medo. Quero dizer, é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que é um recurso discursivo, que fica no plano das ideias, o machismo produz atitudes concretas que violentam nossa integridade quando nos encontramos fora dos nossos papeis. E é isso que nos acontece nas ruas.

Quantas vezes você já se sentiu acuada na rua porque algum otário gritou um sonoro (e ofensivo, não te deixem convencer do contrário) “Hmmm, delícia!” ou coisas do gênero? Quantas vezes você já ficou desesperada e atravessou pro outro lado da calçada quando, à noite, tinha um cara e mais ninguém à vista na rua? Ou ainda quando quis chorar de vergonha, raiva e medo quando te assediaram no metrô? No trabalho, na sala de aula, no supermercado… Muitas, incontáveis vezes, eu aposto. Porque sou mulher e isso vive acontecendo comigo.

Acontece com tanta frequência que também é frequente o pensamento derrotista e de culpa do tipo “Eu realmente não deveria voltar tão tarde pra casa” ou “Não deveria estar usando meu short nesse calor, porque, né, eu ia pegar metrô”. Só que é aí que tá a grande armadilha: ele é a causa do que sofremos mas a gente ainda se sente culpada por sofrer essa violência, por querer estar na rua e poder caminhar com segurança, por ser mulher.

O medo em nós do “outro” e do “exterior” é tão, mas tão enraizado (e fundamentado, infelizmente) que é só dar uma olhada rápida no vídeo desta edição, em que algumas de nós mencionamos que, se NÃO tivéssemos medo, faríamos uma viagem de carona, porque, curiosamente ou nem tanto, o maior impedimento que temos é a preocupação com a nossa integridade física. Numa dessas caronas podemos ser violentadas. Agora pergunte ao seu amigo que já pegou muitas caronas naquela viagem pro litoral, se ele algum dia chegou a cogitar esse medo de ter seu corpo violado. A resposta vai ser não, muito provavelmente.

De maneira geral, somos desencorajadas a assumir qualquer prática autônoma, que se assemelhe com o protagonismo de nossas próprias vidas, decisões e corpos. Somente para exemplificar, cito aqui a prática muito comum nos dias de hoje que é o revenge porn, o que muitas garotas sofrem por ousarem confiar em parceiros sua performance sexual, seja em forma de fotos ou de vídeos, e que são não só massacradas publicamente por isso, como também culpabilizadas por uma sociedade que, no limite, incentiva a exposição de mulheres como objetos e não seres com vontades e desejos.

A gente acaba caindo na retórica de que o mundo lá fora é perigoso para nós e que não podemos confiar em ninguém (inclusive em outras mulheres: já foi tratado aqui de como a rivalidade entre mulheres é muito propagada) e aceitamos com resignação a preocupação alheia com nossa integridade. Mas a verdade é que essa pretensa preocupação com a nossa segurança serve muito mais para controlar nossas vidas, nossas atitudes e nossa independência do que promovê-la de fato. Não é aceitando como dada uma realidade violenta que estaremos mais seguras, até porque não é só nas ruas ou por parte de desconhecidos que sofremos violência de todo o tipo.

O que fazer então num mundo onde as consequências de ser mulher e desafiar os papéis a nós impostos são, no mínimo, amedrontadoras? Sei que a vontade é aceitar de cabeça baixa e passar o resto dos dias deitada em posição fetal. Mas é isso que querem produzir na gente: tanto medo de ser o que somos que nossa opção seja existir sem incomodar. Só que tem sido cada vez mais difícil segurar a onda de mulheres que cresce e cresce todos os dias contra essa corrente, contra o machismo e contra o medo. E posso te garantir: eu poderia cair como um patinho e viver paranoica o tempo todo, mas por enquanto eu me recuso a sentir medo de gente. Afinal, todas as pessoas são iguais em direitos e a rua é nossa também!

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Bianca Xavier

    Sensível, verdadeiro e bem escrito! 🙂

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  • V.A.

    Meninas, vocês não têm ideia de quanto essa revista, e, em especial esse texto, me fizeram sentir abraçada! Tenho 29 anos e ainda me vejo na tétrica situação de ser controlada pelos pais nas minhas saídas, e isso porque já saí de casa…”Fica aí pegando táxi de madrugada, sozinha, sem homem, vai ser estuprada!!”

    Eu moro com meu noivo, mas nem sempre a gente sai junto, temos gostos muito diferentes, mas não entendem…acham que ele deveria ser meu cavaleiro prateado e me proteger de tudo e todos, a todo momento…o criticam, o desvalorizam… “Ele não te ama! Nem sequer gosta de você! Quem ama cuida!”

    Mas não terei medo!! Me querem bem guardada e alheia ao mundo, sei que talvez por excesso de amor, mas eu não vou me conformar!

  • Nayra Schall

    oi Gabriella!

    Primeiro parabéns pelo post. Concordo em todos os aspectos com os pontos que você levantou por isso não pude deixar de comentar.

    Não sei estou tão fora dos padrões de beleza dos babacões de rua (acho difícil, já que eles não são nem de longe tipos exigentes), ou se não presto atenção, mas tenho a impressão de sofrer bem menos assédio que a maioria das mulheres comenta.
    Gosto de acreditar que é porque eu não sinto tanto medo de andar andar sozinha. Ando atenta como todas nós, mudo sim de calçada se vejo alguém estranho (não vou ficar facilitando), mas procuro me impor, andar ereta, com as costas retas, cabeça erguida e olhar pras outras pessoas quando estas olham para mim, não com um olhar de retribuição, mas pra mostrar que eu as estou enxergando, que me considero igual a elas e espero ser repeitada.
    É isso o que nós temos que fazer, tomar os lugares que são nossos por direito.
    Medo é uma coisa muito difícil de controlar, mas esse é um medo que temos que enfrentar. Mesmo se estiver com medo, finja que não está, não abaixe a cabeça, não se diminua, pelo contrário, se espalhe, se avolume, se levante. É exatamente o que você disse: todas as pessoas são iguais em direitos e a rua é nossa também!

    Continuem com o ótimo trabalho que fazem com a Captolina! Adoro vocês!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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