11 de dezembro de 2019 | Ano 5, Edição #49 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Menstruação e conexão com a natureza

Você já ouviu a expressão “Fulano é de lua!”? Até que ponto aquela bola prateada no céu é capaz de influenciar emocionalmente as pessoas? Não é a toa que noite de lua cheia é sinônimo de maré alta – o astro exerce influência direta sobre os rios e mares do planeta Terra.

Tendo em vista que o corpo humano é composto por cerca de 75% de água, há quem acredite que a lua interfere também a produção hormonal e nos nossos líquidos internos. As mulheres (cisgêneras), por sua vez, estão ainda mais suscetíveis ao astro, vez que estas sangram pelo menos uma vez por mês.

28 dias. Ou seja, quatro semanas: a duração do ciclo da lua entre as quatro fases (nova, crescente, cheia e minguante). Idêntico ao satélite, o ciclo menstrual – quando regular – dura o mesmo tempo. Talvez este dado seja o mais evidente a respeito do nosso pertencimento à natureza, popularmente chamada de mãe.

Chega a ser difícil definir se a relação entre a lua e o corpo humano é científica ou não mais que uma crença espiritual. Parafraseando o médico ayurveda Deepak Chopra, “quando acontece algo que não conseguimos explicar, chamamos de milagre. Mas, quando descobrimos o motivo, chamamos de ciência.” 

O que se há de observar é que tanto a ciência quanto a espiritualidade são maneiras de tentar compreender e se debruçar sobre a natureza, que é quase sempre imprevisível e, muitas vezes, indomável. Dessa forma, quer esta seja uma prática espiritual ou um costume em nome da saúde orgânica, observar a própria menstruação é uma maneira especial de conhecer o universo que há dentro de cada uma de nós. 

Tendo isso em vista, trazemos o ponto de vista de algumas mulheres (cis) dispostas a contar suas experiências de pertencimento ao cosmos através de seus próprios ciclos.

 

  1. “No mesmo mês eu comecei a fazer o meu diagrama lunar, a estudar e procurar as pessoas certas para me ajudar: outras mulheres!”, disse Tai Barroso, facilitadora do encontro sobre menstruação consciente A lua em mim.

“Em 2014 eu morava no Chile. Lá eu conheci o caminho espiritual dos indígenas da América do Norte, que habitam entre o méxico e os Estados Unidos. Eles têm sete cerimônias sagradas. Uma delas se chama busca de visão, trata-se de uma iniciação, equivalente a um batismo, só que bem mais forte. Nessa ocasião, você passa quatro dias de jejum de água e comida numa montanha e não pode sair dali: sim, são quatro dias sem água, sem comida e sem ver ninguém. Para equilibrar esse campo energético, cada pessoa que vai para a busca tem um representante num acampamento um pouco mais afastado, comendo, bebendo e descansado por ela. 

Como eu estava muito comprometida com a  cerimônia, eu me preparei de verdade. Precisei passar um tempo sem fazer sexo, sem beber, sem comer carne. E tive que rezar quatrocentas vezes, algo parecido com fazer uma novena, num paralelo com o cristianismo. Estava tudo programado para que eu fosse subir a montanha um dia após o fim da minha menstruação, mas ela atrasou e, por isso, eu não pude ir. Senti muita raiva, pensando algo do tipo ‘aff, fiquei um tempão me preparando e agora não vou poder participar!’. E aí, eu tive que ir pro acampamento, sendo que lá eu não podia tocar no alimento e nem ficar perto do fogo – ou seja, eu não podia fazer nada. 

É importante observar que as lideranças que me comunicaram que eu não poderia ir eram todas masculinas. E, pela tradição indígena, eu vim a saber mais tarde que homens não cuidam de assunto de mulheres. A única coisa que essas lideranças conseguiam me falar era que menstruar por si só já é uma cerimônia.

E aí eu me vi dividida entre duas vontades fortes: uma era tentar descobrir que raio de cerimônia era aquela [menstruar por si só] e a outra era parar de menstruar para sempre, porque eu estava com muita raiva. Ainda bem que eu segui a primeira opção! No mesmo mês eu comecei a fazer o meu diagrama lunar, a estudar e procurar as pessoas certas para me ajudar: outras mulheres! Mulheres que estavam no meu caminho, mulheres relacionadas a plantas, que trabalham com aromaterapia e com chás. 

Daí eu montei o meu altar no jardim de casa e lá eu comecei a plantar o meu sangue menstrual, ali era o meu cantinho. E foi incrível: da mesma forma que quando a gente aduba a terra, ela nos dá frutos, quando a gente deposita o sangue no solo, ele nos dá sabedoria, as coisas ficam mais claras, principalmente nossa intuição. Tudo faz sentido. 

Plantar a menstruação é como ofertar aquilo que se ganha. Todo mês a gente recebe ‘vida’. Então, devolver o sangue para a terra é uma maneira de oferecer a ‘vida’ que a gente não precisou, para que, num ciclo, aquela terra adubada volte a nos nutrir. A gente vê de um mês pro outro as árvores crescendo muito mais e frutificando muito mais, eu me sinto uma bruxinha!”

 

  1. “Quando o universo cria um problema, ele automaticamente cria também uma solução”, disse Catharina é Lessa, que é terapeuta, cantora e palhaça.

A natureza é perfeita. Todas as árvores embaixo do solo são conectadas, através de suas raízes. Tem uma rede, sabe? Cientificamente falando, isso é comprovado. Quando uma árvore é queimada, as raízes dela avisam para as outras sobre o que está acontecendo e aí, dentro dessa rede de raízes, elas passam os nutrientes que elas precisam umas para as outras, de forma que cada árvore tenha a oportunidade de se preparar caso a queimada chegue perto dela. Então, a intercomunicação acontece e isso mostra que o mundo tem as soluções para o que ele precisa. Por exemplo: a queimada faz parte da natureza, mas esse mecanismo também!

Tem um trecho do livro  “Um Curso em Milagres” que diz que, quando universo cria um problema, ele automaticamente cria junto uma solução. Todas as vezes que acontece alguma coisa que coloca a natureza em risco, o próprio fluxo trás uma saída para a situação. Então, é interessante a gente pensar essa redescoberta do sagrado feminino e da conexão com os ciclos como um chave para os problemas que as mulheres vivem hoje.

O sagrado também serve para entender que a gente é a natureza e a gente faz parte disso e, quanto mais cada uma se conecta com o que há de orgânico em nós, mais a nossa consciência se aproxima dessa organicidade. E, com isso, a gente pode ser mais poderosa. Nós temos muito mais potencial de ser co-criadoras da nossa realidade quando a gente põe os pés na terra. 

O que é real? Não temos como saber racionalmente… mas eu sei que, quando o meu sangue desce, ele é de verdade. Assim como eu sei que o sol vai nascer amanhã, posso apostar que minha menstruação virá no mês que vem. E essas são as pequenas certezas que podemos usar, para manter um direcionamento. Entender que somos natureza e que a gente mesmo está submissa às leis dela me ajuda a me conectar com a parte boa disso tudo que é a abundância, a beleza e os milagres.

 

  1. “A gente tem mania de achar que a nossa personalidade é uma só, mas a gente se transforma o tempo todo, junto da natureza”, disse Amanda Nakao, fotógrafa e produtora cultural.

“A experiência de me conectar com a natureza através dos meus ciclos teve início há quatro anos atrás, quando eu comecei a entrar em processos muito fortes de auto conhecimento, tomando consciência sobre o meu corpo, sobre quem eu era e o que eu queria na vida. Nesse momento eu comecei a fazer várias atividades, dentre essas, fotografar círculos femininos – um desses era bastante voltado para a menstruação, que é o A lua em mim.  

Lá a Tai falava muito dos rituais que cada mulher poderia fazer durante a menstruação e eu já estava fazendo um deles, que era pintar com o sangue. Eu tinha muita vontade de me expressar artisticamente com a menstruação. Então, eu fazia, mas eu deixava meio escondido. E, depois que eu fiz a oficina com a Tai eu liberei, de fato! 

E comecei a fazer também o cronograma lunar, que é uma ferramenta muito forte e eu uso até hoje. Me ajuda a me conectar com a lua e com a menstruação: sentir o fluxo da lua em mim, o fluxo da natureza, da menstruação. Tem sido muito legal, porque todo ano agora eu pego o mês dos anos passados e fico comparando, vejo como eu tava e como eu tô agora. É muito forte, porque me ajuda a me entender como um ser de fluxo, um ser cíclico, impermanente. A gente tem mania de achar que a nossa personalidade é uma só, mas a gente se transforma o tempo todo, junto da natureza. Ela também se transforma e perceber que a gente muda junto é muito bom.”

 

  1. “Eu estive muito envolvida, de uma forma pouco saudável, com processos políticos e de militância. Foi então que a reconexão com a natureza me ajudou.”, disse Caroline Amanda é terapeuta menstrual e idealizadora do Yoni das Pretas.

Militância, luta, resistência – todas essas palavras trazem peso para a nossa subjetividade e também para o nosso ventre, né? E eu senti isso em mim, como adoecimento. Por isso, eu imediatamente recorri aos saberes das mulheres da minha linhagem ancestral: banhos, banhos de assento, essas coisas…

Antes desse resgate, tudo era agonia, no sentido figurativo. Porque você desconta [as demandas de saúde negligenciadas] em outras coisas, né? Enfim, gasta-se muita energia com desvios de si mesma. Maneiras de fugir das coisas que o seu corpo está pedindo naturalmente, por exemplo: descanso, alongamentos, uma respiração consciente ou uma boa alimentação.

Em maio de 2016 teve o Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros. Foi um encontro muito grande – a gente recebeu mais de 2500 jovens do Brasil inteiro -, que me demandou muita atenção e tensão por várias questões. Eu fui uma das condutoras/idealizadoras do evento e aquilo tudo era um grande sonho.  

Quando foi chegando perto da data, eu fiquei uns três meses seguidos sem menstruar. A última mesa do Encontro foi conduzida por mim e, quando eu fiquei de pé para comunicar que as atividades estavam encerradas, eu senti o meu sangue descendo pelas pernas. 

Foi ali que eu percebi que eu era uma com meu corpo, meu ventre. Porque ele segurou toda aquela energia até eu dar conta de finalizar a minha tarefa. Hoje, como terapeuta menstrual, eu entendo que foi um modo de me preservar, porque eu precisava de toda aquela energia para que meu corpo estivesse em atividade e alerta constante. A questão é que eu vivi uma TPM de três meses! E isso não é bom. Eu não preciso colocar o meu corpo nesse grau de atividade, sabe? Porque o meu ventre segurou a minha demanda, mas também cobrou uma série de cuidados [depois que o evento acabou]. Então eu compreendi que eu não preciso me submeter a esse tipo de stress.” 

Ayodele Gathoni
  • Colaboradora de Artes

Ayodele Gathoni tem uns 20 e poucos anos e mora no Rio de Janeiro. Gosta de ver desenho animado, rodar bambolê e confeccionar licores artesanais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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