19 de dezembro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Mente sã, corpo são – a importância de cultivar pensamentos saudáveis

Não sei se vocês conseguem pensar qual foi o momento da infância que pararam pra dizer “eu estou sentindo isso”. Se não me falha a memória, comigo aconteceu cedo e acho que em geral acontece. Desde pequenos somos ensinados pelos nossos pais, pela escola, pelas pessoas que acabam influenciando o nosso processo de desenvolvimento que prestar atenção nas emoções é importante.

São comentários como “olha como ele é bravo”, “nossa, tá triste?”, “o que tá acontecendo, por que tá chorando?” e coisas do tipo que ajudam e acabam criando uma psicoeducação das emoções. A gente presta atenção no que sente, em como isso muda e no que as pessoas parecem sentir.

Logo depois de cumprir essa etapa, a gente também vai definindo o “quem somos” que, na leitura comum, são comportamentos mais frequentes lidos como aspectos da personalidade. Os comportamentos também vão gerando consequências diretas durante a vida: se você bate no seu irmão fica de castigo, ou leva bronca. Se você faz algo “positivo”, ganha um parabéns. E assim nós vamos, também, criando uma psicoeducação dos comportamentos.

Tá, mas e os pensamentos? Como eles são particulares, geralmente ninguém fica nos falando pra prestar atenção e ninguém tá muito acostumado a fazer isso. Só que, normalmente, uma emoção está associada a um pensamento que se antecedeu a ela e logo em seguida aparece um comportamento vinculado à essa emoção. Por exemplo: se a gente tira uma nota ruim numa prova e automaticamente pensa “nossa, eu sou burro”, isso vai causar uma chateação que poderá provocar um comportamento momentâneo (que não necessariamente é bom, como ser agressivo, chorar em um lugar que não se sente confortável e tal), e também pode causar um pensamento sobre quem nós somos mais a longo prazo. Como a gente não presta atenção no pensamento que veio antes de toda aquela cadeia, distorcemos toda a ideia de quem nós somos, como se aquele episódio definisse de fato tudo que a gente vai fazer em toda situação.

Então, vamos puxar pro lado da importância de manter pensamentos saudáveis. Tudo que a gente pensa vai provocar um sentimento com relação aquilo ou evocar algumas memórias (sem nem nos darmos conta), a gente vai agir respondendo às emoções passageiras que surgirem e, nem sempre, teremos bons efeitos disso (podemos nos controlar por emoções e agir impulsivamente). Se pararmos pra ouvir essa “voz interior” e tentar intervir nela e não na emoção (que não conseguimos controlar) e nem nas maneiras de diminuir os efeitos ruins de um comportamento (que já passou) depois, a gente poderia evitar muitos problemas e resolver muitas questões psicológicas internas.

Isso aqui não é pra criar uma ideia de que a gente deve, o tempo todo, cultivar somente bons pensamentos a respeito de tudo. Isso é IMPOSSÍVEL, sério. Seria entrar em uma prisão que não é justa. A gente pensa coisas não saudáveis sim, nem sempre os pensamentos vão ser bons. Mas podemos, sabendo como eles influenciam, tentar fazer um exercício de construir mais pensamentos bons sobre o mundo e sobre a gente.

Portanto, desconstruir os padrões sociais de beleza e deixar sua voz interna te dizer que você é maravilhosa é importante. Tentar encontrar evidências que vão contra pensamentos do tipo “o mundo tá perdido” é importante (por exemplo, entrando em contato com situações e pessoas que te mostrem o lado bonito da humanidade, vendo filmes/vídeos, conversando, pensando nas situações boas que você já viveu, trabalho voluntário, entre as mil maneiras que ache melhor pra você). Se empoderar é importante. Fazendo isso, a gente acaba influenciando nossa visão de como tudo funciona, acaba influenciando as emoções e comportamentos (que seguem esses modelos que a gente constrói) e acaba se ajudando a mergulhar numa maré de coisas mais positivas do que negativas. No final, é esse equilíbrio que conta.

A partir disso, também vale ressaltar que os pensamentos podem provocar reações no corpo ou comportamentos (respondendo às emoções que ele traz) que diminuam a imunidade, nos façam ter menos “cuidado” conosco, façam com que assumamos mais comportamentos de risco e podem “nos deixar” doentes. Já te aconteceu de, em um momento de muita tristeza, você não conseguir comer e ficar doente por conta disso? Ou de você sofrer uma perda grande e ter febre, sem saber explicar por quê? Tá aí, os pensamentos conseguem influenciar, também, em nossa saúde.

Resumindo tudo: pensar no pensar é importante e entrar em contato com pensamentos e coisas positivas também. Não que você vá fechar essa página e só pensar coisas boas por aí…é um exercício diário e cada um constrói seu caminho nisso (você escolhe quais práticas são melhores pra você e te provocam melhores pensamentos e emoções). Vão existir muitos momentos de deslize, mas o essencial nesse processo é manter a atenção e se permitir errar, lembrar que a gente tá colocando aquela criança que nós fomos pra aprender, assim como aprendeu com emoção e comportamento, a focar nos pensamentos também. Tentar “pensar no pensamento” que há por trás das situações e ir tornando essa conexão pensamento-emoção-comportamento cada vez mais adaptada ao que te deixa mais confortável e feliz.

Karoline Siqueira
  • Colaboradora de Saúde

Estudante do ultimo ano de Psicologia, no interior de SP. É mãe solo de um bebêzinho de 8 meses, trabalha, estuda, escreve e CORRE MUITO na vida. Gosta de falar sobre temas que envolvem a maternidade real, pra desmistificar um pouco essa coisa mágica em torno da maternidade, e de questões que envolvem a área da saúde psicológica. É feminista interseccional e tenta, dentro das possibilidades com o bebê, participar dos grupos e eventos que envolvem sua militância (também gosta de discutir o espaço materno dentro do feminismo). Foi mãe jovem, engravidou com 21 anos e ainda estudando, então tenta formar ao máximo uma figura de apoio à jovens mamães, provando que mesmo nas maiores adversidades, respeitando a própria vontade e intuição: é sim possível. Também gosta de dançar, de ler, de Beyoncé, gatos e chocolate.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Esse é um exercício maravilhoso, a gente devia tentar fazer isso todo dia (lembrando os bons tempos em que li Pollyana). Ser apenas positivo é utópico, mas para que servem as utopias se não para nos fazer caminhar para algo melhor?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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