6 de junho de 2017 | Ano 4, Edição #34 | Texto: e | Ilustração: Isadora Fernandes
Mentiras repetidas e o perigo de uma narrativa falsa
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Pense em tudo o que você conhece, todos os objetos, palavras, cores, formas, etc. Este exercício é vertiginoso, e com razão. Nosso cérebro armazena um número gigantesco de informações. Mas agora, tente pensar como você conhece todas essas coisas. Você já tocou em todas as formas que imaginou? Já observou frente a frente todas as paisagens que sua mente te exibiu? Já testou a utilidade de todos os objetos que diz saber a função?

Provavelmente a resposta pra essas três perguntas é “não” e isso é normal, afinal nosso conhecimento não é baseado apenas em nossas vivências pessoais, mas sim no acúmulo de todas as narrativas (sejam elas orais, literárias ou fotográficas) a que fomos expostos desde que nascemos. Aprendemos a confiar nestas narrativas e as utilizamos para construir nossa percepção de mundo, valores e personalidade.

Porém, e se alguma das histórias que aprendemos ao longo da vida não se mostrarem tão reais assim? Você com certeza já ouviu alguém dizendo que uma mentira contada muitas vezes torna-se verdade. Isto pode ser bastante prejudicial, principalmente se esta mentira estiver ligada a algum tipo de preconceito e favorece diretamente um grupo em detrimento de outro. “Nossa, mas até parece que isso acontece!” você deve estar pensando, mas o pior é que acontece, sim. Se pararmos para pensar só no que rola hoje: as notícias falsas estão aí fazendo mentiras ganharem contornos de verdade e ainda enchendo o bolso dos donos dos sites com publicidade.

Já te convencemos, né?! Mas, calma, a história vem de muito antes de internet, redes sociais, curtidas e compartilhamentos. Duvida? Sobe no nosso tapete mágico e vamos dar um passeio pelo tempo.

 

BRUXAS

Durante a inquisição, entre os séculos XV e XVIII, milhares de mulheres foram mortas por toda a Europa acusadas de ~ bruxaria ~ algo extremamente ruim para uma sociedade majoritariamente cristã. Elas não faziam feitiços maléficos ou voavam em cabos de vassoura espantando as pessoas por aí, eram simplesmentes julgadas assim por não fazerem parte do padrão comportamental direcionado às pessoas do sexo feminino de sua época. Podemos relacionar as narrativas falsas sobre essas mulheres com as que são direcionadas a todas que se consideram feministas hoje em dia.

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Somos as netas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar! (ilustração: Dora Leroy)

NEGROS

No período de colonização do continente americano a escravidão do povo negro  também foi uma realidade marcante relacionada a diversas histórias falsas. Europeus falavam que os negros não tinham alma, que não eram humanos. Apagavam suas memórias tribais, silenciavam suas religiões e convenciam a sociedade colonial que aqueles homens e mulheres eram incivilizados, tudo para justificar os maus tratos e a exploração da mão de obra da população de origem africana.

Reflexo desse momento histórico é o preconceito racial  ainda presente no Brasil. Basta observar atentamente as expressões de cunho racista que utilizamos em nosso vocabulário, ou pesquisar sobre a quantidade de pessoas negras mortas nas periferias por serem “confundidas” com algum praticante de ato ilícito enquanto estavam apenas realizando suas atividades rotineiras. Isso demonstra a gravidade das narrativas falsas, elas podem machucar por gerações.

 

JUDEUS

A época da segunda guerra mundial, por sua vez, direcionou algumas de suas histórias falsas para outro grupo de pessoas: os judeus. O fato é que Hitler, o líder do partido nazista, conseguiu, através de campanhas publicitárias e influência na educação, convencer grande parte da população alemã que os judeus eram responsáveis por sua crise econômica e que eles não pertenciam à “raça ariana”, uma “raça” de seres humanos que, para ele, era muito superior às demais e tinha o direito de subjugá-las. A crença nesse tipo de narrativa levou ao holocausto, o maior genocídio da História, que atingiu, além da população judia, todos aqueles que não eram considerados valiosos para o regime nazista.

 

FADAS

Além destas narrativas falsas tristes (e extremamente revoltantes!) que vimos até agora, a história também guarda algumas que nos fazem rir. Entre elas, o curioso caso de duas primas inglesas que viviam na cidade de Cottingley e afirmavam ter fotografado fadas em seu jardim no ano de 1917.

Elsie Write e Francis Griffiths utilizaram recortes de papelão de fadas de seus livros infantis para manipular as fotografias que tiraram com uma câmera analógica do pai de Elsie. As fotos chegaram a um grupo de estudiosos chamado Sociedade Teofísica e muitos intelectuais famosos acreditaram  em seu conteúdo e defenderam que a existência de fadas deveria ser propagada em toda a Inglaterra. Foi o caso de Edward Gardner e do Arthur Conan Doyle (criador do famoso detetive Sherlock Homes), os dois utilizaram as fotografias manipuladas para ilustrar um artigo para uma renomada revista da época. A história toda só foi desmentida nos anos 80, quando as duas primas confessaram que as imagens não eram reais.

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“Frances e a fada saltitante” ( Foto: Domínio Público)

UMA MENTIRA VIRALIZADA… É UMA MENTIRA MESMO

As notícias falsas continuam aí, infiltrando-se, agora, nas nossas linhas do tempo e naqueles grupos de mensagens, com cara de verdade. Afinal, elas estão publicadas em um site e o que vale é o que está publicado, né?! Calma, amigas, não é bem assim.

— Duvide da fonte. Tudo bem, você pode ter recebido isso (a informação ou o link) do seu primo que é advogado, mas ele também pode estar passando uma informação errada. Por isso, duvide. Não é porque está escrito que é verdade. Não existe mais isso — ensina a fundadora e diretora da Agência Lupa, a jornalista Cristina Tardáguila, que saiu do jornal O Globo, em 2015, para fundar a agência.

— A Lupa começou em novembro de 2015, aqui no Rio. Eram quatro jornalistas. Hoje, já somos 12.

O interesse pela checagem de fatos veio em 2013, quando Tardáguila participou de um evento na FNPI (Fundación Gabriel García Marquez para el nuevo periodismo iberoamericano). Quando voltou ao Brasil, ainda como subeditora de Política do jornal O Globo, considerava as possibilidades que a checagem dos fatos oferecia ao jornalismo:

— Conheci o Chequeado, que é o site argentino de fact-checking, e me encantei. Na época, eles checavam a Cristina Kirchner (ex-presidente da Argentina). A gente estava perto das eleições de 2014 e era importante que o Brasil tivesse algo semelhante porque a gente já sabia que o debate estava polarizado. Assim nasceu o “Preto no branco”, que foi o primeiro blog de fact-checking do Brasil.

O que era novidade aqui, entretanto, já estava ganhando prêmios lá fora. Em 2009, um dos principais sites de checagem dos Estados Unidos, o PolitiFacts, levou um prêmio Pulitzer, o Oscar do jornalismo. Com o boom do serviço em terras tupiniquins, a ideia é capacitar essa mão de obra.

— Não existe nenhuma dica, no cenário atual, de que o número de produtores de fake news vai diminuir. O que tem que ser feito, então, é aumentar o número de checadores para ficar mais difícil essa propagação — afirma a diretora da Lupa, agência que também tem um braço que oferece oficinas de checagem, o Lupa Educação.

— É muito fácil cair nas fake news, né!? Eu já caí em várias, é normal. Mas temos que treinar. É uma habilidade, que as pessoas vão ter de desenvolver para estar nesse nosso mundo. A ideia do Lupa Educação vai bem por aí: tanto para quem quer fazer jornalismo e ser checador profissional quanto para quem só quer entender e saber conviver de forma saudável com a internet.

 

‘TODO MUNDO TEM QUE TOMAR CUIDADO PARA NÃO SER DIVULGADOR DE FAKE NEWS

A possibilidade da renúncia do presidente Michel Temer, após a divulgação da transcrição de um áudio em que conversava com o empresário da JBS, Joesley Batista, foi um campo fértil para propagação de notícias falsas. Antes do fim do dia, já circulava nos grupos de mensagem a informação de que a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ia mandar prender Temer. Tudo não passava, claro, de uma enganação, compartilhada com cara de verdade. Como fazer, então, para não cair nessas ciladas? Tem jeito, a gente garante. Olha só as dicas que a Cristina Tardáguila passou para a gente.

  1. Duvide da fonte.
  2. Leia além do título: “às vezes, a pessoa fica naquela preguiça, né?! Só lê o headline (a manchete) do Facebook. Quando, na verdade, se clicar, pode ver que a matéria desdiz o título. Ele é só um título caça-clique total.”
  3. Confira o autor: “acho que sempre vale a pena fazer isso. Quem escreveu essa informação? É uma pessoa em que se possa confiar? Ou é um cara que está super-envolvido com uma questão política?”
  4. Repare na data: “isso é muito importante também. Dou um exemplo real, que aconteceu no Rio de Janeiro. Formou-se uma fila em um clube na Zona Norte da cidade porque circulou no WhatsApp que o clube teria uma feira de empregos. Só que ninguém checou que aquela informação era de 2014. Então, assim, 4h da manhã tinha uma fila imensa na porta do clube, simplesmente porque ninguém viu que era uma reportagem de 2014.”
  5. Faça uma checagem na grande imprensa: “por mais problemática, por mais críticas que possamos fazer a ela, notícias que podem mudar o rumo da cidade ou da nossa vida vão estar noticiadas, pelo menos, em algum grande portal de notícias. Não acredite que seu WhatsApp é mais veloz do que toda a imprensa nacional. É uma certa prepotência.”
  6. Na dúvida, não compartilhe: “isso faz um bem danado. É muito importante entender que, no momento que você compartilha, você também está fazendo uma besteira. Mesmo que seja para criticar, ainda assim, você compartilha. Todo mundo tem que tomar cuidado para não ser um divulgador de fake news.”

FATOS ALTERNATIVOS, PÓS-VERDADE… COMO SE CONSTRÓI UMA MENTIRA

 

Se já é difícil rastrear todas essas mentiras que chegam por redes sociais, imagina quando elas vêm de órgãos oficiais? Pois essa é a situação da imprensa americana desde que a assessoria do presidente Donald Trump começou a falar em fatos alternativos para refutar que ele falava mentiras em seus discursos e pronunciamentos.

— Primeira coisa é a seguinte: a gente agora entrou numa de gourmetizar tudo, né!? A mentira virou pós-verdade, virou fatos alternativos. Fato alternativo não existe. Fato alternativo é mentira, não tem como você tirar leite de pedra aí. E o Trump é um fenômeno. Tem uma matéria do Huffington Post, que eles fizeram em meados da campanha de 2016, em que acompanharam o Trump durante uma hora. Em 60 minutos, eles pegaram 71 informações questionáveis. Ele é uma metralhadora de dados possivelmente equivocados. É muito difícil conviver com esse tipo de governo porque você acaba perdendo mais tempo para limar a informação e entregar o dado certo do que efetivamente fazer o seu jornalismo. O risco de ter uma metralhadora de falsos na Casa Branca é esse: você acaba deixando de checar outras pessoas que têm também grande influência na vida diária dos cidadãos, como senadores, deputados, governadores, prefeitos… — argumenta.

Qual seria a solução para não sobrecarregar os checadores? Cristina responde:

— O ideal seria que cada cidade tivesse sua plataforma de checagem para acompanhar sua Câmara de Vereadores, seu prefeito, seu secretariado e assim por diante. Porque é impossível checar tudo. Então, é muito importante tornar essas técnicas em algo mais próximo da população.

Se a gente parar para pensar bem, essa é uma maneira também de engajar as pessoas no debate público, já que, infelizmente, ainda tem quem só se lembre de política em época de eleição. Outra ideia da diretora da Lupa é um promessômetro, que poderia fazer uma contagem das (muitas) promessas de campanha dos ocupantes de cargos públicos e checar o que foi feito, o que ainda falta e o que ficou pelo caminho. Uma maneira interessante, se a gente for pensar, de ficar de olho e cobrar quem é eleito com nossos votos.

Já quer sair por aí checando as coisa que ouve? Maravilha! A ideia é essa mesmo. A gente aproveita para dizer que há cinco princípios na checagem de fatos que precisam ser respeitados por quem quer enveredar por esse mundão de dados, como explica Tardáguila.

Ser apartidário: “lutar para que as checagens não estejam direcionadas contra ou a favor de nenhum grupo político”.
Ser transparente em relação a suas fontes: “não existe fact-checking sem hiperlinks, por exemplo. O leitor tem que ter o direito de clicar e ver onde você achou aquela informação. É bem diferente do jornal, né!? No jornal, você abre, lê e não sabe de onde ele tirou aquele dado.”
Ser transparente sobre o financiamento: “quem está bancando? Isso ajuda a dar credibilidade ao checador.”
Ser transparente na metodologia de trabalho: “como você seleciona suas frases? Como você trabalha? Qual é o processo? Depois que você escolhe a frase, qual é o caminho que você faz?”
Política pública para correção: “tem que ter isso claro e seguir. Errar, eventualmente, todos erramos, mas é preciso se comprometer publicamente com a correção e colocar em prática de forma integral se você se equivocar.”

Agora, já sabem: a próxima notícia que aparecer no feed ou no grupo da família e amigos, nada de aceitar como verdade absoluta. Fica aqui o convite para a gente sair da nossa bolha e começar a questionar as notícias que circulam por aí e até mesmo o que a gente pensa.

— É o exercício da dúvida constante. Tirar as pessoas dessa passividade, desse jornalismo adjetivado. Pare de opinar e procure os fatos. Depois que você tiver os fatos, aí você forma sua opinião, compartilha, e não o contrário. A opinião é formada de fatos, e não fatos que se adequam a sua opinião — lembra Cristina.

E está mais do que certa, né?!

Aline Bonatto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Oie! Eu nasci há alguns anos atrás (num dia de abril, em 1988), morei até os 19 anos em Colatina, um lugar quente no Norte do Espírito Santo, e vim para Niterói estudar Jornalismo. Saí da faculdade, mas não de Niterói e trabalho no Rio como repórter de TV. Gosto de escrever, ler, cozinhar, especialmente se eu não for comer sozinha, adoro ficar largada no sofá assistindo a séries/filmes/novelas acompanhada do namorado ou de amigos ou com todo mundo junto. Ah, e com um brigadeiro na colher!

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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