12 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração: Mazô
Meritocracia, privilégios, dinheiro e poder

MERITOCRACIA E PRIVILÉGIOS (Natália Lobo)

Eu poderia falar sobre meritocracia e sobre privilégios em dois textos separados, como assuntos independentes. Cada um deles dá muito pano pra manga e são muito interessantes de serem debatidos. Mas uma coisa tem tanto a ver com a outra, que eu não posso deixar de estabelecer a relação entre elas. São tão dependentes que eu posso até dizer que não precisaríamos criticar a meritocracia, se privilégios não existissem.

A meritocracia é uma forma de organizar as posições hierárquicas que as pessoas ocupam (em empresas, em escolas, em governos…) conforme o mérito que elas possuem para ocupar essas posições. Portanto, segundo essa forma de organização, as pessoas mais esforçadas e que produzem melhor determinada coisa (seja essa coisa um bem material, conhecimento, notas em uma prova, etc.) são mais dignas de ocupar altas posições.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas a coisa não é tão simples assim, e é aqui que entram os privilégios.

O desenho é perfeito pra ilustrar o que eu quero dizer: subir a escada e pegar a bandeirinha de vencedor é muito simples para quem não tem mobilidade reduzida. Agora, para a pessoa que precisa da cadeira de rodas pra se locomover, a tarefa é impossível. Como então falar sobre vencer por mérito, se um competidor é privilegiado em relação ao outro?

E isso não se aplica somente às pessoas que têm limitações físicas pra realizar certas tarefas. Por exemplo, um garoto negro e pobre, que vem de uma família que nunca pisou os pés em uma universidade, que muitas vezes vai com fome para a escola, e essa escola inclusive tem um ensino péssimo. Ou pior, um garoto que nem pode ir à escola porque precisa trabalhar para garantir que a família tenha comida na mesa. Como dizer que ele tem as mesmas chances de entrar na universidade que um garoto branco e rico, com pais que tem salários ótimos, que frequentou colégios particulares (com infraestrutura, com professores bons, com material didático completo, com plantão de dúvidas), e que sempre pôde se dedicar somente aos estudos? Trata-se de pessoas que tiveram condições materiais de vida totalmente diferentes. O primeiro garoto poderia usar todo o tempo livre que ele tivesse para estudar, esse tempo ainda seria muito menor que o do segundo garoto, já que ele não trabalha; e ele ainda teria que fazer isso com fome, sem uma infraestrutura adequada para o estudo, e com outros mil impedimentos.

Uma forma de minimizar esse problema, enquanto essas pessoas ainda não têm condições de vida realmente dignas, é implementando as cotas, tanto raciais quanto sociais. Mas, além disso aumentar só um pouco a quantidade desses grupos sociais na universidade (mantendo uma proporção de brancos/negros e de ricos/pobres dentro da universidade que ainda é muito diferente da proporção real da sociedade brasileira), e de não serem todas as universidades que aderiram a este sistema, ainda tem muita gente que insiste em dizer que cotista é burro, preguiçoso, e que bastava que eles quisessem de verdade para que conseguissem entrar na universidade sem usar o sistema de cotas.

Esse discurso de basta-se-esforçar recai também sobre as mulheres, por exemplo, quando elas não conseguem ocupar cargos altos no mercado de trabalho quando, na realidade, isso acontece porque muitas vezes as mulheres são impedidas (sim, oficialmente impedidas) de ocupar altos cargos, supostamente porque mulheres não têm “pulso firme” o bastante para segurar a barra. A gente sabe que isso é só desculpa para disfarçar o machismo velado das pessoas, mas ainda tem gente que reproduz isso. Mulheres cisgêneras também deixam de serem contratadas porque, caso engravidem, a licença maternidade (que, digamos de passagem, é ridiculamente curta) causa “prejuízo” para a empresa. Isso sem falar no preconceito que mulheres que trabalham em áreas tradicionalmente ocupadas por homens (como nas áreas de exatas, policiais, motoristas) sofrem. Elas muitas vezes deixam se ser contratadas simplesmente por serem mulheres, sem que suas habilidades sequer sejam avaliadas. Ou até nem chegam a poder participar do processo seletivo, porque o mesmo é fechado somente para homens, mesmo que a atividade em questão não exija nada que um homem tenha e uma mulher não.

Isso se aplica a diversas outras minorias, e é reforçado dia e noite por quem fala que “não basta dar o peixe, tem que ensinar a pescar” e que “quem acredita, sempre alcança”. Mas como dizer que basta que as pessoas se esforcem para conseguir algo quando elas não conseguiriam nem que dessem o sangue para atingir esse objetivo, uma vez que alguém mais privilegiado que elas sempre será considerado mais apto para ocupar o cargo? Como esperar que as pessoas cheguem ao mesmo lugar ao mesmo tempo, se elas saem de lugares e passam por caminhos totalmente diferentes?

Em um mundo onde todo mundo tivesse os mesmos direitos civis, onde opressões não existissem, onde cada ser humano tivesse todas as condições para desenvolver suas potencialidades ao máximo, esse discurso até poderia fazer sentido. Por enquanto, é só desculpa para perpetuar os estigmas preconceituoso que esses grupos oprimidos já carregam aos montes.

PODER E DINHEIRO (Bárbara Reis)

Quando questionada em uma entrevista com Oprah Winfrey sobre se realmente acreditava em magia, J.K. Rowling respondeu que não. Ou pelo menos, não do jeito que ela havia descrito em Harry Potter. Mas que, no mundo real, a coisa que mais se aproximava de mágica ou de um superpoder era o dinheiro. Ou seja: quando o assunto é privilégio, talvez ter dinheiro seja um dos maiores.

A ideia não é exatamente nova – super-heróis como o Homem de Ferro e o Batman, cujas identidades “reais” são empresários ricos que usaram o seu dinheiro para “empoderar” seus alter egos, são bons exemplos disso – mas não deixa de ser relevante: afinal, em uma sociedade capitalista, ter dinheiro é uma das coisas que te torna mais poderoso. Talvez você nunca consiga ter a sobre-força do semideus Thor, mas você definitivamente pode desenvolver uma tecnologia com o mesmo efeito, por exemplo.

A verdade é que quanto mais dinheiro você tem, mais oportunidades se abrem para você. Desde coisas supostamente básicas como educação – um semestre em uma das universidades ivy league americanas, tais como Harvard e Yale, sai por volta de 20 mil dólares, e, geralmente, aqueles que conseguem entrar pagaram por escolas preparatórias tão caras quanto – e saúde, a fama e influência. Em um mundo onde dinheiro é poder, aqueles com menos se subordinam àqueles com mais. Quantas pessoas só possuem um cargo de prestígio/são famosas/possuem destaque simplesmente por serem ricas? E, uma vez que se é rico, quais são os limites para aquilo que você deseja fazer?

O dinheiro pode não comprar absolutamente tudo, mas certamente te garante MUITA coisa. Naquela mesma entrevista que eu mencionei no começo, J.K. Rowling comenta que, como alguém que foi realmente pobre por alguns anos, não há nada melhor que o dinheiro pode providenciar do que segurança. Antes de qualquer luxo, antes de qualquer ambição. A segurança de ter um teto para morar, de saber que irá se alimentar bem todos os dias, e que, caso adoeça, terá acesso a cuidado médico de qualidade. Coisas de extrema importância que o dinheiro compra, sim, e que já te fazem muito mais poderoso e privilegiado do que muita gente.

Mas, como nós sabemos, privilégios vêm em, digamos, camadas. E por mais que o dinheiro seja uma das mais relevantes, é preciso ressaltar que, mesmo quando se é beneficiado por ele, ainda existem barreiras adicionais. Basta observar a lista da Forbes de bilionários mundiais para perceber que existe um perfil um tanto fixo daqueles que estão verdadeiramente no topo: homens brancos. Entre os 100 primeiros, existem 10 mulheres (nenhuma delas negra, diga-se de passagem). Uma pesquisa de 2012 evidenciou que o pagamento de mulheres pelo cargo de CEO é, em média, 17% inferior ao dos homens que ocupam o mesmo posto e é fato que, atualmente, apenas 5% das principais companhias mundiais empregam mulheres para o cargo.

Até mesmo quando se trata de conseguir a educação superior financeiramente inacessível para muitos, as barreiras de gênero são um passado nada distante. Na Universidade de Oxford, mulheres só puderam frequentar a universidade, de forma limitada – suas aulas eram administradas apenas por alguns professores e separadamente –, a partir de 1875 (quando a universidade já estava prestes a completar 800 anos), mas a permissão para realmente conseguir um diploma e/ou tornar-se parte do corpo docente só veio em 1920. Até 1957, a universidade estabelecia que o número de mulheres não poderia ultrapassar ¼ do número de homens.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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