11 de novembro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Mesmo na internet, nem tudo é para os olhos dos outros

Mesmo na internet, nem tudo é para os olhos dos outros. Eu tenho um blog sobre o qual não falo para ninguém. Sempre digo, brincando, que tumblr é o oposto de um filho (Criamos pra gente, e não pro mundo), mas sei que essa é a minha relação particular com o blog. Ou não é tão particular assim?

Não divulgo meu tumblr porque quero que ele permaneça como meu jardim pessoal nos múltiplos corredores multipovoados da internet. Meu quarto. “Caiu na rede, é do mundo”, dizem os ~especialistas digitais~. Mas meu tumblr não é do mundo, meu tumblr é um santuário barulhento e colorido no qual quase ninguém me conhece. Não que ele seja realmente secreto: um stalker com o mínimo de dedicação poderia encontrá-lo com alguma pesquisa. E não é que ele seja realmente comprometedor: reblogues de gifs de filmes da Disney e fanarts cafonas de casais de séries sendo fofos ainda não mandaram ninguém para a cadeia, acho. Mas a convicção de não precisar ser alguém naquele ambiente, de não precisar ser inteligente, confiante ou boa, de não me importar com as opiniões dos poucos (e estranhos) seguidores que por acaso acharam que eu teria algo de interessante para compartilhar (estavam errados): tudo isso é libertador.

Mesmo na internet, nem tudo é para os olhos dos outros. Releio meus reblogues como quem olha para um álbum de figurinhas, contente com as bobagens que compartilhei.

(esse blog é tão adorável, gosto de tudo o que há nele. Se pudesse, eu mesma me seguiria lmao)

Por exemplo, não é essa a minha relação com o Facebook. O CaraLivro quer ser mais real do que o real e dissecar cada aspecto de sua existência que vão dos seus colegas do prézinho até a sua avó. Ei, não é que ele não tenha o seu valor! Ou que gostar dele te torne superficial, como alguns gostam de propagar. O Tumblr pode também ser pesado e difícil de lidar quando se usa ele como rede social “padrão” – assim como o Twitter, o Instagram ou até o GoodReads, se calhar. É uma coisa que tem a ver com a confluência do uso com as características específicas da rede, mas não cabe aqui uma crítica específica. É só uma pena o quão pouco valor se dá para o caráter dispersivo da internet, para sua solidão, para seu silêncio.

(MomentoPessoal1: Já tem um tempo que eu não vou a festas temáticas ou a boates. Nunca curti muito, mas quando eu ia, tinha um modus operandi. Sempre avisava aos meus amigos antes de entrar: Eu sumo, ok? Assim que pisava na festa, eu observava o movimento. Então me afastava de meus amigos e ia até algum ponto onde ninguém me conhecia. Eu dançava, fazia colegas com quem jamais conversaria, dançaria com estranhos na escuridão, beberia e então… voltaria para ver como meus amigos estavam. Como quem vai e volta da liberdade do oceano para a familiaridade da areia na praia.

Engraçado que, numa festa aglomerada, era a solidão do alienamento a mercadoria que mais me atraía.)

Não é preciso “estar no armário” em relação a gostos para querer ter um espaço reservado. Isso é mais uma questão de liberdade para se usufruir da rede como bem se quiser, sobre ter um código pessoal, sobre vestir pijamas para assistir Netflix e vestido elegante-mas-não-mais-elegante-que-o-da-noiva em casamentos. Algumas pessoas não ligam para isso (e vão de pijama pra casamentos e vestem roupa de gala em casa), mas eu seria ingênua se acreditasse que imagem não conta. E hipócrita se dissesse que isso não me afeta em nenhum nível.

(MomentoPessoal2: Outro dia, ao levar minha cachorra para castrar, precisei me trancar no banheiro do veterinário para chorar de medo do que poderia acontecer a ela na mesa de cirurgia. Quão engraçado que o lugar mais apropriado para crises emocionais seja o mesmo onde escondemos as nossas ditas funções mais indignas.)

Há uma separação entre o que o mundo quer que sejamos e o que, de fato, acabamos sendo. Não se trata de negar o que se é. Trata-se de expressar-se nos canais adequados.

Mesmo na internet, nem tudo é para os olhos dos outros. Ter um lugar que não é seu na internet é como andar sozinha nas ruas movimentadas de um país desconhecido, onde ninguém sabe o seu nome, ninguém conhece a sua história. Lá, você vai ao cinema sozinha sem o receio de encontrar a sua ex num encontro com outra pessoa na mesma sessão. Lá, você flana por horas em praças, assiste a números de artistas de rua e se lambuja de quantos churros de chocolate quiser, muito obrigada.

O anonimato é uma falsa sensação na internet, é claro, e isso exige certos cuidados. Mas só o tantinho de não estar sob o constante e opressor olhar panóptico de todos para todas as direções, numa sociedade em que você precisa ser a melhor, a mais apta, a mais preparada, a mais adaptada, a mais útil 25 horas por dia, 8 dias por semana, já é um alívio.

Ou talvez essa seja apenas uma visão minha. A internet não é um “mundo paralelo” separado do “mundo real”. Ela, também, é mundo real, uma parte fundamental dele – e cada dia mais. É justamente por isso que precisamos reivindicar pequenos espaços privados nela. Eu não conseguiria viver sossegada numa casa cercada de câmeras à la Big Brother. Eu certamente não consigo usar o Facebook como um espaço de autoexpressão espontânea. E cabe a mim procurar por esses espaços. Cabe a mim decorar esse ambiente pessoal e guardá-lo à minha maneira.

Mesmo na internet, nem tudo é para os olhos dos outros. Mesmo esse texto, que obviamente está na sua vista agora, foi escrito de um impulso muito pessoal, íntimo e ridículo. O que me lembra de perguntar: como é a sua relação com a internet? Você cria espaços privados ou se sente confortável independentemente do grau de visibilidade?

De qualquer forma, nós ainda não mapeamos exatamente como nossa relação com a internet nos afeta, num plano inclusive biológico. Há quem diga que ela faz mal, há quem diga que ela faz bem. Não importa. Dificilmente quaisquer desses prognósticos vão fazer com que ela deixe de ser uma parte fundamental de nossas vidas hoje. E, por isso mesmo, talvez mereçamos um espacinho de respiro, mesmo imersos nela.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • itismesomeone

    Meu deus, me sinto do mesmo jeito em relação ao meu tumblr. Pensei que fosse só eu!

    • http://criandomundos.wordpress.com/ Vanessa Raposo

      Não sei se foi assim com você, mas lembro que eu fiz um Tumblr simplesmente para poder “guardar” em algum lugar coisas legais que eu via em outros blogs. Como o Tumblr é um agregador, provavelmente existem outras pessoas usem ele desse jeito! Pelo menos seria esse meu palpite 🙂

  • Camila

    Adorei esse texto! Nao tenho um “cantinho só meu” na internet, mas tem crescido em mim a vontade de ter um, sim. Gosto da ideia de fugir dos olhares dos outros 🙂

  • Luisa

    amei o texto, eu me sinto assim em relação ao twitter 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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