28 de maio de 2016 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Minha família perguntou de você

Você sai com uma pessoa. Aí você até que se interessa por ela. Quando vai ver, você tá gostandinho da pessoa. É massa. De repente, você tá namorando a pessoa. Problema nenhum até aí, namorar pode ser legal. Vocês estão passeando pela cidade e a pessoa puxa com você o assunto sério: a família dela. Tan dan.

Vale lembrar que nem sempre esse assunto precisa ser sério. Tem famílias que são bem de boas e criam uma relação tranquila, sem cobranças. Em compensação, tem vezes que esse novo vínculo se torna mais difícil. Vamos pensar assim: você está namorando essa pessoa. Você não está namorando o pai, a mãe, a tia, o irmão, o cachorro. Essa é a chave de tudo. Vou explicar.

Famílias são núcleos de pessoas que vivem mais ou menos juntas, crescem mais ou menos juntas, essas coisas todas, e que geralmente tem vínculos de parentesco. Essas pessoas têm, juntas, um modus operandi próprio. Elas, muitas vezes, têm suas rotinas coletivas, seus hábitos alimentares, seus horários de acordar / dormir / comer, suas crenças, ideais, histórias e tretas. Às vezes isso é menos demarcado, às vezes mais. Às vezes menos rígido, às vezes mais.

Você pode querer conhecer esse núcleo de pessoas do qual a pessoa que você namora faz parte, mas você também pode não querer essa proximidade – assim como você também não é obrigada a conviver com os amigos e colegas da pessoa. Digamos que, então, você resolve visitar essa família. Tudo fica mais difícil se esse pessoal não te aceita. Isso pode acontecer por inúmeros motivos: se a relação é entre garotas, e a família é lesbofóbica e não consegue aceitar o amor de vocês; se a relação, mesmo não sendo necessariamente entre garotas, envolve a não-aceitação da família sobre você, por você ser gorda / negra / fora dos padrões / de outra região / de outra classe social / qualquer outro motivo que gere neles estranhamento, por mais injusto que seja.

Lidar com isso pode doer bastante: olhares meio tortos, indiretas, frases enviesadas e mesmo proibições. Quaisquer que sejam as opções: a culpa não é sua. Você não fez nada de errado e não tem que justificar nada a ninguém, muito menos tentar mudar para alterar os outros. Ser outra pessoa, completamente diferente, na frente desses parentes pode te trazer tanta, mas tanta frustração, que eu sinceramente acho que não vale a pena. A pessoa que você namora precisa ser bastante companheira nesse momento, e você também com ela, para decidir qual é, para vocês, a forma mais confortável de lidar com a situação.

Agora imaginemos outra situação: digamos que você foi conhecer a família da pessoa. E que foi até legal. Eles te trataram bem, com respeito e atenção, sem julgamentos. Massa. Aí, passado algum tempo, se torna comum receber ligações ou mensagens de texto de alguma tia da pessoa. Se você gosta dessa interação, vai fundo. São pessoas que entram na sua vida e não tem nenhum problema em criar vínculos com elas, brincar, conversar, ficar amiga. Na verdade, pode ser bem bacana, se você quiser.

Porque, por mais que haja um monte de pressão social pra isso, vou te lembrar uma coisinha: você pode não querer. Pera lá, não precisa ser grossa com as pessoas nem nada disso, não precisa ser ofensiva. Mas você pode explicar para a pessoa que você namora, com toda a sinceridade do mundo, que você não está confortável com tanta intimidade, que não é bem assim que você entende a relação. Não significa que você não curta a família, mas é que às vezes as pessoas encaram as relações com muita rigidez, seguindo um modelinho decorado, e nem sempre precisa ser assim.

As relações com outras pessoas, profundas, sinceras, respeitosas, carinhosas, são sempre importantes. Pode ser com a mãe da pessoa com quem você se relaciona ou mesmo com a sua própria mãe. Construir parceria faz um bem danado. Já entrar em caixinhas de “atitudes corretas a se fazer como namorada”, bem… essa parte não precisa não.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos