29 de maio de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração:
Minha primeira exposição: Taís Bravo
Ilustração: Mazô

Ilustração: Mazô

Junto com “Pequena história da arte”,  “Artista da Semana” e “Música trilha sonora da vida”, adicionamos mais um tema para as colunas de arte: Minha primeira exposição. Adoraríamos saber sobre a primeira exposição de vocês! 🙂 

Como colaboradora desta coluna, eu, obviamente, gosto de arte. Gosto de ouvir música no meu mp3 quando estou indo para a faculdade (na verdade preciso), de ir ao cinema sexta-feira e carrego sempre um livro na bolsa. Mas, para além desses prazeres mais amenos e cotidianos, gosto de arte pela sua capacidade de me desestruturar. Lá estava eu, começando um dia como qualquer outro, quando uma música do Bob Dylan veio e exigiu que tudo fosse diferente. Os encontros com as obras de arte podem ser desafiadores, porque elas suspendem por um momento as suas certezas e provocam um desconforto ou um estranhamento. Depois você sai do museu, fecha o livro, segue para a próxima música e tudo está transformado. É mais ou menos como uma viagem: algumas obras de arte me apresentam a algo completamente novo, não em termos de informação, mas de sentimento e experiência.

Mas, justamente porque eu me identifico como alguém que gosta de arte, às vezes até esses encontros acabam se tornando óbvios. O estranhamento se perde em meio aos hábitos apressados, entro no museu só para esperar uma amiga ou aproveitar o ar condicionado nos dias de verão; entro e saio com muita certeza de quem sou e para onde estou indo, nenhuma surpresa ou possibilidade. Isso acontece com muitas coisas quando estamos crescendo, porque parece que para crescer é preciso se acostumar com o mundo – e talvez seja por isso que eu resisto tanto à vida adulta. Foi pensando nisso que resolvi escrever sobre a primeira vez que entrei em um museu, para relembrar o gosto de novidade que senti aos nove anos de idade.

Minha primeira visita ao museu foi completamente estranha. Sou de uma família de educadores que sempre me estimulou a ter o maior nível de instrução possível, minha mãe me ensinou a ler antes das crianças da escola, eu sempre ganhei livros e revistas. Com isso, eu me tornei uma criança muito curiosa, então quando descobri que tinha uma exposição muito importante na cidade, achei que meus pais deveriam me levar. O ano era 1999 e a exposição foi uma das mais lotadas da história do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (só perdeu o primeiro lugar agora em 2014, quinze anos depois, com a exposição do Ron Mueck), eram quadros do Picasso. Eu só tinha nove anos e por mais que eu conhecesse coisas, nada era como aquilo. Por que tanta gente saía de casa para ver quadros estranhos de mulheres com cinco olhos? Eu não entendia. Meus pais também não sabiam me explicar. Nós olhávamos os quadros, meio constrangidos, meio querendo achar graça, mas quase sempre em silêncio. Eu queria muito entender, então fiz uma atividade educativa em que as crianças desenhavam usando espelhos. Fingi que entendi aquilo, quer dizer, até entendi algumas coisas que a moça explicava, por exemplo, sobre como Picasso pintava em um estilo cubista. Mas eu não conseguia saber o mais importante: o que motiva alguém a pintar daquela forma? Depois eu cresci, li sobre seu quadro mais famoso, Guernica, compreendi sua relação com a guerra e até acertei uma questão no Enem sobre o estilo de Pablo Picasso –  tenho certeza que foi por causa da moça daquela atividade educativa. Mas até hoje eu não consigo saber. Hoje eu acho que essa foi uma das minhas primeiras aprendizagens: entender não é o mais importante.

 

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Eduarda Silva Thomaznatica

    Adoro usar a arte para expressão de sentimentos !! Quando to feliz adoro desenhar coisas coloridas e formas, mas quando estou triste imagino um preto, branco e cinza com linhas aleatórias !!

  • Pingback: Links do mês #9: Dezembro - Capitolina()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos