6 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Minha própria arena

Minha mãe é coordenadora de uma escola e por muitos anos acompanhei de perto o primeiro dia de várias crianças. É um dia que demanda preparo. Os pais estão aflitos com a perspectiva de deixar seus filhos na mão de estranhos, a professora se esforça o máximo possível para parecer acolhedora e as crianças sentem que algo estranho está acontecendo. Acho fascinante como algumas não se importam e entram naquele ambiente completamente novo e estanho. Me identifico muito mais com os que se mostram desconfiados e, depois de ouvirem o primeiro choro, se rendem e fazem parte da sua primeira crise coletiva. Aí nesse choro compartilhado é que começamos a fazer parte de algo. A escola é a nossa primeira comunidade fora do meio familiar, é onde nos descobrimos como indivíduos, somos influenciados ou influenciamos, aprendemos quase tudo que sabemos, principalmente, a conviver.

Como estudei por muitos anos no colégio em que minha mãe trabalha, só fui realmente viver o primeiro dia de escola aos 14 anos. Me lembro perfeitamente de como foi aterrorizante entrar naquele lugar em que não conhecia ninguém. Pra piorar, era um colégio bem diferente da minha realidade até então, em outro bairro, com outros hábitos e regras. Resumindo em uma imagem: eu era a garota com um walkman no meio de uma multidão de ipods. Só estudei dois anos naquele colégio, mas às vezes parece que foi uma década. A experiência foi para a vida toda.

Minha escola reproduzia – na medida do possível – todos os clichês dos filmes americanos. O ambiente parecia se dividir em territórios em conflito, no meio disso, era preciso estabelecer relações amigáveis, porque ninguém se garantia sozinho. Os grupos também eram formados por subdivisões que se mantinham unidas para simplesmente serem mais fortes, assim, existiam três grandes divisões: os populares, os nerds e os “grunjes” (meus companheiros de colégio eram tão geniais que em 2004, dez anos após a morte de Kurt Cobain, chamavam o grupo de pessoas que ouvia rock e usava all star de grunge com j).  Os populares era o maior grupo com diversas subdivisões que se mantinham unidas pelo amor às marcas de roupa de surfe e ao bullying. Nem todos que faziam parte dos populares eram cruéis e perturbavam todo o resto que simplesmente não gostava das mesmas coisas que eles. Mas a parte responsável por isso era assustadora o suficiente. Era quase como se eles contassem com um próprio exército (às vezes parece até que a Suzanne Collins estudou no mesmo colégio que eu). Diante disso eu tinha um problema. Já no primeiro dia, só deus sabe por que, um subgrupo me acolheu: as patricinhas do bem. Eu adorava As patricinhas de Beverly Hills então foi bem fantástico quando isso aconteceu. Todas usavam mochilas da mesma marca de surfe em variações de rosa e azul, eram loiras ou tinham luzes nos cabelos lisos e longos. Eram aceitas como parte do grupo popular, mas não tanto, porque eram boazinhas. Elas tiravam notas boas, tinham hora pra chegar em casa, não bebiam, aparentemente não tinham experiência sexual e acolhiam garotas como eu. Meu cabelo não era liso ou loiro (no meio do ano resolvi isso), eu usava all star e ouvia rock. Tirando isso era igualzinha aquelas garotas, mas a diferença era um fator decisivo. Sentia que em pouco tempo eu estaria perdida. Eu era amigas das patricinhas (e tentava com todas as minhas forças me adaptar aos seus gostos) e das nerds, mas não pertencia de fato a nenhum grupo. Para piorar, ainda tinha duas paixões platônicas de mundos opostos, um “grunje” e um popular conviviam pacificamente nas minhas fantasias. Além de me sentir sozinha e desprotegida, também me sentia angustiada comigo mesma. Até então não tinha percebido como poderia ser contraditória e me identificar com pessoas completamente diferentes. Não tinha como não cair em questões existenciais. Todo mundo parecia ter identidades bem definidas, enquanto eu era uma confusão. Nessa época escrevi algumas poesias usando a metáfora de uma colcha de retalho para me definir, mas nem isso eu era, porque me faltava uma unidade.

Foram dois anos difíceis. Mas passou e depois dessa experiência pude entender melhor algumas coisas sobre mim e o mundo. Entendi que as pessoas podem ser formadas por muitas partes, inclusive algumas contraditórias, e tudo bem. Também foi se tornando mais claro que eu dificilmente encontraria uma pessoa ou um lugar que me acolhesse completamente, mas poderia me realizar com uma vida formada por muitos encontros. Principalmente, entendi que eu, na confusão que é só minha, já sou inteira e não preciso que algo me complete, apenas me acompanhe. Depois que desisti das ideias de identidade e pertencimento, percebi que pessoas são como oásis em meio de um caminho solitário. As amizades não precisam ter o peso dos grupos, elas podem ser refúgios, lugares que nos acolhem e nos permitem descansar de nossa própria busca. Aprendi que fazer parte de algo maior do que eu é essencial para minha felicidade. Para mim, é impossível existir sem compartilhar. Afinal, o que nos define como seres humanos não é fazer parte de uma comunidade? Não somos os únicos animais que precisam construir casas, escolas, parques e bibliotecas? Não gosto de definições e limites, muito menos de ser obrigada a algo. Mas acho que há algum tipo de liberdade nessa essência humana. É impossível existir sozinho, porque estamos sempre entrelaçados uns nas histórias dos outros. As comunidades não precisam definir quem nós somos, podem apenas fazer parte da nossa confusão de retalhos. A experiência naquele colégio não decide o meu destino, mas, sem dúvida, faz parte de quem eu sou.

Então, se você, como eu aos 14 anos, odeia seu colégio e não consegue pertencer a um grupo, entenda que essa é só uma das várias comunidades de sua vida. Você deve saber – o que eu não sabia aos 14 anos – que a rotina escolar é apenas uma parte da sua vida e, quando acaba seu horário de aula, você pode escolher outras comunidades para se engajar, especialmente com ajuda da internet. Continue buscando pessoas e coisas que você possa gostar, se dedique a tudo que você acredita ser importante e logo não se sentirá mais sozinha, porque você é parte do mundo. Um dia o colégio acaba e, com sorte, você leva memórias, laços e uma sensação vitoriosa de “um dia ainda vamos rir muito de tudo isso”. De repente, aos 24 anos você pode até sentir uma pontinha (bem leve) de saudade.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Yasmin Lorena

    As vezes não gosto de lembrar que fui uma dessas pessoas “malvadas”. Prefiro lembrar como uma questão de sobrevivência. :3

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