16 de novembro de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
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Quando a Capitolina ainda era um feto (o que não faz muito tempo) e a gente decidiu que uma área da revista seria dedicada à Moda e Beleza, de uma coisa eu já sabia bem: ia lutar com todas as forças pra que não caíssemos na araponga dos blogs de moda. Felizmente as meninas aqui são maravilhosas e esclarecidas, nem precisamos ter essa discussão.

Minha restrição nem era tanto pelo medo de ser só mais uma opinião desimportante no meio de uma cachoeira de opiniões. A preocupação tava mais no medo de não conseguir dialogar com todas as meninas que lessem a Capitolina. E, convenhamos, é uma preocupação preocupante. Os blogs de moda são massivos, hoje talvez um pouco menos, mas ainda são o principal contato de muita gente com moda. E o quão triste é ter que declarar que o principal contato de muita gente com moda é opressor e cruel com suas leitoras?

No começo era tudo muito descolado, tudo na base do tal do “streetstyle”, do improviso, da criação, da criatividade. Era demais. Todo mundo que participava dessa blogosfera era diferente, e deixava a gente com vontade de ser estiloso daquele jeito. Deixava a gente não com vontade de copiar as roupas, já ninguém era igualzinho, mas com vontade de achar nossa própria voz e nosso próprio estilo.

Mas aí, de forma meio espontânea, começou a surgir uma fórmula que sugou toda a energia vital desse projeto— mais ou menos de uma forma como explica a Laura nesse texto aqui. Os blogs se pasteurizaram, todos com as mesmas poses e mesmas peças. E agora blogueira boa é blogueira rica, que tem acesso à uma boa câmera pra tirar foto e contatos para os desfiles de moda, que tem as roupas que todo mundo acha que só existe na passarela e que ninguém vai ter dinheiro pra comprar.

Foto de qualidade, desfile e peças de marcas legais são interessantes, mas não deviam ser tudo. Pra mim, o mais legal da blogosfera é sua democracia, é o fato de qualquer um ter chance de chamar atenção na Internet, o que é muito justo, pois aí acabam se destacando os trabalhos que são realmente bons. Nesse molde atual dos blogs de moda, porém, isso não se aplica, porque ser considerada uma “top blogueira” passa a ser só pra quem tem grana.

Tem coisa que acaba mudando no meio do caminho, perde a essência, mas vira uma coisa bacana. Mas esse desvio acabou se desenrolando em um tapete vermelho V.I.P. feito sob medida pro elitismo e pra autopromoção passarem.

O foco mudou da criatividade para o consumismo, e dá medo dos efeitos que isso possa ter nas meninas – eu me pergunto se as mentes por trás dos blogs consciência disso… Dá medo que elas comecem a se sentir oprimidas, a pensar que pra ser descolada você tem que usar a bolsa que todas as blogueiras usam, usar a marca de xampu que todas usam, ter um espaço no meio das coxas ou fazer uma viagenzinha de compras básica no exterior com as amigas. Dá pra ser descolada assim? Dá. Mas também dá pra ser de muitos outros jeitos, inclusive do seu jeito.

É claro que nunca dá pra generalizar, sempre tem aquelas páginas que escapam desse perfil e continuam sendo estímulo e alívio pra cabeça e pros olhos. Boa inspiração é a que te liberta, não a que te restringe. Não escute quem desrespeita seu estilo, sua voz é bem mais potente e poderosa que isso.

 

 

 

 

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Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Beatriz Montenario

    Amei o post… Era o que eu precisava ler! Ganharam uma leitora! Enfim, um site pra nós, mas de verdade *-* Parabéns!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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