15 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Monocultura de soja no Brasil: você precisa saber!

Talvez você já tenha ouvido falar que o Brasil é um dos maiores produtores de soja no mundo, e também que a gente só produz tanto porque assim não falta comida. Essa última parte não é lá bem verdadeira, aliás, esquece o eufemismo: é mito. Vou explicar o porquê.
Pra situar, primeiro um breve resumo da história da soja no Brasil: até o início dos anos 1970, a produção dessa leguminosa ocorria apenas no sul do país porque era a região que tinha as condições climáticas favoráveis para o cultivo. Nessa mesma época, era implantado um programa do governo chamado de “Revolução Verde”, que tinha como objetivo aumentar a produção agrícola por meio de sementes geneticamente modificadas, uso intensivo de máquinas e químicos que acelerassem a produção. É bem aí que surge a primeira semente de soja adaptada às condições tropicais, desenvolvida pela Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), junto com um produto à base de calcário que neutralizaria a acidez do solo dos cerrados. Assim, os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso (que tinham terra abundante e barata) viraram a maior fronteira agrícola do país e atraíram fazendeiros do sudeste e do sul. Em menos de trinta anos, o centro-oeste transformou-se na principal região produtora de soja e o país, num dos maiores exportadores de soja em grãos DO MUNDO. Hoje, o Brasil é o 2º maior exportador, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Mas e aí, por que ela faz todo esse sucesso? A soja é uma oleaginosa que, a partir da sua industrialização, pode virar uma porção de coisas – desde ração animal, passando por biocombustível e até sabonete. Fora isso, é um dos produtos agrícolas mais rentáveis porque é rica em energia e produz mais proteína por hectare do que qualquer outro grande cultivo.
E qual é o problema? Agora eu vou dar uma porção de números e estatísticas aqui pra contextualizar – atualmente, o Brasil tem uma área de 30,135 milhões de hectares (aproximadamente 30 milhões de vezes o estádio do Maracanã) destinados ao cultivo da soja, produzindo 2.842 kg por hectare. No mundo, a área de soja é equivalente ao tamanho da França, Alemanha, Bélgica e Holanda juntas e apenas 6% da soja em grãos é destinada ao consumo humano como tofu e óleo de soja. Mesmo que o ser humano possa consumi-la diretamente em grãos, a maior parte é esmagada para produzir o farelo, usado principalmente como ração animal – aproximadamente três quartos da produção mundial é utilizada como ração.
Em 2014, saiu no site da WWF Brasil um texto sobre a expansão da soja que continha dados do Ministério da Agricultura sobre uma expectativa de 26,5 milhões de hectares até 2018-19. Tal objetivo seria alcançado por meio de um incremento anual de 1,95% na área de produção nas regiões do cerrado e da Amazônia, o que significaria trocar o gado e outros cultivos pela monocultura da soja. Tá ficando mais claro? Se a expectativa era de 26,5 milhões até 2018-19 e hoje, em 2015, o cultivo da soja ocupa pouco mais de 30 milhões de hectares, quer dizer que o crescimento está bem mais acelerado do que se esperava.
A afirmação que citei lá em cima, sobre precisarmos da soja para não faltar comida, é mera desculpa para expandir as plantações de soja e ganhar muito dinheiro com a exportação. Convenhamos, agora isso não faz nem muito sentido, né? Se a gente só consome 6% da soja produzida no mundo e estão substituindo outros cultivos por este, o que esperar? Que daqui a uns anos a gente se alimente só de tofu e mais nada?
E o negócio só piora: esse crescimento disparado da soja pelo país, além de estar tomando o lugar das plantações de outros alimentos importantes e da vegetação nativa, se dá no modelo de monocultura, que pode acarretar em diversos problemas ambientais. A monocultura consiste no plantio extensivo de um único vegetal, o que é perigoso porque desgasta o solo com o tempo, reduz a biodiversidade e provoca a perda de nutrientes, tornando necessário o uso de adubos e químicos cada vez mais potentes – ou seja, é um ciclo sem fim de danos ao solo.
Além dos problemas ambientais, o modelo de monocultura pode resultar em sérias desvantagens sociais – o desemprego aumenta porque reduz-se a mão de obra devido ao uso intensivo de máquinas e as populações rurais acabam tendo que sair do campo. A economia também pode ser afetada por este modelo porque doenças e pragas são específicas para cada tipo de vegetal, o que quer dizer que, caso surja uma dessas ou haja uma queda no preço do produto, TODA a cadeia produtiva regional estará em risco.
Conclusão: se continuar nesse ritmo, perderemos cada vez mais ambientes naturais e a perda de biodiversidade poderá ser irreversível.
Beleza, até agora a gente só falou em números, estatísticas, problemas e mais problemas. Afinal, qual seria a solução?
Bom, não há algo como um feitiço que possa gerar a sustentabilidade no cultivo da soja, mas o caminho mais positivo parece ser por iniciativas que conscientizem os produtores e consumidores sobre os impactos e padrões de consumo, bem como uma legislação eficaz e programas de monitoramento e fiscalização do desmatamento. Agora que você conhece um bocado dessa questão agrária no Brasil, pega esse monte de informação que eu joguei aqui em cima e diz aí: qual medida você acha mais eficiente pra tirar a gente dessa?

Fontes:
http://www.wwf.org.br/informacoes/?38423/A-expanso-da-soja#
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/conteudo_258387.shtml?func=1&pag=3&fnt=14px
https://www.embrapa.br/soja/cultivos/soja1/dados-economicos

http://fase.org.br/pt/informe-se/noticias/dados-e-informacoes-sobre-o-cultivo-de-soja-no-brasil/

  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

  • Nick

    Acredito que caberia falar no texto do uso de transgênicos em grandes
    produções, como ocorre com o cultivo da soja, é um assunto bem
    interessante e eu acho que poucas pessoas têm conhecimento acerca do
    assunto. Valeria conscientizar o público da Capitolina sobre o consumo
    desses produtos. Ainda assim, adorei a publicação <3

    • Laura Miranda

      nick, obrigada pelo feedback!
      concordo com vc. é um ponto bastante problemático, assim como o uso de herbicidas e todas essas químicas loucas e perigosas.
      que bom q vc gostou, e obrigada de novo pela crítica super construtiva hehe <3 volte sempre

  • Ana Clara Campanelli

    solução: parar de comer carne

  • Andrea Lanna

    Achei digna a postagem, as informações tão concisas (esse assunto rende muuuuitas discussões paralela) mas tão corretas 🙂

    Só uma dica: a ilustração que antecede o texto é de milho, não de soja… Se pá rolava de trocar, não?

  • Pingback: Mulher da roça: pele queimada, cabelo seco e mão grossa - Capitolina()

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