8 de novembro de 2014 | Edição #8 | Texto: | Ilustração:
Movimento em 8 rodas: roller derby
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Um esporte não é só uma atividade física cheia de regras em que equipes competem entre si. Esportes possuem culturas próprias. Pra essa edição da Capitolina, a oitava, fomos conferir o movimento que as meninas do roller derby fazem em cima das rodas de seus patins.

Acompanhamos um treino das meninas da liga de roller derby chamada Ladies of HellTown. Essa liga é a mais antiga do país e seus treinos acontecem na cidade de São Paulo. Além de tentar entender os montes de regras do esporte, ainda rolou conversa sobre as dificuldades da atividade, a integração entre as ligas e a superação das atletas.

No Brasil, o roller derby é esporte amador. As meninas se organizam em ligas e não em times porque isso facilita que elas treinem e joguem sem depender de outros times.

A Ladies of HellTown foi criada há cinco anos, mas o esporte já dava seus primeiros passos nos anos 1920. Primeiramente, era só uma corrida de patins, até que em meados da década de 1930 tornou-se um esporte de contato. A trajetória do esporte é cheia de altos-e-baixos mesmo no país em que foi criado e foi no Texas que surgiu o renascimento do roller derby no começo dos anos 2000, na cidade de Austin. Não demorou muito para outros países começarem a ter ligas. Neste diálogo internacional, as meninas da Ladies of HellTown participaram de eventos esportivos na Colômbia em 2013 e na Argentina em 2014. E também por meio de eventos assim, atletas de outras nacionalidades fazem períodos de intercâmbio na liga. Uma associação chamada Associação Mundial de Roller Derby (a WFTDA) reúne várias ligas espalhadas pelo mundo em duas categorias: “membros” e “aprendizes”.

Alguns desafios enfrentados pelas atletas têm a ver com a dificuldade de encontrar espaços gratuitos ou baratos para realizar os treinos, além da alta jornada de trabalho que a maior parte das meninas cumpre, uma vez que, por o roller derby ser uma atividade amadora, precisam se dedicar a outras profissões. As ligas não contam com patrocínios, mas têm apoios importantes de algumas lojas, o que permite que consigam equipamentos com desconto.

Como se trata de um esporte de contato, para entrar na Liga é preciso ter mais de 18 anos de idade. Meninas entre 16 e 18 são aceitas com autorização expressa dos pais por documento. Antes de se tornarem maiores de idade, essas meninas ficam no grupo de novatas.

No Brasil, não há times masculinos, mas rapazes podem participar dos treinos. De acordo com a WFTDA, porém, para fazer parte da associação, as ligas precisam ser criadas e gerenciadas por pessoas do sexo feminino. A cultura desse esporte tem um diálogo intenso com o movimento queer (que busca romper com as fronteiras entre os gêneros masculino e feminino). Nesse sentido, é muito importante ver como o roller derby é inclusivo quanto a diferentes biotipos das atletas.

Uma partida de roller derby dura 60 minutos, dividida em dois tempos. Cada um desses tempos é dividido em múltiplos jams que duram até 2 minutos e cada time tem um total de 3 minutos de timeout por jogo. Quem marca ponto são as jammers, que usam um capacete com estrela em um pano que chamamos de “calcinha”. Os pontos são contados por quadris que a jammer ultrapassa e só começam a valer depois da primeira passagem. Além das jammers, o time é formado por pivôs e bloqueadoras. Na parte de dentro da quadra, ficam os juízes (podem ser de 4 a 7) que acompanham as faltas e pontuações da partida.

Quando entram nas ligas, as jogadoras novatas são chamadas de “fresh meat” (ou seja, “carne fresca”). Na liga Ladies of HellTown, essas novatas só avançam para o grupo de veteranas depois de cumprir a lista de habilidades mínimas. Essa lista é o principal artefato de segurança para as meninas, que precisam saber patinar bem, mas também saber cair e lidar com as regras do jogo. Outro ponto importante sobre a segurança que as meninas da Ladies of HellTown destacam está no equipamento a ser utilizado. Na hora de comprar o equipamento, é necessário que ele não seja de recreação. A lição mais importante que essas meninas aprendem com o esporte é que o avanço dentro da liga acontece a partir de suas melhoras individuais. Assim, a idéia é entender que ninguém precisa ser melhor do que ninguém, e sim melhor do que a si mesmo no treino anterior.

Um pouco mais:

– Na próxima semana, nos dias 14, 15 e 16 de novembro, rola em Vila Velha-ES o 3º Brasileirão de Roller Derby.

– Um filme que deu um ânimo a mais para muitas meninas começarem a se interessar pelo esporte foi produzido em 2009, dirigido por Drew Barrymore e estrelado por Ellen Page: Garota Fantástica (Whip It, no original)

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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