13 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: and | Ilustração:
Movimento estudantil: por espaços do e para o estudante
Ilustração: Dora Leroy.

Ilustração: Dora Leroy.

Texto de Isabela Peccini e Julia Oliveira.

Talvez a melhor forma de explicar o que é o movimento estudantil seja dizer como acontece a sua atuação na sociedade e conversar com quem faz parte desse movimento. Atos, acampamentos, encontros, assembleias, plenárias e reuniões são comuns na vida de quem se dispõe a repensar sua escola ou universidade sob um viés político, o que serve não só para melhorar a educação no país, mas para que a sociedade que queremos esteja refletida no cotidiano dos espaços estudantis, e vice-versa. Afinal, se educação é o principal agente de mudança de pensamento, nada mais lógico que a transformação da sociedade se inicie onde a troca de informações é mais ativa.

Além das nossas vivências como militantes nas nossas universidades e alguma pesquisa, batemos um papo com a Júlia Forbes. Ela tem 20 anos, estuda História na USP e faz parte do movimento estudantil de lá. Para ela, “a importância de lutar por uma universidade para todas e todos – pública, gratuita e de qualidade – sempre foi clara”, para que “todos os setores da sociedade tenham a oportunidade que eu tive de estar lá dentro pra me formar, não só como profissional, mas como sujeito político mesmo, para seguir lutando além do espaço estudantil”.

Participar do movimento estudantil é fazer parte de um movimento social que esteja na luta por uma sociedade cada vez melhor, mais justa, de mais direitos. O movimento estudantil não acaba em si mesmo, ele é uma busca por mudanças na educação que se relacionam e se refletem diretamente na organização da nossa sociedade. “Quando a gente faz uma campanha por cotas, por exemplo, a gente questiona esse projeto de universidade que não inclui a população negra e pobre. Se eu quero uma sociedade diferente, minha luta também passa por construir uma universidade diferente”, coloca Júlia.

Muitos foram os momentos da história em que o movimento estudantil teve um papel incentivador e transformador crucial. Alguns deles você com certeza já estudou ou ouviu falar. Na Ditadura Militar, por exemplo, que durou de 1964 a 1985, a principal fonte de oposição e resistência ao governo opressor vinha de estudantes universitários. Muitos diretórios e centros acadêmicos foram, inclusive, fechados pelo governo durante essa época para tentar barrar a articulação estudantil.

Até hoje, vários desses estudantes seguem sendo inspiração a todos nós, estudantes de hoje, que continuamos na luta. Mario Prata, estudante de engenharia, presidente do DCE da UFRJ e militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), foi preso em 1969 pela Justiça Militar e hoje nomeia o DCE de sua Universidade. Alexandre Vanucchi Leme era estudante de Geologia na USP, militante no movimento estudantil e no grupo Ação Libertadora Nacional (ALN), foi levado preso em 1973 e torturado pelo II Exército durante dois dias até falecer. Hoje também nomeia o DCE de sua Universidade. Edson Luís, estudante secundarista de 17 anos, estava jantando no restaurante estudantil Calabouço em 28 de março de 1968 e foi morto a tiros em uma invasão da Polícia Militar. Marizze Lippel e Ligia Giovanella eram estudantes na UFSC, militavam no DCE e participaram da organização dos protestos de novembro de 1979 contra o então presidente João Baptista Figueiredo, ação hoje conhecida como Novembrada. As duas foram presas dias após os protestos. Esses são só alguns dos muitos nomes de estudantes que lutaram e sofreram as consequencias da Ditadura, sendo presos, torturados ou mortos pelo simples fato de lutar pela sociedade que acreditavam.

Mas nem é preciso ir longe na história pra mostrar a importância da força da juventude: nas Jornadas de Junho, no ano passado, milhares foram às ruas em uma série de manifestações que se iniciaram pela luta por melhorias no transporte público, se estendendo para uma luta por direitos, contra os abusos da Copa do Mundo e as remoções e contra a repressão intensa aos manifestantes, a maioria jovens estudantes. Vimos muitos de nós sofrendo com balas de borracha, gás de pimenta e prisões arbitrárias. Essa repressão histórica ao movimento estudantil só nos mostra o quanto temos força para intervir na nossa sociedade.

Independente da época, uma coisa dá pra perceber: não se faz movimento estudantil sozinho. Essa é uma luta coletiva, de pautas e construção coletivas e que deve abarcar a demanda de todas e todos. É claro que construir essa luta não é algo fácil e, inclusive, divergências entre pessoas que têm objetivos maiores semelhantes também acontecem. Sobre isso, Júlia acrescentou que “se a gente quer construir um novo projeto de universidade, a gente precisa chegar em sínteses conjuntas. O problema aparece justamente na hora de construir essa síntese. Os vícios do movimento são muito complicados, também é nosso dever pensar em formas de fazer esse espaço ser mais inclusivo e representativo”.

Para construir essa síntese, é necessário encontrar alguma forma e espaço para se organizar. Normalmente, é através de alguma entidade ou coletivo. Dentro da escola, esse é o papel do Grêmio, um espaço para que se debata e se organize as lutas especificas dos estudantes secundaristas. Na faculdade, cada curso pode ter o seu Centro ou Diretório Acadêmico (CA/DA), que fará também esse trabalho de articulação dos estudantes de um curso específico em uma universidade específica. Para unir todos esses CAs/DAs, há o Diretório Central dos Estudantes (DCE), a organização geral dos estudantes de uma universidade, englobando todos os cursos dela. E há, também, a possibilidade de se organizar junto a estudantes de diversas universidades que cursem o mesmo curso que você, através das Federações ou Executivas de curso.

Parece muita coisa né? É mesmo, mas, no fim, o objetivo de todas essas entidades é conseguir dar conta de todas as pautas e lutas em cada instância: colégio, faculdade, universidade, sociedade. Porém, a partir do momento em que você constrói a sua linha de ação e pensamento político, pode acontecer de querer se juntar a outras pessoas que seguem nessa mesma linha através de um coletivo ou partido que represente, coletivamente, suas ideias. Também é possível atuar nessas entidades que citamos aqui (ou mesmo em outras) de forma independente.

Seja de maneira organizada ou independente, o importante é se relacionar com outras pessoas e construir as lutas de forma coletiva e agregadora, para que todos se sintam parte dela. Infelizmente, a realidade do movimento estudantil é um pouco diferente do ideal, já que não estamos falando de uma bolha isenta de problemas impregnados na sociedade, como o machismo. Se ser mulher é um desafio na vida, nos espaços estudantis é a mesma coisa. Como bem colocou a Júlia, “as mulheres são historicamente estimuladas a não participar dos espaços políticos, que é sempre masculino. É só olhar para a composição do Congresso Nacional: apesar de nós, mulheres, sermos aproximadamente 51% do eleitorado brasileiro, somos apenas 10% no Congresso. Isso se reflete no movimento estudantil também. A maioria das lideranças do movimento, que fazem falas em assembleias e representam os estudantes são homens (brancos e cis). Isso vem mudando ao longo do tempo, cada dia mais vemos mulheres tomando a frente da nossa luta dentro da universidade”.

Se dedicar ao Movimento Estudantil é, no fim das contas, lutar pela educação e pela sociedade que acreditamos. É acreditar que, juntos, podemos fazer da universidade um espaço, realmente, do e para o estudante, qualquer estudante. É lutar pela garantia do direito à educação e, consequentemente, por uma sociedade de mais direitos.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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  • Sigrid

    Estou na vida acadêmica desde 2013, e permanecia na inercia até pouco tempo, mas de uns tempos pra cá pude ver o lugar que eu ocupava e de como eu influenciava outras pessoas. Vim me interessando por movimentos estudantis e percebendo que juntos somos fortes e podemos mudar a nossa realidade. Eu curso letras- habilitação em língua portuguesa, e faço parte do centro acadêmico do meu curso, com a ajuda de colegas acadêmicos criamos um cursinho POPULAR dentro da nossa instituição (UFPA), com o objetivo de trazer jovens de baixa renda para dentro de uma instituição pública, e isso sem a ajuda de nem um órgão, é uma luta grande que enfrentamos dia-a-dia mais a recompensa vai ser gratificante. Se cada jovens fizesse a sua parte poderíamos fazer um Brasil melhor!!!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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