19 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: and | Ilustração:
Movimentos cinematográficos
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Texto de Ana Gabriela e Natasha Ferla.

O cinema, assim como todas as outras artes, está sempre em transformação. São novos cineastas, novas técnologias, novas influências e o mundo que está sempre em movimento. A indústria e quem faz parte dela absorve tudo isso e de tempos em tempos um conjuto de filmes específicos faz com que vejamos de forma diferente toda uma produção que foi feita no passado e abre os olhos para que os próximos filmes sejam feitos e interpretados de uma maneira nova. A lista a seguir inclui algumas das dezenas de movimentos cinematográficos existentes desde o final do século XIX. Cada país tem sua própria história e o cinema não é igual em todos os lugares, muitos como o Brasil ainda estão criando meios de fazer uma indústria forte e que sobreviva as invasões dos blockbusters.

Neorrealismo italiano

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Itália enfrentava diversos problemas e tentava se reerguer. Esse era o cenários que os diretores do Neorrealismo Italiano registravam em seus filmes. Outro marco do movimento foi o uso de não atores – pessoas sem nenhum tipo de instrução nas artes cênicas que eram contratadas para atuar em filmes, tendo como exemplo máximo o protagonista de Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948), Lamberto Maggiorani, um homem simples que era empregado em um fábrica, onde voltou a trabalhar depois de terminar as gravações do filme. Roma, Cidade Aberta (Roma città aperta, 194) de Roberto Rossellini é considerado o primeiro filme do Neorrealismo Italiano.

Nouvelle vague

Foi lá no fim dos anos 50 que nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre muitos outros importantes nomes saíram das páginas da revista sobre cinema Cahiers du Cinema e invadiram as telas de cinema da França com suas próprias histórias. De forma acidental, esses filmes foram chamados da nova onda (Nouvelle Vague) e deram início a uma nova era do cinema feito na França. O crítico e teórico André Bazin é uma peça muito importante para entender a Nouvelle Vague. Ele propunha a Teoria dos Autores, onde o diretor – o autor – é a peça central do filme, e fazia um cinema mais pessoal, de teor menos comercial e não apenas mais uma produção em escala na grande indústria cinematográfica. Os jovens turcos – como eram chamados devido a agressividade em suas críticas – eram inspirados por nomes hollywoodianos como Orson Welles, John Ford, Nicholas Ray e Alfred Hitchcock, que eram diretores que possuiam assinaturas bem claras em seus filmes.

Os filmes da Nouvelle Vague carregavam características muito pessoais dos seus autores.
Como exemplo de filmes que marcaram em definitivo o movimento, podemos citar Acossado, primeiro longa-metragem do Godard, com roteiro que conta com a colaboração de Truffaut, e o primeiro filme do próprio Truffaut, Os incompreendidos. Este novo modo de se fazer filmes, se baseava em um cinema de baixo custo, filmagens de rua, retratando temas tabus e cotidianos, contando histórias de anti-heróis e marginais, um cinema feito por jovens.

Jules e Jim – Truffaut (1961)
O Demônio das Onze Horas – Godard (1965)
O Signo do Leão – Rohmer (1962)
Hiroshima, Meu Amor – Alain Resnais (1959)

Cinema Novo

O Cinema Novo foi um movimento brasileiro surgido no final dos anos 50. Tem influência direta da Nouvelle Vague francesa e do Neorrealismo italiando. Foi um movimento de jovens cineastas que buscavam uma nova estética e uma nova forma de se fazer filmes, se contrapondo ao cinema produzido na época, dos grandes estúdios, e aqui no Brasil encabeçado pelos estúdios Vera Cruz e Atlântida.

Os cineastas do Cinema Novo se preocupavam em fazer seus filmes encontrando um equilíbrio entre o cinema de autor e as preocupações políticas da época, ajudando na formação de uma “consciência nacional”.

O movimento contou com nomes como Ruy Guerra, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade. Mas o grande destaque do Cinema Novo foi o diretor Glauber Rocha, o grande visionário da estética do movimento, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Entre seus filmes, temos Deus e o diabo na terra do sol (1964), O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969) e Terra em transe (1967), sendo este último uma grande referência para a criação de um importante movimento artístico, o Tropicalismo, e fazendo uma crítica pesada à política exercida na época no Brasil.

Rio 40 Graus – Nelson Pereira dos Santos (1955)
Os Fuzis – Ruy Guerra (1964)
A Grande Cidade – Cacá Diegues (1966)
Macunaíma – Joaquim Pedro de Andrade (1968)

Nova Hollywood

Durante os anos 60 a sociedade como um todo passou por grandes mudanças, a contracultura e os jovens questionavam cada vez mais as normas da sociedade e os jovens americanos a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, que recrutava a juventude para fazer parte daquela barbárie. O cinema feito em Hollywood já não dizia nada para aquela juventude inquieta e mostrava o que mais careta havia na sociedade. Depois da Segunda Guerra Mundial e de uma era de ouro onde se firmou como a maior indústria mundial do cinema, Hollywood estava em baixa. A chamada New Hollywood foi uma resposta a essa indústria e sociedade que deixava o verão do amor de lado e lidava com os julgamentos dos terríveis crimes Tate/La Bianca. Os filmes dessa geração eram questionadores, com protagonistas pelos quais não necessariamente tínhamos que ter afeto, eram histórias violentas e que pareciam não haver limites. Inspirados pelos europeus, os diretores da Nova Hollywood eram o que chamamos de autores, e pela primeira vez os jovens tinham o cinema e o domínio de seus filmes em mão. Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão) Martin Scorsese (Taxi Driver), Hal Ashby (Harold and Maude), William Friedkin (O Exorcista), Arthur Penn (Bonnie and Clyde) e Peter Bogdanovich (A Útima Sessão de Cinema) são alguns nomes que fazem parte dessa onde do cinema norte-americano. Além de ter sido uma época fértil em termos de criatividade, foi o último grande movimento de cinema nos EUA, que realmente moveu a população ao cinema aos montes. De acordo com o crítico Peter Biskind, o movimento iria de Bonnie and Clyde, de 1967, até 1980, com Touro indomável (Raging Bull) de Scorsese, passando por blockbusters como Tubarão (Jaws, Steven Spielberg) e Guerra nas estrelas (Star Wars, George Lucas), peças fundamentais para entender o cinema americano moderno.

Dogma 95

O Dogma 95 foi um marco no cinema dos anos 90. Foi criado pelos diretores dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg, a partir de um manisfesto publicado no ano de 1995.
Esse manifesto continha dez regras, ou mandamentos, que, em conjunto, seriam a nova fórmula de se fazer e pensar cinema. O objetivo era ir contra o cinema comercial e contra o cinema individualista (pregado pela Nouvelle Vague), um retorno ao realismo nas telas e um reforço ao pensamento de que qualquer um pode fazer filmes.

Os mandamentos eram regras técnicas e éticas. Por exemplo, as filmagens teriam que ser sempre em locais externos, e não poderia incluir nenhum objeto para cenografia. Não seria permitida a produção do som separado das filmagens, o som deveria vir do lugar onde se filmava. Câmera sempre na mão, em 35mm, sem cortes temporais ou geográficos. Filme em cores, sem iluminação especial. O mais cru possível. O objetivo era mostrar a verdade sem a necessidade de efeitos especiais.

Quando os diretores estavam para lançar seus filmes, uma cópia era entregue para o organismo responsável pelo Dogma, que, depois de uma análise, receberia o certificado que reconhecia a obra como uma componente do movimento.

Os dois filmes mais importantes do movimento são Festa de família, primeiro filme a ser reconhecido pelo manifesto, conhecido também como Dogma #1, dirigido por Thomas Vinterberg, e Os idiotas, de Lars von Trier, conhecido como Dogma #2. Os dois filmes foram muito aclamados pela crítica e premiados em diversos festivais.

A lista completa de todos os filmes reconhecidos pelo Dogma 95, você pode conferir aqui.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

  • Chiberia

    gostei bastante! Uma série de filmes para eu assistir.
    Recentemente estudei sobre o design nos 80-90, com a negação do modernismo e o até chamado “design grunge” e, assim como a música, tem um paralelismo bastante forte com o Dogma 95. É muito legal ver como essa estética da crudeza (ao mesmo tempo que na música e no design havia uma busca pelo ruído e pela sujeira) permeava todos os meios, trazendo uma linguagem bem característica. Hahahaha, isso me deu vontade de pesquisar mais sobre as condições políticas nos noventa, a gente aprende tão pouco na escola, né?

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