1 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #1 | Texto: | Ilustração:
Mudança de dentro para fora
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

Você se lembra da primeira vez em que ouviu que alguém não queria ter o corpo que tem, que adoraria ter o corpo da Fulana, que queria mudar isso ou aquilo em si mesma? Provavelmente não. Eu também não me lembro, mas sei que, de lá pra cá (qualquer que seja o momento no tempo em que esse “lá” se encontra), já ouvi isso muitas, muitas vezes. Até já falei (e muitas vezes falo) isso, repetidamente! Não é coincidência que todas nós ouvimos isso diariamente e, muitas vezes, falamos isso diariamente também.

É claro que podemos mudar nosso corpo o quanto quisermos se isso for nos deixar feliz. O importante é que fiquemos confortáveis com a gente mesma. No entanto, por mais que mudemos nunca nos sentiremos bem e bonitas a menos que mudemos o modo como olhamos para o nosso corpo. E é sobre começar a mudar esse olhar que eu quero falar.

Não só no Brasil, mas no mundo todo, as mulheres que estão em evidência são aquelas que parecem que nunca seremos. Isso porque aquelas mulheres altas, magras, lindas, sem nenhuma celulite ou estria ou cicatriz, e totalmente autoconfiantes, simplesmente não existem. Acredite se quiser! Aquela menina que pra você é gata e perfeita, sempre com um monte de gente babando em cima, também tem seus defeitos, e ela os conhece melhor do que ninguém (você provavelmente nunca os notou pelo simples fato de não ser ela). Pois é, aquela mesma moça que tem “o corpo dos seus sonhos” olha para outra mulher e pensa a mesma coisa que você pensa quando olha para ela. E essa outra mulher também olha para alguém e pensa a mesma coisa, e assim sucessivamente. E, em algum lugar, nessa sucessão, estão o seu corpo e o seu rosto. Alguém olha para as suas qualidades, para os seus olhos grandes que você acha que te deixam com cara de criança, para os seus cabelos grossos que acha que não combinam com o seu corpo pequenininho, para o espacinho entre os seus dentes, para a sua mancha de nascença que te faz ter vontade de fazer faculdade de química só para poder criar uma maquiagem que seja capaz de escondê-la, para o seu quadril largo demais, para suas coxas que encostam uma na outra, para a falha na sua sobrancelha, para o seu nariz pontudo, para os seus pés ossudos, para as dobrinhas na sua barriga, e pensa em como você tem sorte em ser assim. Todas aquelas coisas que você vê e pensa que estão todos reparando provavelmente não são tão grandes quanto pensa, e vai ter quem critique e quem admire. Eu odeio contar detalhes da história antes deles acontecerem, principalmente quando a história é sua vida, mas tenho que dizer: você nunca vai conseguir agradar todo mundo! Nem mesmo no que diz respeito ao seu corpo! E são todas essas coisinhas que te tornam quem você é. Já ouviu a frase “se não pode com eles, junte-se a eles”? Ela se aplica perfeitamente a esse caso: se você conseguir entender que essas características podem ser o que te torna única, vai ver como amá-las pode ser muito mais fácil. E também pode usar aquelas coisas que vê como qualidades suas ao seu favor, e destacá-las.

Então, sim, você pode passar a vida desejando ter o corpo de outra pessoa, pode tentar se modificar ou esconder aquilo que vê como defeito. Vai ter gente que vai continuar te achando linda, vai ter gente que vai passar a te achar linda, vai ter gente que vai continuar te criticando, vai ter gente que vai passar a te criticar. Acho que já ficou claro o que eu quero dizer: é impossível agradar todo mundo, e, quanto mais quiser fazê-lo, mais vai querer se modificar. Porque até aquela menina que tem exatamente o rosto e o corpo que você tem nos seus sonhos é alvo de críticas, vê em si mesma defeitos em que outras pessoas jamais reparariam e gostaria de ter o corpo de outra pessoa. Simplesmente porque somos condicionadas a não estar satisfeitas conosco mesmas desde que nascemos.

Já que não vai dar pra agradar todo mundo mesmo, pense comigo: assim como tudo aquilo que você vê de bom em si mesma, aquilo que vê de ruim é, nada mais nada menos, do que VOCÊ. Você é assim, tem seu pneuzinho irremovível na bunda, tem sua pinta no meio do rosto, tem seios desproporcionais ao resto do seu corpo. Você é assim! E é essa frase que deve fazer sentido para que comece a aceitar seu próprio corpo. Não importa como os outros são ou o que os outros pensam quando te olham ou quando olham para ela. O que importa é o modo como você olha para si mesma, e esse olhar não vai mudar conforme você se modifica por fora, só vai mudar com a sua decisão de que ele vai mudar. Porque não importa o quanto mude, essa é você, e sempre vai ter características de que não vai gostar, mas vão te fazer ser quem é. E que alguém vai amar e alguém vai odiar. Então é claro que você pode fazer mudanças para melhorar sua autoestima, mas tem que entender que não vai deixar de ser você, e, a menos que sua ideia de perfeição mude e entenda que o “ninguém é perfeito” não se aplica só aos outros, estará para sempre insatisfeita. E aí não vai valer a pena se privar de um milhão de momentos gostosos, como, por exemplo, comer sua comida preferida (que, convenhamos, é frita ou gordurosa; não existe comida preferida que não seja), porque mesmo quando atingir seu ideal de agora, um novo ideal vai surgir, e você vai se encontrar presa em um daqueles sonhos em que a gente quer muito pegar alguma coisa muito importante que vai salvar nossa vida, mas corre, corre, corre e não consegue sair do lugar.

Quando notar seus defeitos, entenda que “defeitos” é só uma questão de ponto de vista, e só leva um pensamento para eles se tornarem qualidades. E que quem quiser reparar nos seus defeitos vai reparar mesmo que você “conserte” todos eles. Se alguém quiser te criticar, vai achar alguma coisa para criticar. Então pra quê se incomodar com quem vai te criticar de qualquer jeito? O melhor é, a partir de agora, começar a viver de acordo com o que você sente que te deixará feliz, independente dos outros, porque os outros nunca estarão satisfeitos e nunca serão você. “Faça uma revolução, ame seu corpo”! Hoje!

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Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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