19 de novembro de 2019 | Ano 5, Edição #49 | Texto: | Ilustração: Bruna Morgan
Mudanças: Como se perder e se encontrar de novo

Quando eu era criança, pensava que ia morar a vida toda em um lugar só. Eu gostava muito da cidade onde nasci e de onde morava, gostava da minha escola e das pessoas que estavam à minha volta. Eu via a cidade como um mundo onde eu era um pedacinho no meio daquele emaranhado de ruas e manchas verdes. Pra mim, parecia muito confortável ficar lá até virar velhinha, até que me mudei pela primeira vez na vida. 

Eu estava triste, com medo e insegura. Com 13 anos, o mais importante pra mim era estar perto dos meus amigos e do que eu já conhecia. Mudança significava ir pra outra escola, outra casa, ter que me enturmar e viver em um lugar completamente diferente. Juntando isso com a minha insegurança de adolescente e a pressão para me ajustar em um grupo, eu tinha mais dificuldade ainda em fazer amigos. 

Longe da minha cidade me sentia como se tivessem tirado a minha identidade – agora não estava mais onde sempre achei que me encaixava, ou pelo menos onde pensava que tinha me encaixado. Com tudo o que estava acontecendo, eu não conseguia processar direito aquele turbilhão de emoções que estava sentindo. Ainda por cima, fiquei sendo “a menina nova” – todo mundo sabia que eu não pertencia e isso me incomodava.

Aos poucos, fui mudando quem eu era pra ficar mais fácil de fazer amizades na escola, escondendo meus interesses, trocando o estilo de me vestir e os assuntos das conversas. Cortei aos poucos o contato com amigos da minha cidade porque lembrar de como as coisas eram – e ver de longe como todos estavam seguindo sem mim – era doloroso demais. Eu precisava me adaptar para continuar mas enquanto isso, estava perdendo de vista quem eu era de verdade. 

Um dia, lendo um artigo em uma outra revista online, a Rookie,prima norte-americana da Capitolina, entendi que não precisava me moldar à maioria para agradar a outras pessoas e me libertar do sentimento ruim de rejeição por não me sentir parte do grupo de amigas com quem eu tinha mais afinidade. Foi aí que eu percebi o quanto estava triste por deixar de lado o que mais importava pra mim. 

Mais tarde, acabei encontrando amigos com quem me relaciono até hoje. Fui deixando pelo caminho os relacionamentos que me faziam mal e cultivando as amizades recíprocas e verdadeiras. 

Depois de quase 10 anos e duas mudanças, vejo que cada uma delas foi uma oportunidade de aprender. Não vai ser sempre fácil, mas pode ser bom sair do conhecido e se aventurar nas coisas novas, aprender a lidar com ambientes que parecem menos hospitaleiros e se conectar com pessoas com quem você se identificar no processo. Isso faz parte de crescer e não tem nada melhor do que finalmente achar sua voz e fazer aquele barulho pra celebrar sua individualidade! E é sempre legal fazer isso com amigos que têm interesses em comum: quem curte as mesmas séries, livros, hobbies, revistas online (você pode fazer seu próprio clube de Capitomigas!). Ainda que você esteja longe da sua antiga casa, vai sempre ter um espaço em que se sente acolhida.

Isabella Rangel
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Se Liga
  • Colaboradora de Culinária e FVM

Isabella é curitibana e tem 20 anos de idade. A chuva, para ela, é um estado de espírito, muito bem apreciado com muitas xícaras de chá. É fã de museus, música e aventuras gastronômicas e gosta ainda mais de atividades que combinem os três. Hoje vive no interior de São Paulo, e quando não está lendo livros para a faculdade de Direito, ela pratica seu clarinete, assiste musicais e lê mais livros.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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