14 de fevereiro de 2016 | Ano 2, Edição #23 | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Muito além de 50 tons: o mundo das fanfics eróticas
EDIÇÃO #23 - PAUTA FANFICS EROTICAS - NATALIA SCHIAVON

Fanfic é um dos meus assuntos favoritos, porque foi uma parte muito grande da minha adolescência. Como já escrevi um monte sobre o tema aqui pra Capitolina – e outras colaboradoras já escreveram também –, não vou explicar demais o que é ou como funciona de forma geral neste texto, porque eu quero é falar de um tipo específico de fanfic: as eróticas. Pois é, aquelas que são cheias de sexo, que colocam seus personagens favoritos em orgias absurdas, que fazem todo mundo (mesmo personagens que nem da mesma história são) se pegar como se não houvesse amanhã, que você não pode ler em público porque todo mundo vai ver sua cara ficando vermelha.

Vou confessar aqui (como se já não falasse disso pela internet toda): muitas das fanfics que li (e algumas que escrevi) foram dessa categoria (comumente chamada de smut ou pwp no mundo do fandom). E mesmo que eu fale de fanfic por tudo quanto é canto da vida, ainda dá uma leve vergonha de falar abertamente desse tipo de fanfic, não exatamente porque estamos falando de sexo e erotismo e fantasia, mas porque elas são o tipo de fanfic mais mal-visto por quem não é envolvido em fandom. Mas por que será? Por que esse julgamento todo em relação a quem lê sobre seu ship favorito fazendo sexo mirabolante, um julgamento muito diferente daquele direcionado a quem vê filme pornô, por exemplo?

Minha teoria (e de um monte de gente que já estudou isso bem mais do que eu por aí) é a seguinte: fanfics são principalmente escritas por mulheres. E no caso dessas fanfics eróticas, são mulheres escrevendo sobre suas fantasias, para que outras mulheres que compartilham daquelas fantasias leiam; são mulheres explorando seus interesses e curiosidades sexuais em um ambiente seguro, puramente no espectro da ficção, sem explorar ninguém (diferente dos filmes pornôs que mencionei antes); são mulheres sem medo de deixar a imaginação fluir, de descrever em detalhes o que acham excitante, de tomar controle dos seus desejos, e mulheres sem medo de explorar diversas histórias, com diversas fantasias, com diversas preferências; são mulheres escrevendo histórias frequentemente bem pouco heteronormativas, mulheres adaptando a ficção para representar suas próprias orientações sexuais, mulheres escrevendo sobre mulheres, mulheres escrevendo sobre homens, mulheres escrevendo sobre possibilidades de relações erótico-afetivas que a mídia não lhes oferece. Ou seja: são mulheres (frequentemente jovens) fazendo na internet o que o mundo odeia que as mulheres façam – tomar conta da sua própria sexualidade.

Por isso mesmo esse tipo de fanfic foi importante, sim, na minha adolescência (e na de várias das minhas amigas). A possibilidade de, sendo uma garota adolescente, explorar seus interesses sexuais de forma tão segura – lendo sobre personagens fictícios, lendo histórias escritas por outras garotas, conversando honestamente sobre essas histórias, podendo começar ou parar de ler quando quiser, sem que te ofendam por alguma curiosidade ou te forcem a gostar de algo, sem que partam de pressupostos sobre sua orientação sexual – é bem rara no nosso mundo. Ler esses textos, escrever meus próprios e, principalmente, conversar com outras escritoras e leitoras foi parte fundamental das minhas descobertas sobre minha sexualidade, descobertas que puderam ser feitas num ambiente de amigas (afinal, conversar abertamente sobre sexo com amigas na juventude também é frequentemente desencorajado, então ter essas amigas do outro lado do computador que se dispunham a conversar sobre esses assuntos abertamente e sem medo era uma experiência nova).

Claro que nem tudo são rosas e tem muita fanfic desse tipo que perpetua preconceitos, que fetichiza corpos/raças/gêneros, que romantiza abuso (vale lembrar que 50 tons de cinza era uma fanfic erótica em sua origem). Também tem gente que faz comentários maldosos, gente que julga e que ofende, como em toda a internet. Mas mesmo assim é o espaço mais seguro que eu já encontrei para exploração de fantasias, para mulheres entenderem suas próprias sexualidades.

Ficou curiosa para se aventurar no mundo dessas histórias? Na minha época (já sou velha para os padrões da internet), lia fanfics no Livejournal e no Tumblr. Hoje em dia acho que os sites mais populares são o Archive Of Our Own e o Wattpad – os dois sites são em inglês mas têm textos escritos em português também, e você pode buscar por tags (o mais fácil é procurar pelo fandom, aí ir buscando os ships, aí ver nas descrições os detalhes que te interessam ou não). E se você já é expert no assunto e quiser recomendar suas favoritas aqui nos comentários, estou muito interessada!

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • yasmin

    Tá, tmb adoro esse tipo de fanfic, leio umas muito maravilhosas e bem escritas! Por muito tempo me perguntei por que eu gosto tanto daquilo, e a um tempo atrás cheguei a conclusão de que é como se fosseum pornô, só que com sentimento. Que eu só acho excitante quando tenho uma conexão emocional com os personagens…

  • Sarah Jessica Ramos

    Já li, hoje não mais e agora me pergunto pq. Amei a matéria. O conteúdo de vocês sempre é assim MARAVILHOSO! Vejo grande.

  • Mayara Teixeira

    O difícil, na maioria das vezes, é encontrar aquela fanfic realmente bem escrita, rs!

    • Rodrigo_M

      Disse tudo hahaa

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos