23 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
Muito obrigada, Elisa

Quando me propus a escrever sobre surdez na adolescência, há cerca de um mês, senti que entrava em um campo desconhecido para mim e, por isso, bastante delicado. Não queria apenas ler sobre o assunto e tirar conclusões quase etnográficas. Estava interessada em experiências. Pesquisei bastante, conversei com profissionais de muitas áreas que se relacionavam com o tema de alguma forma, busquei pessoas e encontrei Elisa. Mais perto do que imaginava. Uma amiga da faculdade de minha irmã. Nos comunicamos por Facebook e elaborei algumas perguntas depois de compartilhar questões com muitas meninas da Capitô. Minha sorte, porém, foi tão grande que, mais que uma entrevista, ganhei um presente! E tão emocionante que eu não teria nada a acrescentar. Só aprender. Agradecer.

Com vocês, a carta que mudou a autoria desse texto:

Eu, Elisa Fonseca Takinaga, nasci em Novo Horizonte em 1994. Minha família percebeu, apesar de eu ser uma criança muito esperta, um atraso na fala. Procuraram ajuda de médicos e fonoaudióloga, e aos 2 anos fui diagnosticada com perda auditiva profunda bilateral. Comecei a usar aparelho auditivo e frequentar seções de fonoaudiologia, três vezes por semana. Entrei na escolinha porque o convívio com outras crianças seria fundamental para o meu desenvolvimento.

As seções de fonoaudiologia (que duraram em torno de 16 anos) foram fundamentais para que eu aprendesse a me comunicar (sou oralizada, embora fale um pouco diferente) e a fazer leitura labial, que muito ajudou no meu desenvolvimento. Aprendi, juntamente com minha família, o básico de libras e, para mim, foi fundamental a combinação “leitura labial e libras”. Sempre tive ajuda de amigos e professores maravilhosos. Tive a sorte de poder estudar numa escola particular onde a “inclusão” realmente aconteceu. Tive o apoio de muita gente. Precisei me esforçar muito, claro que tenho minhas limitações. Na verdade, não foi fácil acompanhar os estudos, pois preciso fazer leitura labial e algumas palavras se perdem. O vocabulário do surdo é sempre um pouco limitado. Estou sempre aprendendo palavras novas.

Se, eventualmente, ia mal em algumas provas, minha mãe dizia: você é inteligente, faltou estudar um pouco mais! Hahahaha. Com muito esforço concluí o colegial. Nessa época, fiz a cirurgia para implante coclear, e passando por um estudo genético para saber o porquê da minha perda auditiva, tive contato com um profissional e me interessei pelo curso de biomedicina.

Trocamos ideias e vi que era uma profissão que poderia dar certo para uma pessoa surda, pois necessita de bastante concentração e não precisaria falar muito. Quando fui fazer matrícula na faculdade, fui informada de que teria direito a uma interprete. No começo fiquei com um pouco de medo, pois nunca havia tido uma. Confesso que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, é uma pessoa maravilhosa que me acompanha nas aulas e que muito contribui para o meu crescimento. Meu lema é “eu quero, eu posso e eu consigo”, mesmo que para isso tenha que me esforçar muito. Nunca deixei de fazer nada por causa da minha perda auditiva. Adoro esportes, cinema, artes, natureza. Aos 13 anos, entrei na aula de pintura – óleo sobre tela; amo desenhar e pintar. Com ajuda do meu professor e amigo, participei de algumas exposições, e fui premiada. Estou concluindo o quarto ano de biomedicina e pretendo continuar meu estudo. Confesso que a vida da pessoa surda não é fácil, é cheia de desafios. Ainda bem que nasci numa época em que a tecnologia está avançada e que para me comunicar posso fazer uso de mensagens, internet. O mais difícil para a pessoa com perda auditiva é provar para si mesmo e para os outros que é capaz. O esforço é a base de tudo. Agora só me falta conseguir um emprego. Hahaha. Bom, o futuro a Deus pertence.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

  • Thaisy

    Daiane sua linda!!! Trabalho com crianças surdas e sou Tils (Tradutora interprete de Libras) na Unip,onde tenho o prazer de trabalhar junto com a Elisa,essa alma linda e iluminada que escuta alem do que imaginamos,pois escuta os corações. Sou grata a Deus por encontrar em meu caminho pessoas especiais o tempo todo, e voce é uma delas. Sou Pedagoga e graduanda de biomedicina (3 ano) e posso te garantir que encontro forças todos os dias porque tenho Deus,mas Deus me viu fraquinha e sem motivações e então colocou a Elisa na minha vida,ela é minha inspiração!
    Adorei seu trabalho e seus planos futuros. Pode contar comigo no que precisar,sou uma ex estudante de comunicação social e adoro!!!

    • Daiane Cardoso

      Thaisy, linda! Muito obrigada pelo relato e por tanto carinho! De todo meu coração! <3 Muitos beijos para você!

  • mayumijulia

    Fiquei emocionada cm essa matéria!! É mto triste que não tenhamos mt acesso a libras, seria de grande ajuda aprender o básico…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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