22 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Mulher da roça: pele queimada, cabelo seco e mão grossa

Sabemos que 37% do Brasil é rural. Pela lógica, metade destes 37% são mulheres. E se viver e se colocar no mundo já é difícil para mulheres que vivem nas cidades, essa tarefa é ainda mais complicada para as mulheres que estão nas zonas rurais.

Nós não costumamos pensar muito sobre essas pessoas que moram longe da gente e produzem nossa comida, e pensamos menos ainda que essas pessoas podem ser mulheres como nós. O trabalho do campo, debaixo do sol forte, que exige força física e que às vezes envolve máquinas pesadas, sempre nos traz a mente a imagem de um homem.

E é ai que a gente se engana.

Boa parte do que a gente come é cultivado por mulheres. Além disso, são elas que historicamente guardaram as sementes que contêm o material genético das espécies nativas do Brasil (já aprendeu na escola que o nosso país é um dos países com a maior biodiversidade do mundo, né? Pois é, agradeça às mulheres por muita coisa ainda não ter sido extinta), e que mais lutam para que a monocultura não avance ainda mais nos territórios delas. Sabe todos esses problemas que a gente tem relatado nessa edição da Capitolina em relação à produção de alimentos? São as mulheres que geralmente denunciam e estão na linha de frente da luta contra essas coisas.

Apesar de conseguirem fazer tudo isso, o conservadorismo que predomina no Brasil inteiro, mas principalmente na área rural, ainda breca muito a capacidade de mudar o mundo dessas mulheres. Muitas não se organizam para lutar pelos seus direitos simplesmente porque os maridos não deixam nem elas saírem de casa e conseguirem o próprio dinheiro, quanto mais lutarem para que todas as mulheres não tenham mais que se submeter a esse tipo de dominação. As que vão para a luta, muitas vezes são recriminadas pelos próprios filhos, marido, sogros e vizinhos. Mas o que essas mulheres querem, afinal?

Além de poderem viver uma vida autônoma e sem violência, a maioria dessas mulheres luta pela agroecologia, que é uma forma de produzir alimento e de lidar com a natureza e com os seres humanos que prioriza a vida e não o lucro. Isso se dá principalmente porque elas, desde muito pequenas, aprendem que devem realizar o trabalho de cuidar das pessoas – do marido, dos filhos, da família, e geralmente nunca delas mesmas –, e enxergam na agroecologia uma forma de alimentar e viver que cuida, e não que destrói. Como cuidar dos filhos se no quintal de casa se aplica veneno? Como querer uma alimentação boa se os alimentos são transgênicos e contaminados? Como ter autonomia financeira se o mercado paga quase nada pelo que essas mulheres produzem?

Por isso, é essencial que a gente lembre que as mulheres rurais precisam da nossa atenção assim como as mulheres urbanas. Primeiro, porque são mulheres assim como nós, sofrem com o machismo todos os dias e têm seus direitos cerceados da mesma forma. E, se isso já não for o bastante, a qualidade de vida delas é também a nossa qualidade de vida, porque se elas viverem com saúde e dignidade, isso quer dizer que nosso alimento também está sendo produzido de forma limpa e sem risco de contaminação. Se a vida delas for diversa, a diversidade é refletida no prato e na saúde da gente.

Trabalhadoras rurais não são só as mulheres agricultoras. As quilombolas, ribeirinhas e as moradoras das áreas atingidas por barragens também passam pelos mesmos problemas, e também geralmente são as “responsáveis” por proteger a natureza do lugar onde elas vivem. Já deu pra perceber que, não fossem as mulheres para dizer um grande e sonoro “não” para o avanço do “desenvolvimento” predatório e irresponsável sobre a nossa natureza, a nossa situação como humanidade ia estar bem pior do que já está, né? Mas isso as pessoas geralmente não dizem para a gente quando reproduzem o mesmo discurso de sempre de que todos nós estamos destruindo a natureza. Quem está destruindo? E para quem isso importa? Geralmente, não são as mulheres e os benefícios disso não vão para as mulheres.

As mulheres rurais organizadas são as sementes de um mundo mais equilibrado e justo. Ter comida saudável; ar, água e terra limpos e romper a cultura de exploração das mulheres e da terra são passos importantes no caminho para um mundo melhor para todo mundo. A terra continua girando com o seu grande poder, e nós precisamos aprender e dar força para quem desde sempre sabe girar com ela.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Maravilhoso, simplesmente. Sempre bom refletir sobre quem não está perto de nós, mas é super importante no nosso mundo 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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