8 de setembro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
A Mulher de Todos
Ilustração por Isadora M.

Ilustração por Isadora M.

Na história do cinema brasileiro, há uma mulher chamada Helena, que além de ter sido considerada ícone de beleza, foi a atriz protagonista dos períodos mais experimentais e subversivos do Brasil, nos anos 1960 e 1970. Somando mais de trinta filmes na sua carreira, ainda hoje, ela continua dirigindo, atuando e produzindo.

Helena Ignez veio de família rica, da alta sociedade soteropolitana. Na Faculdade de Direito da Bahia conheceu Glauber Rocha, um esquisitão que se dizia poeta, e se apaixonou por aquele que viria a ser o principal nome do movimento Cinema Novo. Foi no primeiro filme de Glauber, o curta O Pátio, que Helena começou a sua carreira de atriz e decidiu largar a faculdade.
Não demorou muito para que Glauber e Helena oficializassem a união.

cena-de-o-patio-glauber-rocha

(cena de O Pátio, 1959)

Do pátio de Glauber para os palcos e dos palcos para as telas de Roberto Pires e Roberto Farias, Helena Ignez, então mãe, mudou-se para o Rio de Janeiro e deslanchou sua carreira sendo um exemplo de atriz livre e de estilo próprio. Foi a protagonista de Joaquim Pedro de Andrade em O Padre e a Moça o que lhe rendeu prêmios no Brasil e uma indicação no Festival de Berlim.

(cena de O Padre e a Moça, 1965)

Em 1968, Helena recebeu um convite para participar de um filme chamado O Bandido da Luz Vermelha, “o faroeste do terceiro mundo”, e a partir daí a sétima arte no Brasil tomou um novo rumo, com o início do Cinema Marginal, assim como a sua vida. Foi com Helena Ignez que Rogério Sganzerla, diretor da obra, se casou e ficou até a morte.
Rogério sempre foi mestre em criar personagens marcantes, e no seu segundo filme, A Mulher de Todos, ele deu a Helena o papel de Ângela Carne e Osso, “a inimiga número um dos homens”.  Em plena ditadura, Helena Ignez interpretava uma mulher ninfomaníaca, totalmente a frente do seu tempo, como ela mesma dizia: “eu sou simplesmente uma mulher do século XXI, sou um demônio antiocidental, eu cheguei antes, por isso sou errada assim”.
O filme foi sucesso de bilheteria na época, mas ainda assim, Helena Ignez e Rogério foram avisados de que teriam que sair do país ou os seus filmes seriam destruídos.

Para Sganzerla, o cinema era um mecanismo de crítica e reflexão, a sua arte se apoiava no lado contestador. Ângela Carne e Osso era o contrário da mulher submissa, coadjuvante. Ângela era a anti-heroína, representava a mulher livre e ciente de seus desejos, a fim de ultrapassar os limites impostos pela sociedade machista.
Com Ângela Carne e Osso, Helena Ignez ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Brasília e marcou para sempre a sua carreira e o papel feminino no cinema.


(Cena do filme A Mulher de Todos, 1968)

Com o seu marido e o cineasta Júlio Bressane, Helena fundou a Belair, produtora de “subproduções” audiovisuais, em 1970, dando gás ao Cinema Marginal. Mas um cinema tão livre não teria condições de sobreviver a um país na ditadura, a Belair durou somente seis meses, quando Helena e Rogério tiveram que sair do país com seus filmes.

Depois de anos se dedicando ao teatro, pequenos projetos audiovisuais e a morte do seu marido, em 2007, Helena assinou a direção do seu primeiro longa, Canção de Baal, e começou a se dedicar a produção do filme que seria a continuação do primeiro filme de Sganzerla, Luz nas trevas: a revolta de Luz Vermelha.
Atualmente, ela está constantemente em viagens para receber prêmios e divulgar a obra do companheiro. Diz-se decepcionada com o rumo do cinema brasileiro e ainda cultiva o mesmo ideal que possuía na década de 1960, da desconstrução, liberdade e transgressão.

Nelson Rodrigues uma vez disse, “Uma Helena que também é Inês dá o que pensar. O nome duplo faz supor uma predestinação. Que vínculo tênue, misteriosíssimo, pode ligar a artista da capa a dois símbolos femininos eternos? Não é por acaso, não é por capricho, que uma mulher se chama, ao mesmo tempo, Helena e Inês.”.

Para ver mais da Helena Ignez:

1965 – O Padre e a Moça
1968 –  O Bandido da Luz Vermelha
1969 –  A Mulher de Todos
1970 – Copacabana mon amour
1970 – Sem Essa, Aranha
1985 – Nem Tudo É Verdade
2003 – O Signo do Caos

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos