12 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Mulher fruta, não senhor

Mulher melancia. Mulher melão. Mulher morango. Mulher jaca. Mulher fruta. Mina com corpão de mulher. Nem parece que são novinhas, querem provocar. Minas gostosonas.

Caras comedores, pegadores. Conquistam qualquer menina. Bons de papo. Comeram três em uma noite.

Espera aí! Segura esse bonde que eu quero descer.

1. Pessoas não são comida

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De acordo com alguns especialistas, comida pode ser melhor que beijar na boca.

Fonte: eat24

Pizza é comida. Feijoada é comida. Misto quente é comida. Sanduíche vegano orgânico no pão foccacia é comida também.

Comida não tem emoções, não chora quando é rejeitada, não se sente ameaçada quando anda sozinha. Comida não pensa, não tem opiniões, não acha nada ruim. Comida não namora e não faz sexo.

Parece besteira, mas vamos lá: comida não é gente.

Se comida não é gente, é mais fácil se distanciar. Passar por cima das opiniões e dos sentimentos de uma pessoa-coisa-alimento é mais fácil do que fazer o mesmo com uma pessoa igual a você, alguém da sua família ou um dos seus amigos, que você conhece e gosta de verdade.

Essa metáfora da mulher como comida serve para torná-la menos humana, menos importante, mais fácil de ser desconsiderada.

2. Mulher não é objeto.

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Nem tudo é o que parece.

Fonte: lolgifs

Em tese, é uma ideia bem óbvia: mulheres são pessoas, gente como a gente, direitos iguais. Só alegria, o mundo está em paz.

Só que não.

Estamos o tempo inteiro cercados de mensagens que, de uma maneira ou de outra, dizem o contrário – sim, todas as pessoas que vivem em sociedade e não viraram ermitãs foragidas assim que nasceram – que mulheres valem menos, que são menos complexas, que seu valor é baseado na sua beleza, e por aí vai.

Uma dessas tem uma cara bem familiar: aquela mulher com corpo de fruta, ou a gata de biquíni na propaganda de hambúrguer, ou mesmo a gostosona em cima de um carro ou moto. Pouca roupa, muitas bundas e peitos, barriga à mostra…

Essas mulheres estão sempre disponíveis e sensuais, como um acessório bem colocado, para serem vistas e desejadas. Elas provocam quem olha, como quem quer ser abordada por alguém, como quem merece um homem que chegue junto.

Seu papel é despertar a atenção ao seduzir, com o corpo à mostra, cheia de olhares misteriosos.

A mensagem é: aquela mulher gostosona está esperando ser comida.

3. Mulheres não são seres naturalmente passivos e submissos.

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Sou uma donzela. Estou em perigo. Consigo me virar. Tenha um bom dia.

Fonte: disneygenderevolution

Por que sempre é o homem que conquista, que se torna o pegador?

Por que a mulher sempre é a seduzida, a conquistada?

Isso parte da noção antiga que mulheres e homens são seres opostos, com papeis sociais bem definidos e bem separados.

Um homem seria naturalmente forte e decidido, realizador e protetor: um homem faz. Uma mulher seria, então, naturalmente frágil e indecisa, um ser que apoia os planos do homem e precisa ser cuidada, protegida: uma mulher recebe, aceita.

É daí que vem a ideia do paizão que protege a filha, da mãe que é mais atenciosa e carinhosa que o pai, de todos os filmes e livros onde o homem é o personagem principal e a mulher é a namorada.

Só que não é bem assim, né.

Mulheres são pessoas completas e independentes, que sambam na cara da sociedade. São donas do próprio destino e heroínas das próprias histórias.

O que mulheres não são: comida.

Maíra Carvalho Branco Ribeiro
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Literatura

Maíra até agora não entendeu o binário de gênero. Feminista interseccional e queer, por favor. Sempre com um fone no ouvido e um livro aconchegado na mão. Sonserina da risada gigante e nordestina que nunca superou a saudade da praia, se diverte assistindo seu gato Borges correr atrás do próprio rabo.

  • http://devaneiofvd.blogspot.com.br/ Fernanda

    Sempre detestei associar mulher a comida!! “Essa metáfora da mulher como comida serve para torná-la menos humana, menos importante, mais fácil de ser desconsiderada”, essa frase é perfeita! Parabéns, muito bom o texto!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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