22 de outubro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Mulher, um ser-que-torce
mulher que torce - nathalia valladares

Na nossa última mesa redonda, desmistificamos todo aquele lero-lero de futebol ser uma expressão naturalmente masculina, jogando no ventilador que, oras, essa constatação não passa de uma construção social. Hoje, pretendo falar um pouquinho mais do quanto esse exercício de desnaturalização do futebol-macho é necessário para termos paz nos estádios – não apenas entre torcidas, mas entre torcedores e torcedoras, porque violência não é só cair na mão com o adversário, mas reproduzir misoginia também.

Para quem não sabe, a presença de mulheres nos estádios remonta os primórdios da modalidade aqui no Brasil, antes dela se popularizar. Naquela época, nossa função nos jogos (detalhe: nas arquibancadas, apenas) era bem clara: decoração, ver e ser vista para possíveis pretendentes da alta sociedade, afinal, se futebol era coisa de gentlemen, os homens do bem, nada mais óbvio do que esses rapazes se envolverem com moças bem-nascidas.

Infelizmente, ainda temos que lidar com essa bola fora que é a alegorização e a erotização dos corpos das mulheres nos esportes, porém, é inegável que hoje somos mais atuantes dentro e fora dos certames. Já é bastante comum ver muitas mulheres frequentando os estádios com amigas e amigos, acompanhadas de seus parceiros ou não. É sinal de que estamos nos apropriando desse espaço mítico que também é nosso. Porém, a circulação dentro dos estádios ainda traz à tona muitas questões problemáticas que merecem um cartão vermelho. Vou exemplificá-las contando uma historinha que aconteceu com a amiga da minha prima.

A amiga da minha prima adora futebol e, sendo heterorromântica, em algum momento na vida dela, ela namorou um cidadão que só acreditou que ela gostava mesmo de futebol depois que eles foram ao estádio juntos, onde ela, sem saber, passou por uma inspeção minuciosa do dito cujo. Mesmo com um clássico pegando fogo no gramado, o fulano estava mais preocupado em monitorar a moça no estádio. Ao final da partida, ele concluiu, todo meloso, que ela gostava de futebol, afinal, ela “até xingou e sabia as músicas da torcida!”. Ela achou a reação dele imbecil curiosa, e deixou para lá. Engraçado que ela me contou que os xingamentos que um dia foram motivo de elogio do boy, no outro deram margem para um cartão amarelo estúpido, dado pelo padrasto, que fora ao estádio com ela e os filhos e ficou extremamente chocado e incomodado quando a menina levantou e xingou um mol de palavrões, aos berros. “Afinal, onde já se viu xingar desse jeito?, que coisa feia para uma menina”. É o que dizem por aí: nunca há um jeito certo de ser mulher, só errado.

Só que o que a amiga da minha prima não sabia era que não bastava ter sido aprovada pelo selo de “machoqualidade” nas arquibancadas: ela ainda tinha que comprovar seu conhecimento sobre tão nobre desporto em uma prova teórica. Assim, no bar do pós-jogo, ela foi convidada a explicar a regra do impedimento – porque só assim que alguém está devidamente autorizado a gostar de futebol, não é mesmo, turma? Um pouco atordoada, nossa amiga estava prestes a argumentar o quão estapafúrdio é medir a qualidade de um torcedor com esse tipo de pergunta, quando foi interrompida com os dizeres: “amor, gosto de vir ao estádio com você porque você não é tipo essas meninas que gostam de futebol por ser modinha para pegar homens! Você gosta de verdade!”.

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Agora, portando esse Selo Premium de Machoqualidade Futebolística, tem como não se apaixonar?

TEM SIM.

Aliás, tem até como terminar depois dessa, sabem por quê?

  1. Porque comparar a amiga da minha prima com outras mulheres torcedoras, as hierarquizando, é patético e só alimenta a rivalidade entre as minas, e nós definitivamente não precisamos disso;
  2. Porque ainda não encontrei no Livro de Regras de Futebol da CBF a referência que diz que eu, você e a amiga da minha prima precisamos da autorização e do aval de algum homem para poder gostar e entender sobre futebol;
  3. Porque eu, você e ela não somos obrigadas;
  4. Todas as alternativas acima.

Eu escolho a letra (D), e vocês migas?

Justificando a minha resposta:

Em uma lógica heteronormativa, gostar de esportes torna a mulher mais atraente porque ela passa a manipular um campo historicamente masculino. E tudo o que pertence ao campo semântico masculino é visto como positivo. Porém, gostar de esportes, no caso, o futebol, não me faz uma mulher melhor que as outras. Fora que questionar e desqualificar a presença de uma mulher no estádio com o argumento “torcedora de verdade versus torcedora de mentira” é afirmar que só gostamos de futebol por motivos de homem. Por favor, vamos parar de acreditar nesse grande ícone do folclore machista futebolístico que é achar que nós, mulheres, estrategicamente condicionamos nossos gostos e predileções S-E-M-P-R-E para encontrar um par?

Outro totem do folclore machista futebolístico que precisa ser derrubado é acreditar que nosso entendimento sobre futebol passa por saber ou não a regra do impedimento. É claro que os códigos que organizam os jogos são de suma importância, bem como saber a escalação completa do Piraporinha de 1973 é atributo importante para a construção do imaginário identitário do clube e dos seus torcedores, mas isso em N-A-D-A me autoriza ou descredita o meu apreço pelo esporte.

Se a maioria dos “fiscais de quem é torcedor de verdade” usasse metade dessa energia para ler autoras e autores incríveis, perceberiam que SABER e CONHECER um esporte (não só o futebol!) ultrapassa largamente o factual (saldo de gols, escalação de times, etc.), e notariam a riqueza de significados que os esportes encerram enquanto elementos incríveis para melhor compreender essa sociedade cagada em que vivemos.

Dito isto, parafraseando uma amiga:

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Pasmem, mulher gostar de futebol NÃO É sobre homens, mas é sobre ~ pausa dramática ~ F U T E B O L.

Estamos todos entendidos?

Ótimo. Segue o jogo!

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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