12 de março de 2015 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Mulheres artistas: nem tudo é sofrimento

     Dia desses, estava pensando em um assunto que tinha tudo a ver com a seção de Artes da Capitolina. Perguntei pras meninas se tudo bem eu me arriscar a escrever sobre (em geral, meus textos saem pela seção de EVP <3) e elas toparam. O passo seguinte foi eu ficar receosa, porque não sei se banco falar sobre isso. Mas vamos lá! (Vem comigo, migas!)

     Estive pensando em mulheres artistas. Pra ser bem sincera, já penso nisso há um tempo. Já me perguntei quem elas são ou desde quando existem; já me perguntei como viviam ou onde estão expondo. Até por que não se ouve falar muito delas, eu já me perguntei. Mas dessa vez o caminho do questionamento era um pouquinho diferente: como as pessoas estão falando sobre as mulheres artistas que sempre são muito faladas?

     Na minha época de escola, eu às vezes fugia para o meu museu favorito depois da aula. Museu de dia de semana era vazio, o ingresso custava só dois reais e eu podia ficar ali, de boas, sem a pressão que toda adolescente talvez sinta (de casa, dos estudos, de nós mesmas). E fui percebendo que adorava certas obras que meio que indicavam um sofrimento. E comecei a perceber que esse padrão no meu gosto se estendia para outras áreas, como a Literatura. Daí, quanto mais profundo o sofrimento que a autora parecia transmitir (tipo a Clarice Lispector) mais eu me apaixonava pela obra, mais eu procurava vídeo no youtube pra tentar entender qual é a dessa dor da existência.

     Mas, e se isso não bastar? E se a obra passar a ser confundida com a vida e daí a gente começar a acreditar que mulheres só sofrem? Vamos fazer um exercício. Pega um livro de Literatura que esteja por aí, na sua casa. Pode ser o seu, ou de alguém da família. Pode ser só amanhã, com o que tá na biblioteca da escola. Procura a parte de Modernismo no Brasil. Se os livros da minha época de escola não mudaram nesses anos, a chance de a história do começo do Modernismo ser contada como “O quadro de Anita Malfatti foi criticado ferozmente pelo escritor Monteiro Lobato” é muito grande. Em outras narrativas, Anita Mafatti é destacada com conotação negativa por não ter casado nem ter tido filhos, por ter nascido com a mão direita atrofiada, por não ter se mantido no projeto modernista. E se os livros dissessem que Anita sempre teve o apoio dos pais para se tornar pintora, que viajou para a Alemanha em um momento em que a arte moderna fervia no país, que decidiu mudar seu estilo de pintura mesmo com o melhor amigo (Mário de Andrade no caso) insistir que ela devia carregar a bandeira Modernista?

     Um caso que começou a me fazer prestar atenção nessa coisa do sofrimento é o da Frida Kahlo. A gente encontra Frida estampada em tudo quanto é lugar. Em estampa de roupas, em fantasia de carnaval, em desfile de moda. As narrativas tendem a falar do filho que ela não teve, das dores físicas que a mantinham na cama, do relacionamento conturbado com um cara mais velho. É legal ter Frida como referência, mas às vezes, na ~Fridamania~, tudo fica muito simples e carregado de sofrimento. Vale fazer um esforço e recuperar a inteligência dessa artista que transitava entre gêneros e orientações sexuais, que soube construir não só sua própria imagem como também ajudou a construir a imagem de um México que está presente no imaginário de pessoas no mundo inteiro e que vivia num círculo social super agitado em que a relação com o pintor Diego Rivera era só um dos elementos.

     Muitas pessoas passaram a conhecer Frida pelo filme com seu nome (que tem umas cenas musicais que eu piro). Muitas outras conheceram Virginia Woolf também por esse caminho cinematográfico, quando Nicole Kidman ganhou Oscar por atuar como a escritora. Como o cinema em geral precisa de um elemento dramático, o filme “As Horas” foca só na face sofrimento da vida de Woolf. Mas, daí, estava passeando um dia no artigo sobre ela na Wikipédia em inglês e encontrei a foto mais misteriosa do mundo. Tratava-se de Virginia e seus amigos fantasiados de abissínios, pregando uma peça na Marinha Britânica em 1910. Virginia aparece vestida de homem, com barba falsa, e o evento, tramado pelo poeta Horace de Vere Cole, ficou conhecido como Embuste de Dreadnought e foi motivo de embaraço para a mais poderosa força militar na época.

     De alguma forma, sempre me alivia descobrir que por trás de obras que carregam o peso do mundo em suas páginas, cores e formas, existem seres humanos complicados, profundos e com senso de humor, porque a vida não é fácil, mas também não é tão simples.

 

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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