5 de outubro de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Mulheres de dez anos de idade
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Em setembro de 2014, meninas por volta de seus dez anos de idade estamparam páginas da Vogue Kids fazendo poses sensuais e usando calcinhas na beira de um lago. O editorial “Sombra e água fresca” causou repulsa nas redes sociais e levou até a um pedido da Justiça de que a revista fosse retirada de circulação. A esse pedido, a Vogue não teve a humildade de reconhecer que colocou, sim, crianças em situações inadequadas, incentivando a pedofilia. Ao contrário, lançaram uma nota pública declarando o seguinte: “Lamentamos que o açodamento e a agressividade imotivada de algumas pessoas tenham exposto desnecessariamente as menores que participaram do ensaio, que são nossa maior preocupação nesse episódio.”

Fotos do editorial "Sombra e água fresca", da revista Vogue Kids

Fotos do editorial “Sombra e água fresca”, da revista Vogue Kids.

Só que, hum, com licença, Vogue, a agressividade real veio foi de você que incentivou pedofilia. Quem expôs as menores do ensaio com poses sensuais foi você. A sua maior preocupação nesse episódio? Tirar o corpo fora da polêmica pra não manchar a reputação da revista.

É mais fácil perceber o erro quando as coisas estão escancaradas como nesse caso, mas a verdade é que, nos bastidores das revistas femininas, os valores são os mesmos: mulher bonita é mulher que aparenta ser mais jovem, é a mulher “inteirona”, sem rugas, com pele de pêssego.

A Lolita* de Nabokov saiu dos livros. A infância virou fetiche – de muito mau gosto – da moda.

E esse papelão todo é uma via de duas mãos: crianças também sofrem, sendo sexualizadas cada vez mais cedo. Existem sapatos de salto e sutiãs com bojo para que crianças se pareçam mais com adultos. E tem gente que acha graça nesses produtos bizarros, mas eu acho muito sério. Itens como esses e editoriais como os da Vogue Kids dão legitimidade aos asquerosos comportamentos pedófilos. Características maduras em crianças dão margem à interpretação de que elas também são sexualmente maduras. E não são. Ainda estão em fase de formação física, de assimilação de valores e conhecimentos.

Nesta fase de assimilação, a mídia transmite para as garotas a mensagem de que elas devem se parecer com mulheres, e que ser mulher é ser sensual aos olhos masculinos. E não se pode culpá-las por aprender isso, porque a culpa é de quem ensinou e de quem foi conivente com esse ensinamento.

Não faltam exemplos que ilustrem a intervenção da moda e da mídia nesse padrão esquizofrênico de beleza. Elle Fanning virou it girl aos doze anos, desfilando Rodarte e Marc Jacobs nos tapetes vermelhos. Ela também foi a cara da Marc Jacobs, assim como Hailee Steinfield foi a cara da Miu Miu. Ou seja, a “it girl”, a garota ideal, a perfeição absoluta é muito diferente da pessoa que vai comprar a roupa dessas marcas, que são direcionadas ao público adulto.

Elle Fanning para Marc Jacobs

Elle Fanning para Marc Jacobs.

Mas talvez o exemplo mais sensível da atualidade seja o da francesa Thylane Blondeau, que, com apenas dez anos, foi comparada fisicamente à Brigitte Bardot. Seria ingenuidade ignorar o fato de que Bardot foi um grande símbolo sexual, mesmo que seja uma droga essa história de “símbolo sexual”. Se esse reconhecimento foi conquistado por sua aparência, equiparar corpo e feições de uma criança e uma mulher é sexualizar essa criança.

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Thylane Blondeau aos dez anos de idade: salto alto, vestido decotado e maquiagem.

Hoje, Brigitte está velha e sua figura não é a mesma da década de 1960. Hoje, Brigitte não é mais símbolo sexual, mas Thylane é. Porque, né, qual o problema em uma criança ser erotizada? Mas uma idosa sensual? Jamais!

A lógica saiu pra comprar pão e não voltou até agora.

É absurdo demais pra ser verdade, mas o padrão de beleza se tornou inatingível a um nível temporal. E garanto que se a fonte da juventude fosse encontrada e todo mundo ficasse com pele de bumbum de neném pro resto da vida, a nova moda seria ter ruguinhas charmosas.

“Mas, ó, quem poderia ser tão cruel?”

Sim, ela, a vilã da autoconfiança: a indústria da beleza.

Padrões de beleza inatingíveis são o Eldorado da indústria. Por mais cremes anti idade que uma pessoa use, a idade vai chegar. Mesmo que não se queira, mesmo que os cremes sejam muito bons. Ninguém nunca vai parecer nova o suficiente, então todo mundo continua comprando produtos de ação metafísica – e assim roda a roda da fortuna…

Do mesmo jeito, crianças não têm seios por uma questão biológica. Elas são estimuladas ao desejo de parecer adultas porque elas somente poderão satisfazer esse desejo de modo artificial, comprando biquinizinhos com bojo.

Às vezes eu tenho a nítida impressão de estar na Idade Média, quando crianças eram tratadas como mini-adultos.

Nesse aspecto, Honey Boo-Boo é um ícone de inspiração. A competidora de concursos de miss infantis é adultizada com roupas, penteados e maquiagens nada infantis, mas sua atitude punk rock é como uma flor que nasce no lodo que é tradicional competição de miss. Ela arrota, conta piada, corre, grita, rompe com o que se espera de uma pequena miss, lembra a todos que ela é uma criança. Se essa riot girl** fosse it girl, tenho certeza que estaríamos bem melhor.

 

*Lolita é personagem que intitula um romance de Vladimir Nabokov, em que um homem de 37 anos apaixona-se por uma menina de 12 e se envolve sexualmente com ela.

**Em inglês, “riot girl” é algo como “garota rebelde”, além de caracterizar algumas bandas de punk, zines e quadrinhos feministas.

 

 

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Leda

    Minhas observações:

    A meninas da revista teriam 8 anos.
    Criança é quem não alcançou a puberdade (menores de 9-10 anos).
    Pedofilia se refere a crianças e não adolescentes.
    Quem adora usar mal a palavra pedofilia é aquela pseudo-psicóloga que adora se promover com polêmicas. Como uma mulher daquela conseguiu o registro no CRP?
    O capital explora a juventudade e despreza os mais velhos.
    O livro de Nabokov gerou polêmica no conservador Estados Unidos pelo envovimento de uma jovem mulher com um homem bem mais velho, porém na sociedade garotos sempre se iniciaram sexualmente com mulheres mais velhas numa boa. Mais uma exemplo de machismo onde o homem pode e a mulher não.
    A sociedade controla muito a sexualidade feminina nos tornado muito inseguras

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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