22 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Mulheres em espaços tipicamente masculinos: entrevista com acadêmica de ciências da computação
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“Meninas são mais delicadas, meninos são mais brutos”; “garotas são emotivas, garotos são racionais”; “mulheres são boas em afazeres manuais e cuidados domésticos, homens são bons de cálculo e trabalhos mais pesados”. Se você tem alguma tia mais velha, ou até um amigo mais conservador, com certeza já ouviu uma dessas frases. Infelizmente, esses lugares-comuns ultrapassados e sem qualquer base científica ainda são muito difundidos.

Se pararmos para pensar, não faz muito tempo que as mulheres brasileiras foram legalmente autorizadas a participar da vida pública através do voto, o que aconteceu em 1932. E foi só em 1962 que a mulher perdeu o status de indivíduo “relativamente capaz para os atos da vida civil” e finalmente conquistou o direito de trabalhar sem precisar de autorização do marido!

Se considerarmos que essas coisas aconteceram há pouco mais de 50 anos, é compreensível o fato de pessoas mais velhas, criadas em uma época diferente, ainda se apegarem a estereótipos como os que abrem este artigo. O que não tem perdão é quando essas ideias antiquadas são usadas como argumentos por pessoas que querem impedir as mulheres de se inserirem em profissões consideradas tipicamente masculinas, de forma a manter o status quo e privilegiar os homens em certas áreas.

Mulher delicada? Mulher submissa? Mulher intelectualmente inferior e mais sentimental? Digam isso à Annie Smith Peck, que foi a primeira pessoa na história a escalar o pico mais alto do Peru! Ou à Murasaki Shikibu, a autora do primeiro romance do mundo, escrito no século XI, e que aprendeu chinês escutando através da porta enquanto seus irmãos homens tinham aulas. Ou ainda à Tereza de Benguela, a Rainha Tereza, que no século XVIII liderou o Quilombo mato-grossense de Quariterê, o qual resistiu à escravidão por duas décadas. Ou à Khutulun, a filha de um governante do império mongol do século XIII, que era uma guerreira tão habilidosa que derrotou mais de 10.000 pretendentes com quem não desejava se casar – e derrotou eles NO BRAÇO. E não podemos nos esquecer de Naziq al-Abid quem, em 1917, lutou no exército de resistência sírio contra o domínio francês, ficando conhecida como a “Espada de Damasco” e “a Joana D’Arc dos Árabes”, e depois fundou uma organização de direitos das mulheres e a versão síria da Cruz Vermelha.

Você provavelmente nunca ouviu falar na maioria dessas mulheres. Isso não significa que elas não existiram ou que as mulheres sempre estiveram nos bastidores dos grandes acontecimentos históricos; significa apenas que os livros de história foram escritos com base no ponto de vista do conquistador europeu da Idade Média/Moderna. Isso resultou numa versão um tanto quanto racista e machista da realidade.

Entre os milhares de exemplos de mulheres que fizeram história, o meu favorito é o de Ada Lovelace. Ela foi a primeira pessoa a desenvolver um algoritmo especificamente criado para ser implementado num computador, ainda no século XIX, quando o próprio computador sequer tinha saído do papel. Isso mesmo! Conhecida como a “encantadora de números”, a primeira programadora do mundo foi uma mulher.

Apesar disso, a programação – e a tecnologia em geral – hoje em dia é tida como uma área predominantemente masculina. Eventos recentes denunciaram a rejeição que as mulheres sofrem nesse meio, como o Gamergate, que começou como um levante dos usuários de videogames contra o jornalismo especializado corrupto e terminou com a exposição, perseguição e ameaça de inúmeras mulheres que trabalham na indústria, pelo simples fato de terem destaque num ambiente considerado masculino.

Como já ficou claro através dos vários exemplos de mulheres que subvertem o estereótipo e fazem todo tipo de atividade considerada masculina, não existe uma predisposição ditada pelo gênero a uma coisa ou outra – o pai da Ada Lovelace, por exemplo, era poeta, enquanto que ela dedicou sua vida à matemática. O que existe é preconceito, motivado pelo apagamento de mulheres dos anais da história e pela tentativa de manter a ordem das coisas e, especialmente, as vantagens de que os homens ainda desfrutam na sociedade.

Para ajudar a acabar de vez com essa noção antiquada de que às mulheres são reservados certos espaços e aos homens, outros, e para saber mais como é a experiência de quem convive diariamente com o preconceito de ser mulher nesses espaços, conversei com a Mariana, aluna de Ciências da Computação da UFSC, que está atualmente no seu sexto ano no curso.

O que te motivou a escolher a Ciência da Computação como graduação e futura profissão?

Eu fiquei sabendo da existência do curso e para que servia através de um menino que eu gostava quando eu tinha uns 15 anos. Ele já fazia o curso, e ele sempre falou com muita paixão, então eu comecei a pesquisar e me interessar também. Hoje em dia nem falo mais com ele, mas foi assim que fiquei sabendo do curso. Já na faculdade tiveram vários momentos em que eu pensei em desistir, principalmente no começo do curso. As matérias não eram tão interessantes quanto eu pensei que seriam, eu não tinha tanta facilidade quanto eu pensei que tinha, e principalmente, eu estava numa cidade nova onde eu não conhecia ninguém. Tudo isso tinha solução, claro: as matérias de começo de curso, em qualquer curso, são sempre um saco – cálculo, circuitos, coisas muito distantes do motivo real do curso, mas muito importantes -; eu precisei levar o choque de reprovar em três matérias para perceber que eu precisava mesmo era aprender a estudar; e conhecer gente era só uma questão de tempo. Hoje em dia, perto de me formar, estou feliz por não ter desistido. Gosto do que faço, e consigo me ver trabalhando na área. O fato de termos segurança no trabalho e bons salários são um ótimo incentivo.

Existe uma predominância de meninos no curso? Por que você acha que isso acontece?

Muita! De cinquenta pessoas que entraram no curso no meu semestre, apenas cinco eram mulheres. É assim todo semestre. Eu acredito que isso acontece por um conjunto de fatores muito difíceis de se mudar: a predominância da ideia de que exatas são “para meninos” (junto da ideia de que mulheres são naturalmente piores em matemática, ou de que somos “mais empáticas” e, por isso, pertencemos à área de humanas), a falta de referências proeminentes femininas na área, o que resulta numa imagem de profissional de Ciências da Computação como um homem branco, e principalmente o “nepotismo” entre homens e a exclusão de mulheres da área, tanto na esfera acadêmica quanto no mercado de trabalho.

O que acontece é que muitos dos meus colegas de trabalho se sentem naturalmente superiores, como se pertencessem mais à área do que minhas colegas. Nossas conquistas são constantemente questionadas – “foi ela mesmo quem fez isso?” –, assim como nossa integridade profissional – aposto que ela dormiu com o chefe -, que, muitas vezes, são apresentadas como piada, mas que sabemos que no fundo não são. A questão é que homens nesta área não admitem serem superados por uma mulher, então se cria um ambiente onde nós somos constantemente escrutinizadas e qualquer coisa nos invalida, para afagar os egos de profissionais homens. Muitas mulheres deixam de subir na carreira simplesmente porque seus chefes não acreditam que elas terão o respeito dos colegas por ser mulher – e obviamente quem paga por isso são elas. Muitas matérias sobre mulheres na computação também falam sobre como somos constantemente tratadas como mães ou secretárias. Muitas profissionais se sentem humilhadas por serem constantemente forçadas a desempenhar papéis para os quais não foram contratadas, mas que são papéis “femininos”, como limpar a sala após uma reunião ou tomar notas durante reuniões, o que dificulta sua participação. Indicações de profissionais mulheres também são constantemente ignoradas em prol de indicações de profissionais homens.

Todos esses problemas que citei acima acontecem predominantemente em ambientes mais tradicionais, empresas grandes que existem há muito tempo. Empresas mais novas e menores costumam ser mais democráticas e igualitárias. Na área acadêmica também estamos sendo mais bem recebidas, graças aos sacrifícios feitos pelas que vieram antes.

Você recebeu tratamento diferente por parte dos colegas e professores por ser mulher?

Sim. Já ouvi da boca de colegas que mulheres “não sabem programar”, e da boca de chefes que eu deveria desempenhar papéis de organização de código e testes porque mulheres “são mais metódicas” – são discursos que colocam expectativas nas nossas costas que nós nunca pedimos. Também existe a sensação constante de ser uma intrusa. Não sei dizer exatamente por que isso acontece mas, às vezes, sinto que estou no lugar errado. Quando só tem uma outra mulher numa sala de quarenta alunos, ou quando você é a única mulher no seu grupo, você imediatamente se sente menos importante, como se sua opinião não importasse tanto. Às vezes, percebo que meus colegas não estão me levando tão a sério, ou que minhas opiniões e sugestões não estão sendo consideradas. Nesse caso, é preciso ser incisiva, mandona, exigir ser ouvida, só que ao fazer isso você está sacrificando sua simpatia: depois disso, eles te veem como chata, nervosa, doida. Não tem como ganhar. Homens se sentem muito insultados quando uma mulher exige respeito ou assume o controle, então, é preciso escolher entre ser ignorada ou malvista. Eu quase sempre escolho malvista, mas, às vezes, simplesmente não tenho a energia pra isso.

Em termos de professores, não posso dizer que sofri qualquer discriminação. A coordenadoria do meu curso está ciente de que poucas mulheres entram no curso, e que tendemos a desistir em menor porcentagem, então, acredito que não duvidam da nossa capacidade.

Quais são seus planos para depois da faculdade?

Particularmente, não sou muito ambiciosa. Quero uma vida calma, com um emprego fixo e segurança financeira. Claro, isso não vai ser fácil, sei que vou ter que falar mais alto pra ser ouvida, ter ideias melhores pra ser considerada medíocre. É um dos preços a se pagar por ser uma intrusa. Isso me magoa muito, principalmente porque, até os anos 1970, mulheres dividiam espaço com homens nessa área igualmente. Programação era vista como trabalho de digitação, “de secretária”, então era relegado a mulheres, e os homens preferiam a área de engenharia – construir computadores mais potentes, menores, etc. Em determinado ponto, chegou-se numa barreira: não era mais tão simples construir computadores melhores. O foco mudou para se desenvolver programas mais eficientes e mais compactos. Foi nesse momento que mulheres foram expulsas da área, a ideia de que mulheres eram piores em tarefas de lógica e raciocínio era muito forte na época (e até hoje). Me entristece muito saber que poderíamos ter o respeito e reconhecimento que merecemos nesta área, mas a realidade é que precisamos nos esforçar e nos impor mais do que os homens para reconquistar um espaço que já foi nosso. Parece uma batalha perdida, mas tento me concentrar em como estamos contribuindo para melhorar a vida de quem vem depois.

Laura Athayde
  • Ilustradora
  • Quadrinista

Laura Athayde é advogada por profissão e desenhista por teimosia. Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinhos. Participou de diversas publicações coletivas como o Zine XXX, Zine MÊS (outubro/14), o livro Desnamorados, Zine Amendoim e Acerca Zine, dentre outros. Lançou também dois zines individuais, Delirium e O Mundo é Um Jogo e Eu Só Tenho Mais Uma Vida, que podem ser lidos online em http://issuu.com/lauraathayde. Atualmente, desenvolve uma HQ longa de sua própria autoria em parceria com a Editora Tribo.

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