12 de novembro de 2015 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Kiki
Mulheres fora de campo

Todo final de transmissão de jogo de futebol lá em casa é a mesma coisa: mamãe levanta do sofá, depois de ter ignorado toda a partida, e fala “você deveria virar comentarista.” Bem que eu queria, mamãe, mas mal sabe você que esse buraco é bem mais embaixo.

Dos campos predominantemente masculinos que ainda são difíceis para as mulheres entrarem, talvez o do esporte seja o maior deles, e se engana quem acha que apenas as posições dentro de campo – como árbitras, bandeirinhas ou mulheres no comando tático de times, por exemplo, assunto para um próximo post – apresentam as maiores dificuldades. O mundo ainda é muito difícil para o jornalismo esportivo feito por mulheres, em portais ou na televisão.

É engraçado comparar o jornalismo esportivo, uma profissão relativamente moderna e em constante mudança, com profissões mais antigas como direito, engenharia ou medicina, que se mostram abertas, ainda que extremamente machistas e relutantes, a ter mulheres como parte ativa de seu segmento. Ora, é fácil para que uma mulher “prove”, nessas profissões, que não há nenhum tipo de superioridade masculina de modo que apenas homens possam executá-las. O mundo já se acostumou com o fato de que existem médicos de ambos os gêneros (embora “salário” seja um assunto totalmente diferente, bem como a questão racial). Então qual a grande diferença nos esportes? Por que é especialmente difícil vermos mulheres em posições de comentaristas num jogo de futebol, por exemplo? A resposta rápida é bem simples: num universo esportivo predominantemente dominado por homens, há um senso comum de que mais do que entender de regras de jogo é preciso entender de homem. E na nossa sociedade mulher tem mais é que tomar a divindade do homem como absoluta. Mesmo que esportes sejam jogados por ambos os sexos, o que vem primeiro é sempre o homem e, se você sabe de homem, você tá sabendo de tudo.

Se você gosta de qualquer esporte jogado por homens e mulheres – mas claro que os jogos femininos nunca são divulgados ou comentados –, em algum momento da sua vida foi abordada por um homem com um questionário enorme pronto e afiadíssimo para testar seus conhecimentos (já falamos sobre isso aqui, em nossa estreia). Estou errada? Agora, amiga, imagine escolher TRABALHAR com isso, em um lugar onde homens se sentirão no direito de frequentemente testá-la até terem certeza em seus corações que você merece o reconhecimento e o salário que você recebe no final do mês – pago, inclusive, por um homem.

Mas há aqueles que escolhem abordar o assunto com a já manjada frase “ah, mas você não assiste as Olimpíadas? A maioria das comentaristas são mulheres!” Sim. Dos jogos de ginástica, de patinação. Esportes que, por serem mais “delicados” (tanto em execução como em foco), são considerados “esporte de mulher.” Percebe?

A videografista Jane Doe*, que trabalha em um grande programa esportivo*, confirma aquilo que nós já sabemos: existe sim diferença entre ser homem e ser mulher nesse tipo de ambiente. Jane, que gosta muito de esportes e viu no programa o jornal com o qual ela mais se identificava, diz que, apesar da equipe do estado dela ser bem equilibrada entre homens e mulheres (a editora-chefe, inclusive, é uma mulher!), na hora de cobrir eventos esportivos em outros estados a coisa não é bem assim: “em certo estado, perguntei se eu poderia creditar futebol e disseram que não, que quem só credita os eventos são homens.” Quando perguntou o por quê, a resposta foi chocante, porém esperada: “disseram que, como a equipe é sempre só de homens, eles não se sentem a vontade durante evento com mulher junto.” Pra finalizar, Jane diz que gostaria de cobrir outros esportes que não apenas futebol e os “mais em alta, como surf, vôlei, UFC e (uma ou outra coisa de) ginástica”, que é o foco atual da maioria dos programas, querendo ou não, cujo público considerado (e não o real) é o masculino.

Seria injusto afirmar, entretanto, que nunca houve mulheres comentando esportes masculinos como o futebol, e o nosso maior exemplo é Soninha Francine, que, no final dos anos 90 assumiu o posto de apresentadora do Rockgol, programa icônico da MTV que abriu muitas portas para a apresentadora, que hoje é especialista em futebol e comentarista esportiva na ESPN Brasil. E vai muito bem, obrigada. Ainda nacionalmente temos Milly Lacombe, uma das pioneiras das mulheres no jornalismo esportivo, como exemplo, e que na primeira década dos anos 2000 integrou uma das cadeiras no programa Arena SporTV, um dos programas mais respeitados que analisa jogadas e jogadores. Em entrevista às ~dibradoras, Milly conta que após a polêmica com Rogério Ceni (ela disse no programa que o jogador havia forjado assinatura), que levou ao seu afastamento do programa, ela teve que cavar seu espaço de volta – algo que já era difícil, ficou ainda mais. Milly então foi convidada a comentar os jogos da Liga dos Campeões da Europa (UCL) na Record, saindo em 2009. Na entrevista ela ainda diz que o meio não evoluiu em nada, e que para as mulheres, trabalhar com jornalismo esportivo ainda é muito difícil, e que “para comentar futebol em uma mesa de bar, a primeira vez que você dá uma opinião alguém diz: ‘ih, ela tá falando a opinião do pai, do irmão ou do namorado’.”

A jornalista baiana Clara Albuquerque também é um exemplo a seguir. Atual comentarista dos jogos da UCL pelo canal Esporte Interativo e autora de dois livros sobre futebol (“A linha da bola” e “Os sem copa”), Clara também tem um blog na internet onde compartilha teorias pessoais – tudo com aquele maravilhoso bom-humor nordestino que conhecemos e amamos.

Isso para não entrar na discussão de que, como dito em outro artigo das ~dibradoras, é subentendido para muitos colegas de profissão – que ainda carregam o preconceito velado – que as mulheres possuem “outros meios” de conseguir informações para suas matérias, se é que vocês entendem. Até o horário causa desconfiança, já que muitas jornalistas mulheres evitam pautas noturnas para que não desconfiem delas. Difícil, né?

Internacionalmente as coisas não são diferentes, como já era de se esperar. A espanhola Sara Carbonero ficou “famosa” na Copa do Mundo de 2010 graças à cobertura que fez para um canal espanhol. Mas não pense você que foi por seu ótimo desempenho profissional, isso seria muito ingênuo: após a derrota inesperada da Espanha para a Suíça, Sara foi acusada pela imprensa inglesa de distrair o goleiro Iker Casillas, seu namorado na época e marido atualmente, já que sua equipe estava posicionada atrás do gol espanhol, levando jornais espanhóis a publicarem notas de repúdio à matéria do inglês The Times. Sua integridade jornalística ainda foi questionada devido ao fato de que ela foi entrevistar o goleiro após a partida. Ora, mas é realmente um absurdo que uma jornalista espanhola entreviste o goleiro do time representante de seu país após uma importante partida de futebol, não é mesmo? Nem tudo é ruim, porém. Mais pra frente naquela mesma Copa,Sara foi protagonista de uma das cenas mais fofas: enquanto entrevistava Casillas após a vitória que garantiu à Espanha o título mundial, ele não se segurou e beijou sua namorada em rede nacional.

O caso de machismo vindo de colegas de trabalho que Sara sofreu lembra o que aconteceu com a repórter da Globo Fernanda Gentil, que ficou muito conhecida pelo país após seu ótimo trabalho na última Copa do Mundo (2014, aqui no Brasil), quando o R7, site da Record, publicou fotos dela na praia dizendo que Fernanda estava “gordinha.” Como resposta a esse ataque, Fernanda revelou, então, que estava grávida.

Mas o mundo tem dado seus passos de bebê. Em 2013, a repórter Ashley Fox que cobre a Liga de Futebol Americano (NFL) postou um artigo para a ESPN onde ela falava sobre o acesso das mulheres aos vestiários masculinos antes, durante e após partidas. Ela fala sobre o senso comum entre os jogadores de que as mulheres estão lá apenas para ver homens pelados, e celebra a luta de repórteres precursoras a ela que garantiram os direitos iguais na hora de cobrir as histórias – a emoção, a paixão e a tristeza que frequentemente há nos vestiários. “Onde as verdadeiras histórias estão.”

Ashley acredita que, apesar de tudo, a profissão está evoluindo e, graças ao fato de que os homens vão para as grandes ligas acostumados a lidar com mulheres cobrindo seus feitos desde os tempos de colégio. Ela cita o documentário “Let Them Wear Towels”, que conta a história das repórteres femininas nas décadas de 70 e 80, e que afirma haver mais de mil mulheres cobrindo esportes atualmente, número esse que só tende a crescer.

E tende mesmo, apesar de tudo.

Ainda vai ser muito difícil fazer com que todas as portas se abram para nós, mas nós estaremos sempre lá: seja usando nossos crachás na lateral de campo com um bloco de notas e uma câmera na mão, seja editando imagens que passarão na televisão, seguimos lutando pelo direito de gritar “É Tetra!” em rede nacional, para que um dia nossas filhas e netas possam lembrar que o jornalismo esportivo também é delas.

Duds Saldanha Rosa
  • Coordenadora de Esportes
  • Ilustradora

Duds Saldanha Rosa, 22 anos, bitch with wi-fi, so indie rock is almost an art. Não sou parente nem do Samuel Rosa, nem do Noel Rosa, nem do Carlos Saldanha, mas gostaria de ser. Sou paulista-paraibana, designer, ilustradora e seriadora avídua. Faço yôga para aquecer minha mente e escrevo no Indiretas do Bem para aquecer meu coração. Doutora em ciências ocultas, filosofia dogmática, alquimia charlatônica, biologia dogmática e astrologia eletrônica. Cuidado: femininja e aquário com ascendente em virgem. Você foi avisado.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos