27 de julho de 2014 | Edição #4 | Texto: e | Ilustração:
Mulheres mundo afora: aventureiras e exploradoras
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Texto de Vanessa Raposo e Verônica Montezuma.

Viajar hoje é coisa bastante comum. Houve uma época, porém, em que até sair da sua cidade de origem era uma atividade, no fim das contas, masculina. O que é que mulheres (que sequer podiam passear na rua sem a companhia de um pai, marido ou irmão) iam querer fazer lá fora?

Apesar de ter ficado mais fácil hoje em dia, muitas personagens históricas incríveis, corajosas e, às vezes, assustadoras, mostraram que lugar de mulher pode ser qualquer um: desbravando a floresta amazônica, num navio pirata, na frente de batalhas históricas ou até mesmo no espaço! Por isso, fizemos uma listinha, em ordem cronológica, de algumas personagens muito interessantes que passaram por nosso planetinha.

Mary Read e Anne Bonny – “Calado, rato imundo, não dá pra usar saias no mAAAAAR!”

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O nome dessas mulheres costuma aparecer em dupla e por um bom motivo: juntas, foram duas das piratas mais famosas e ferozes do mundo. E a história delas se cruza de forma tão louca que é difícil separar o que é lenda do que é real!

Primeiro, falemos de Mary: inglesa nascida possivelmente em algum momento no fim do século XVII, Mary foi criada como um menino, “Mark” Read. A razão disso é que ela era filha ilegítima, ao passo que Mark, seu irmão mais velho, era fruto do casamento de sua mãe com um nobre capitão. Quando Mark morreu ainda criança, a mãe de Mary passou a vesti-la como menino para continuar a receber o auxílio financeiro da família do pai – ou seja, Mary aprende a estar nos ambientes masculinos desde muito pequena. E parece que conseguia se disfarçar bem porque na adolescência consegue trabalhos como faz-tudo, arranja emprego em um navio e até luta em guerras pela marinha britânica! Em determinado momento, ela vai parar na tripulação de um navio mercante que se dirigia para as Índias Ocidentais (a.k.a. América). É então que, no meio do caminho, o navio de Mary é atacado por piratas liderados pelo terrível Calico Jack.

E é agora que precisamos contar a história de Anne Bonny.

Se Anne fosse a personagem de algum filme adolescente clichê da década de 1980, ela provavelmente seria a “garota-problema” de cabelo descolorido e calça jeans rasgada que fuma no galpão do colégio. Ruiva, bonita e violenta, Mary era uma irlandesa de origem nobre. Os registros contam que desde criança tinha um comportamento agressivo, e há quem diga que, aos 13 anos chegou ao cúmulo de apunhalar uma criada! Adolescente, ela foge de casa e se casa com um bucaneiro zé-ninguém chamado James Bonny, o que lhe garante uma deserção por parte de seu pai. Reza a lenda que, por vingança, Anne manda provocarem um incêndio em boa parte das plantações do coroa. Pois é…

No Caribe, Anne conhece uma porção de piratas perigosos e violentos, e – porque ela mesma era perigosa e violenta – se sai muito melhor do que o marido em construir uma boa relação com eles. Chega ao ponto de ter um romance com o infame Calico Jack. Em determinado momento, Anne abandona o marido e passa a navegar ao lado de Calico. As histórias são bem eloquentes em dizer que ela não devia nada a homem nenhum com uma pistola ou espada na mão. Certo dia, ao atacarem um navio mercante que se dirigia às Índias Ocidentais (a.k.a. América) e tomar a tripulação como refém, um rapaz bonito do navio conquistado chama a atenção de Anne. Agressiva no amor como era na guerra, ela deixa seu interesse bastante claro a Mark Read, o que logo o obriga a revelar seu segredo: era uma mulher também. Calico Jack fica enciumado e, vendo sua vida em risco, Mary também lhe conta sua história. No fim das contas, Mary passa a fazer parte da tripulação pirata e por vários anos o trio aterroriza os mares caribenhos.

Evidentemente, essa é uma história muito sangrenta para ter um final feliz. Anos depois, durante uma festança na Jamaica na qual todos estavam muito bêbados, a tripulação pirata é capturada. Calico, Mary e Anne são sentenciados a morte, mas como as duas estavam grávidas durante o julgamento, suas penas são adiadas. Mary morre em decorrência de uma infecção um dia depois do parto. De Anne, ninguém sabe. Há quem diga que foi libertada por seu pai e então evaporou dos registros históricos.

Jeanne Baré – Volta ao mundo em 3 anos

Jeanne foi a primeira mulher a dar a volta ao mundo! De origem humilde, ela era uma espécie de “curandeira” e foi ensinada sobre botânica medicinal pela família, oralmente. Começou a trabalhar desde nova para o vizinho e naturalista Philibert Commerson, como assistente e ajudante tanto na casa quanto no trabalho.

Ela foi outra que se disfarçou de homem para entrar num navio, mas dessa vez porque seu patrão e provável amante, que precisava de cuidados e ajuda por ter a saúde fraca, havia sido chamado para participar da expedição de Bougainville. Como a Marinha francesa não permitia mulheres nos navios, eles decidiram que ela se passaria por homem para embarcar.
Baré ajudou Commerson a recolher e catalogar espécies durante a viagem, já que a saúde dele estava piorando. Existem registros diferentes de quando teria sido descoberto que Jeanne era mulher, mas o que se sabe ao certo é que ela e Commerson desembarcaram nas Ilhas Maurício, onde haviam “encontrado um amigo” e lá ficaram, para o capitão não ter que explicar à Marinha francesa a presença de uma mulher a bordo.

Antes, quando a expedição passou pelo Brasil, foi Jeanne quem recolheu exemplares de uma planta com flores vermelhas, que ela e Commerson nomearam Bougainville, em homenagem ao capitão. A Marinha francesa reconheceu seu excelente trabalho como botânica e ela inclusive recebeu uma pensão até a sua morte, por conta disso. Tendo passado pela América do Sul e dado a volta até as Ilhas Maurício, passando pelo Taiti, quando retornou à França, Jeanne Baré havia dado a volta ao mundo pelo mar! Commerson faleceu ainda nas Ilhas, deixando Jeanne numa situação financeira complicada. Ela acabou casando, voltou para a França e lá recolheu a herança que Commerson tinha deixado.

Annie Smith Peck – Mais alto do que ninguém jamais esteve

Annie Smith nasceu em 1850, e tinha quatro irmãos mais velhos e bem sucedidos. Só que, na vez dela de ir para a faculdade, ela foi recusada por ser mulher. Para provar que era capaz de ser alguém na vida, ela se mudou sozinha para outro estado e deu aulas de línguas e matemática. Aos 27 anos, decidiu que iria continuar a estudar. A Universidade de Michigan tinha começado a aceitar alunas do sexo feminino, e questionou seu pai do porquê de ela não poder ter as mesmas oportunidades de estudo dos irmãos. Ele acabou aceitando pagar por seus estudos.

Annie se formou em Grego e línguas clássicas e eventualmente foi para a Grécia continuar estudando (foi a primeira aluna mulher do curso que frequentou). Lá, ela descobriu sua paixão: escalar montanhas. Era perigoso na época, já que não existiam tanques de oxigênio nem muitos equipamentos de segurança. Começou escalando na Itália, Suíça e na própria Grécia. Especializou-se em arqueologia grega e foi dar palestras nos Estados Unidos. As pessoas queriam saber mais sobre suas escaladas do que sobre a língua grega, no entanto… Começou a ganhar tanto dinheiro com isso que deixou de ser professora.

Annie era entusiasta do Pan-americanismo, que promove a paz nas Américas, e escalou várias montanhas nas Américas do Sul e Central, além da América do Norte e Europa. Sua fama começou, no entanto, por ela usar calças, o que na época podia levar mulheres até para a cadeia! As roupas até geraram debates na mídia sobre o que a mulher poderia ou não fazer (vê se pode).

Annie escreveu vários livros sobre suas escaladas e mais tarde um sobre seus voos pelas Américas, querendo promover a aviação como forma de transporte para turismo. Para alguém que viajava tanto, devia ser mesmo superprático poder ir de avião, né? Ela continuou escalando montanhas até por volta de 80 anos, e estabeleceu vários recordes – subiu o monte Orizaba, no México, por exemplo. Com isso, foi a mulher que tinha subido mais alto no mundo. Mas, como ela queria subir mais alto do que todo mundo mesmo, continuou escalando. Por isso, foi a primeira pessoa a escalar o Huascarán, no Peru. O pico norte da montanha se chama pico Annie Smith, em sua homenagem.

Esse site fala sobre a história dela, vale a pena dar uma olhada! Tem muito mais coisa que não ia dar para botar numa matéria só. Dá um pulo lá.

Amelia Earhart – Voar, voar, subir, subir…

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Amelia é uma das figuras mais emblemáticas da aviação americana e não é por pouco. Piloto, aventureira e feminista, seu nome até hoje é sinônimo de coragem. Nasceu em 1897 no Kansas e cresceu “menina-moleca”, explorando a vizinhança de onde morava, coletando insetos, subindo árvores e até caçando ratos com sua espingarda. Seu gosto por aventuras nunca morreu, mas foi preciso um empurrãozinho do destino para ela descobrir a vocação.

Certo dia, provavelmente em 1919, Amelia e uma amiga estavam assistindo à apresentação performática de um Ás da Primeira Guerra, numa feira de aviação no Canadá. Porque estavam isoladas do restante dos espectadores, o piloto logo as avistou lá de cima e fez uma pequena “zueragem”: mergulhou com o avião na direção das duas moças, provavelmente esperando que saíssem correndo em pânico. Paralisada pelo medo e por uma gigantesca euforia, Amelia contou mais tarde que, a partir daquele momento, algo estalou dentro dela. Era como se o pequeno avião tivesse “lhe contado alguma coisa”. Em 1921, ela começou a ter aulas de aviação com Neta Snook, outra pioneira da área (que provavelmente mereceria uma matéria à parte aqui na Capitolina, quem sabe outro dia?). Meses depois, comprou seu primeiro avião, um bimotor amarelo “canarinho”, e no ano seguinte já estava batendo o recorde feminino em altitude na época: cerca de 4,3 quilômetros.

Amelia parecia compensar o que lhe faltava de técnica e experiência com inteligência e bravura. Apesar de ter feito diversos voos independentes por diversos países, a conquista que a tornou mais reconhecida foi um voo solo sem escalas pelo Atlântico, em 1932 – o primeiro do tipo feito por uma mulher. Para quem está acostumado com os voos confortáveis de hoje em dia, vale lembrar que ela fez isso num pequenino avião monomotor de apenas seis lugares: um gigantesco feito.

Marina Raskova – “Mas que existem, existem…”

Marina foi uma aviadora fantástica que nasceu numa época em que o máximo que mulheres tinham permissão de fazer num campo de batalha era cavar trincheiras ou cuidar dos feridos. Mas conflitos podem mudar muitas coisas – principalmente um tão emblemático como a Segunda Guerra Mundial. Marina foi uma das responsáveis por quebrar o tabu russo de enviar mulheres para a frente de batalha.

Nascida numa família de músicos, ela acabou se tornando piloto e navegadora de bordo por mero acaso. Queria ser cantora de ópera, mas em tempos de instabilidade política, acabou concluindo uma especialização em química no ensino médio. Por acaso, vai parar no laboratório de navegação aérea da academia aeronáutica e é aí que sua história começa a ficar interessante! Em 1934, tornou-se a primeira mulher a graduar-se como aviadora da União Soviética.

Como se sabe, a Alemanha invade a Rússia em 1941 e nessa época Marina usa sua influência para convencer Stalin a formar uma unidade combatente formada apenas por mulheres: não só as pilotos, como também as engenheiras e toda a equipe de suporte. Ela ganhou não apenas uma unidade, mas três. Na guerra, participaram mais de 800 mil mulheres.

O curso era dureza. Os homens tiveram mais tempos antes da guerra para se preparar (o curso durava em média 18 meses), mas a unidade feminina entrava em cima da hora. Imagine ter que, em seis meses, aprender a pilotar um avião teco-teco muito inferior tecnologicamente aos Messerschmitt alemães.

Ainda assim, as armadas femininas idealizadas e parcialmente coordenadas por Marina não fizeram feio. Pelo contrário: entraram para história justamente por sua obstinação e mortalidade. Famosas pela performance poderosa durante ataques à noite, logo ganharam um apelido dos inimigos alemães: “Nachthexen” ou as Bruxas Noturnas. Conta-se que eram tão persistentes e perigosas que abater apenas uma delas já dava ao soldado alemão a Cruz de Ferro – uma das maiores honrarias oferecidas em tempos de guerra.

Valentina Tereshkova – Na fronteira final

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Valentina foi a primeira mulher astronauta (ou cosmonauta, como chamavam os soviéticos) a ir para o espaço em 1963 – e em um voo sozinha. Selecionada dentre mais de quatrocentas concorrentes, ela ficou cerca de três dias no espaço e girou em torno da Terra 48 vezes! E tem gente que não aguenta nem um passeio de escuna…

A parte engraçada é que, antes de ser cosmonauta, Marina sequer pertencia às Forças Armadas: trabalhava numa fábrica de tecidos e era paraquedista amadora. Ficou entre as cinco finalistas do “vestibular espacial” Vostok 6 e, porque se enquadrava bem nas qualificações físicas e porque politicamente sua origem “proletária” era interessante para a ideologia soviética, foi selecionada.

O tempo em que ficou no espaço foi mais longo do que o de todos os astronautas americanos combinados até então. Apesar dos enjoos e dores naturais nesse tipo de viagem, ela cumpriu seu papel com louvor e voltou à Terra como heroína nacional – imagem que mantém até hoje.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

  • Isadora Goulart

    Amei! Pessoas inspiradoras!

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