12 de outubro de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Mulheres na ciência: pode (e deve) sim

Quantos cientistas você conhece? Você já ouviu falar em Albert Einstein? Charles Darwin? Isaac Newton? Thomas Edison? Marie Curie? Rosalind Franklin? Cecília Payne-Gaposchkin? Ada Lovelace? Annie Easley? Quantas cientistas mulheres você conhece? Eu mesma, dois anos atrás, teria respondido “sim” para os cinco primeiros nomes e “não” para os quatro últimos. E tenho certeza de que grande parte de vocês, lendo esse texto, será capaz de listar muito mais nomes de homens do que de mulheres. Mas por quê? Por que nos lembramos de tantos cientistas homens e tão poucas cientistas mulheres? Essa pergunta tem várias respostas, mas o motivo principal é: porque fazer ciência, sendo mulher, é muito difícil.

Primeiramente, é difícil que mulheres escolham ir pra área de ciências. Isso porque nós somos ensinadas que ciência não é “coisa de mulher”, mulheres lidam com pessoas e homens lidam com números, que nós não temos capacidade pra entender dessas coisas. Tudo isso aí é uma enorme besteira. Mas, quando crescemos sendo ensinadas desse jeito em casa, na escola, na rua, em todo lugar, ficamos com isso introjetado, acabamos achando mesmo que não temos habilidade pra isso, e deixamos pra lá aquela vontade de estudar do que a natureza é feita e como ela se comporta.

Mesmo quando essa primeira barreira é ultrapassada e uma moça escolhe ir para a área da ciência, há muitos outros obstáculos que serão desestimulantes no caminho. Na faculdade e no ambiente de trabalho continuamos sofrendo com diversos preconceitos e discriminações. Menosprezam nossas ideias o tempo todo. Questionam se aquilo que produzimos não foi, na verdade, feito por um homem. Dão a entender que só chegamos onde estamos por causa de nossa aparência, e não por nosso próprio mérito. Nos assediam. Não nos levam a sério como profissionais. E a lista continua. Tem gente, como o laureado com o Prêmio Nobel Tim Hunt, que acredita que “três coisas acontecem quando as mulheres estão no laboratório: você se apaixona por elas, elas se apaixonam por vocês, e quando você as critica elas choram”.  Só para vocês terem uma ideia do nível de desrespeito que as mulheres sofrem nesse ambiente. É de novo aquela ideia de que tudo que fazemos gira em torno dos homens. Sem comentários.

E além de ter que aguentar tudo isso, tem mais. Conhecemos muito mais homens cientistas não só por haver mais homens nesse campo do que mulheres, mas também porque os trabalhos feitos por homens são mais reconhecidos e divulgados. Muitas mulheres descobriram/desenvolveram coisas muito, muito incríveis, e conhecemos muito pouco sobre isso. Marie Curie, uma das mais conhecidas mulheres cientistas, descobriu muito sobre o elemento Radio e a radioatividade, e ganhou não um, mas DOIS Prêmios Nobel (foi a única pessoa a fazer isso até hoje). Cecília Payne-Gaposchkin foi a primeira pessoa a mostrar que o Sol é feito principalmente de Hidrogênio. Rosalind Franklin fez pesquisas fundamentais para que se determinasse o formato de dupla hélice do DNA (que rendeu a dois homens o Prêmio Nobel, e que mal deram crédito a ela por sua contribuição). Lise Meitner descobriu a fissão nucelar, que também rendeu a um homem o Prêmio Nobel e ele também não mencionou a participação de Lise na pesquisa, apesar de terem sido os cálculos feitos por ela que mostraram que esse fenômeno nuclear deveria acontecer.Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo a ser processado por uma máquina, e é considerada a primeira pessoa a programar da história.Annie Easley foi uma grande matemática e cientista da computação, que liderou o projeto de desenvolvimento de software para o foguete Centauro. Essas, e muitas outras, fizeram coisas incríveis pela ciência, porém não são dadas o devido reconhecimento que merecem.

Mas calma, o que eu quero fazer aqui não é desincentivar vocês, que gostam de ciências, a estudar/trabalhar com isso; justamente o contrário. Tudo isso que eu listei acima só faz mais importante que tenhamos muitas mulheres fazendo ciência. A primeira dúvida que pode surgir a respeito disso é: qual a importância de ter mulheres fazendo ciência? Qual a diferença entre ter só homens ou ter homens e mulheres? Bom, a importância de ter mulheres em grande peso nessa área é a mesma de ter qualquer grupo oprimido ocupando esse espaço. E isso é: porque as pessoas que fazem ciência determinam o que será estudado e pesquisado. Na verdade, quem determina é tanto quem faz quanto quem financia ciência. Quem faz tem uma certa liberdade de escolher a área e o que quer estudar, e quem financia escolhe se vai dar ou não dinheiro para que aquilo seja estudado. Mas vamos nos focar em quem faz ciência. Porque o que acontece então é que, se só houver homens (ou qualquer outro grupo privilegiado da sociedade) escolhendo o que vai ser pesquisado, muito provavelmente eles escolherão temas que sejam de seu próprio interesse (não estou nem querendo dizer que vai ser por mal), e então questões pertinentes às mulheres não serão escolhidas como tema de estudo.

Além disso, quanto mais mulheres fazendo ciência, mais mulheres fazendo ciência. Ok, isso pareceu completamente louco, mas não é. O que eu quero dizer é que nós precisamos de modelos em quem nos inspirar. Quando olhamos para aquela imagem clássica de cientista, um homem, branco, velho, de jaleco, é difícil nos identificarmos com ele e nos vermos em seu lugar. Agora, se procurássemos “cientista” no google e víssemos imagens e mais imagens de mulheres em seus laboratórios, mulheres cientistas famosas, se na escola nos ensinassem grandes descobertas feitas por mulheres – porque SIM, elas existem -, seria outra história.

Pra ser bem sincera, se mais mulheres fizessem ciência, isso seria única e exclusivamente benéfico pro desenvolvimento da ciência. Porque a ciência é feita essencialmente em grupo. Ao restringir o acesso à mesma – não me refiro a colocar patentes e essas coisas (apesar de que eu também acho isso ruim pro desenvolvimento científico) mas a incentivar uma parte da sociedade a gostar disso e fazer outra parte pensar que não tem capacidade de entender como isso funciona – desaceleramos seu progresso. A ciência é algo em constante mudança; há sempre questões em aberto que precisam de grupos de pesquisa procurando resolvê-las. Por isso, que bem faz cortar pela metade o número de pessoas que poderiam estar contribuindo com isso? A sociedade pega metade dos cérebros e diz pra eles “olha, você não serve pra isso não, desiste, viu?”. Isso não faz é bem nenhum pra ciência.

O que eu quero dizer então é: ainda hoje é muito complicado escolher fazer ciência sendo mulher (assim como é complicado tentar se inserir em qualquer ambiente que tenha majoritariamente homens). Mas isso não significa que a gente deva desistir. Pelo contrário: se é disso que você gosta, vai em frente!! É difícil, mas seria mais difícil se outras mulheres incríveis antes de nós não tivessem começado a enfrentar esses preconceitos de que “ciência não é coisa de mulher”. Então junte-se a nós e venha ajudar a mostrar pra todo mundo que ciência é coisa de mulher sim!!!

+ REFERÊNCIAS

Mulheres na física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento

Mariana Cipolla
  • Colaboradora de Ciência e Tecnomania
  • Revisora

Tem 21 anos, mora em São Paulo capital e adora café (mas sem qualquer infinitésimo de açúcar). Não acredita em signo, não gosta de fazer escolhas, tenta se planejar com antecedência e sonha em um dia conseguir terminar de ler todos os livros que tem. Estuda física, e queria que todas as pessoas pudessem se encantar com as maravilhas dessa ciência tanto quanto ela (queria conseguir ser uma boa divulgadora de ciência e/ou professora pra tornar isso um pouco mais possível). Mas acha que a ciência só vai ser completa quando houver mais mulheres cientistas e quando essas não forem estigmatizadas.

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