2 de junho de 2017 | Ano 4, Edição #34 | Texto: | Ilustração: Hemilyn
Mulheres nas Narrativas do Cinema (BÔNUS: listinha de filmes)
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O cinema é uma forma de distração, aprendizagem e identificação com narrativas diversas, inclusive sobre pessoas. Mas será que nós, mulheres, somos bem retratadas e representadas no cinema?

A indústria cinematográfica é majoritariamente dominada por homens e não é necessário sair do sofá para entrar em contato com essa realidade: uma pesquisa da New York Film Academy mostra que, nos enredos, somente 30,8% dos personagens com falas são mulheres e somente 10,7% dos filmes apresenta um elenco balanceado (no qual metade é mulher), além da porcentagem de mulheres trabalhando atrás das câmeras ser sempre muito inferior à de homens, seja na direção, produção, edição ou no roteiro. Com isso, há uma falta de representação e representatividade feminina nas narrativas do cinema, geralmente apresentando personagens rasas e estereotipadas nas produções.

Apesar dessa triste realidade, cada vez mais alternativas têm sido apresentadas para contornar a negligência do cinema com as narrativas das mulheres. Alison Bechdel, uma cartunista estadunidense, é um exemplo: criou o chamado Teste de Bechdel, no qual ela busca filmes com a representação feminina e menor desigualdade de gênero no cinema. Seu teste é baseado em três regras muito simples: o filme deve ter pelo menos duas mulheres, elas devem conversar entre si e o assunto precisa ser algo que não seja um homem.

Se você se interessou, segue abaixo a lista de alguns exemplos de filmes muito bacanas que foram bem aprovados no Teste de Bechdel, além de apresentarem histórias interessantes com mulheres fortes:

Que Horas Ela Volta

O longa-metragem brasileiro Que horas ela volta? traz em seu enredo uma história que trata das relações familiares entre a mãe, Val, e a filha, Jéssica, que possuem diferentes visões de mundo, além de um olhar aproximado sobre as dinâmicas do serviço doméstico no Brasil e suas relações de poder existentes. Dirigido por Anna Muylaert, esse filme apresenta um universo no qual as personagens femininas são protagonistas e têm, de fato, o protagonismo: trazem interesses, diálogos, preocupações e conflitos próprios.

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

O filme 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias se passa em 1987 na Romênia, durante os últimos momentos da ditadura de Nicolae Ceausescu. A história traz, em um momento onde o aborto era estritamente proibido, a busca de duas amigas para que uma delas praticasse o procedimento ilegalmente. Otilia e Gabita são personagens fortes e de coragem que, além de protagonizar uma busca que trazia enormes riscos para ambas, passam por situações horríveis nas mãos do abortista Bebe.

Persépolis

Baseado na autobiografia em quadrinhos de mesmo nome, Marjane Satrapi começa a história nos seus 8 anos, durante a revolução Iraniana. Mais tarde, voltada de sua adolescência na França, Marjane se depara com diversas questões relacionadas ao amadurecimento, além dos embates entre o modo de vida ocidental e oriental. Uma narrativa sobre uma mulher e escrita por ela mesma que traz um discurso igualitário, além de apresentar reflexões e diálogos sobre política, liberdade e costumes.

As Sufragistas

O tema desse longa –  o movimento sufragista britânico que teve lugar no final do século XIX e início do século XX –  já sugere protagonistas e personagens fortes. Dirigida e escrita por mulheres (Sarah Gavron e Abi Morgan, respectivamente) a trama mostra uma luta que envolveu repressão, prisão e violência sofridas pelas integrantes. Além de ter seu enredo voltado para as mulheres atuando em uma questão de interesse próprio, vemos como algumas personagens são, por exemplo, obrigadas a escolher entre o movimento e seu relacionamento com seus parceiros. No entanto, o filme recebeu muitas críticas por só mostrar protagonistas brancas, deixando de lado as minorias raciais que, apesar de em menor número, estiveram presentes e também lutaram pelo direito ao voto.

Cisne Negro

Cisne Negro é sobre Nina, uma bailarina que, em meio à pressão de competir pelo seu papel para a montagem de Lago dos Cisnes, tem que se adequar tanto ao Cisne Branco quanto ao Cisne Negro. A busca pelo segundo, no entanto, se torna uma obsessão e há uma mistura de conturbações da sua mente com a realidade. No contexto do filme, há diversas discussões com sua mãe e entre as dançarinas sobre questões como desafios da carreira e política, além da protagonista ser guiada em maior parte pelo seu objetivo profissional combinado com as pressões sociais enfrentadas dentro do seu meio.

O Sorriso de Mona Lisa

Em O Sorriso de Mona Lisa, a professora de arte Katherine começa a dar aula em uma escola conservadora de meninas nos anos 1950, trazendo para elas questionamentos progressistas para a época como, por exemplo, sobre o casamento. As personagens femininas, portanto, possuem conversas reflexivas e que tratam de temas como arte e carreira.

Dreamgirls

Dreamgirls traz a história de um grupo musical feminino conhecido como “The Dreamettes” que atua na cena de R&B amadora no Teatro Detroit em 1962. Após o início do sucesso de sua carreira junto ao empresário Curtis Taylor, no entanto, os conflitos começam devido aos interesses pessoais do último. As protagonistas, além de mulheres negras, constroem uma narrativa na qual elas percebem que seu talento e narrativa é próprio delas, e não depende dos homens gananciosos ao seu redor.

A Cor Púrpura

A narrativa se passa no começo do século XX, contando a história de Celie, jovem que passa por diversas violências e abusos nas mãos do pai, é vendida para um homem, sendo tratada como escrava e companheira, e tem que lidar com a solidão. Separada da irmã Nettie, ela segue perseverante durante a narrativa e nutre o sonho de um dia reencontrar sua irmã na África e melhorar sua vida. É, portanto, um enredo forte sobre a história de uma mulher com tristezas e sofrimentos associados, principalmente, com opressões relacionadas à sua condição de mulher negra no início do século XX. Além disso, uma das motivações para que Celie siga em frente é seu contato com duas outras mulheres, Shug Avery e Sofia, que a ajudam a resistir ao seu relacionamento muitas vezes brutal.

Alguns outros filmes que também passam no Teste de Bechdel e podem ser muito interessantes: Moonlight, Carol, Coraline e o Mundo Secreto, Terra Fria, Garota Interrompida, As Horas, Cléo das 5 às 7, A Professora de Piano, Nós Somos as Melhores, Baleias de Agosto, O Diário de Anne Frank, A Viagem de Chihiro, Cara Gente Branca.

O Teste de Bechdel, no entanto, possui também pontos fracos e problemas, deixando de endereçar questões importantes para que a história possa, de fato, trazer histórias com representatividade e representação feminina. Por exemplo, esse não questiona a representação de mulheres pertencentes a minorias raciais, restringindo sua análise, na maioria das vezes, à maioria branca contida nos filmes produzidos. Além disso, é necessário maior aprofundamento dos critérios, levando em consideração questões como a agência das personagens femininas, se elas guiam suas próprias histórias, se a narrativa traz questões de interesse para as mulheres e para as feministas e se as minorias são retratadas, como, por exemplo, as mulheres LGBT.

Na tentativa de atender a essas necessidades, alternativas e complementos ao teste surgem, como, por exemplo, o Teste DuVernay, criado para desafiar a diversidade racial e inspirado na diretora afro-americana Ava DuVernay. Foi apresentado pela crítica de cinema do New York Times, Manohla Dargi, podendo ser, segundo ela, não somente um parâmetro para aprovar ou não os filmes, mas para começar a discutir a diversidade, representação e profundidade das histórias de personagens minoritárias nos filmes produzidos.

Apesar do Teste de Bechdel não ser o único e nem ideal método de avaliação a ser usado quando se analisa a história de um filme, ele pode ser muito útil para ter uma visão crítica em relação ao que é disponibilizado nos cinemas e, assim, refletir sobre qual o tipo das produções que nós, como mulheres, queremos ter a nossa disposição nos cinemas.

Gostou? Confira os links abaixo para conhecer mais sobre algumas das questões tratadas acima:

http://www.revistacapitolina.com.br/que-horas-ela-volta-entrevista-com-anna-muylaert/

http://www.revistacapitolina.com.br/tudo-bem-sr-demille-estou-pronta-para-o-meu-close/

http://bechdeltest.com/

https://filmow.com/listas/150-filmes-incontornaveis-que-passam-no-teste-de-bechdel-l40626/?order=title

http://www.refinery29.com/2016/02/102436/duvernay-test-diversity-movies

Daniela Matos
    Colaboradora de Sociedade

Um pouco de tudo: muito comunicativa, meio programadora, bastante feminista, quase internacionalista e uma futura viajante. Escrevo o roteiro da série sobre a minha vida dentro da minha cabeça (é por isso que as vezes eu rio sozinha) e gosto muito de batatas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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