29 de junho de 2017 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Mulheres no cangaço: resistência e subversão

 

O Cangaço surgiu por volta de 1870, em meio a uma crise econômica passada pelas cidades do interior do Nordeste, com a crescente industrialização, e um aumento da desigualdade social da região, atenuada por uma grande seca. Os cangaceiros, chamados de “bandidos sociais”, eram um misto de justiceiro e vingador, combatendo a injustiça causada pela crescente desigualdade social e dividindo opiniões sobre seus atos serem heróicos ou criminosos. Esse banditismo surgiu como uma revolta espontânea contra a situação social, vindo de grupos rebeldes que partiram para o crime como forma de sobrevivência e revolta contra as classes dominantes.

 

Poucas vezes, no entanto, é lembrado que as mulheres fizeram parte do cangaço durante a última década de sua existência, a partir de aproximadamente 1930, passando a ser aceitas no bando a partir da entrada de Maria Gomes de Oliveira, chamada de Maria Bonita pela imprensa após sua morte. Ela era uma mulher separada, algo incomum naquele tempo, quando conheceu o líder do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, chamado Lampião. Após algum tempo de contato entre ambos e visitas do cangaceiro, a polícia foi informada e a família de Maria, ameaçada. Com a mudança de sua família para Alagoas, fugindo das ameaças da polícia, ela tomou uma decisão inédita: acompanharia Lampião em sua vida no cangaço. Quebrando a tradição do movimento, Lampião permitiu sua entrada e um precedente foi estabelecido, permitindo que outras tivessem uma alternativa de vida no bando. Estima-se que houveram mais de 60 mulheres nos grupos e subgrupos do cangaço.

 

Em meio a uma sociedade que impunha um papel social muito específico para a mulher, a entrada das mesmas em um movimento que já era por si só subversivo à ordem se mostrou um ato de coragem e resistência a diversos padrões de gênero. As cangaceiras eram sertanejas comuns, que viviam em sítios, e eram atraídas muitas vezes pela possibilidade de mudar seu destino, rompendo com a proposta de um casamento arranjado, da domesticidade, do papel exercido nas famílias e até da religiosidade. Muitas aprendiam a ler e escrever, por exemplo, atividade pouco comum para mulheres na época.

 

Como é relatado pela ex-cangaceira Adília, no cangaço era possível fazer coisas antes proibidas: dançar, se pintar, e pentear o cabelo como preferisse. Portanto, juntar-se ao grupo foi uma declaração de independência própria. Além disso, como já era sabido pela sociedade que essas mulheres estavam sendo visitadas por cangaceiros e não eram mais virgens, se não fossem para o cangaço, acabariam na prostituição.

No entanto, havia cangaceiras que não estavam no bando por escolha pessoal, tendo sido raptadas de suas casas, algumas com menos de 15 anos. Outras violências aconteciam, como violência sexual após o rapto de mulheres, assassinatos de cangaceiras por seus companheiros quando eram acusadas de adultério, sem que qualquer um interviesse, respeitando os códigos morais instituídos por Lampião no seio de seu grupo, e violências físicas vindas muitas vezes dos próprios companheiros. Nessas práticas violentas contra as mulheres, é possível perceber que o contexto do cangaço não estava isento dos pensamentos e atitudes machistas da época, como reflexo de todo um pensamento social.

 

Outro episódio que reitera o caráter machista e violento do pensamento social vigente mesmo dentro do grupo é quando Lampião declarou não querer que as mulheres cortassem o cabelo, e, ao algumas delas desafiarem-no e declararem que o cabelo era delas e com ele elas fariam o que quisessem, tiveram o rosto marcado a ferro pelo cangaceiro José Baiano. Apesar de casos assim serem específicos, se juntar ao grupo podia ser visto como abrir mão de sua liberdade por algumas das mulheres, já que eram obrigadas a seguir um homem que muitas vezes era violento, além de não haver possibilidade de não possuir um companheiro: caso o seu respectivo morresse e ela não se associasse imediatamente a outro, era morta, pois carregava informações preciosas e secretas do bando. Práticas como essa reiteram a necessidade existente de manter e demonstrar a autoridade dos homens no bando.

Paralelamente às violências sofridas, o cotidiano possuía aspectos que traziam no cangaço uma possível alternativa para o papel tradicional da mulher. As cangaceiras andavam bem vestidas e podiam usar vestidos que iam até o joelho, altura incomum para a época, não eram incumbidas de cuidar dos filhos, e vivenciavam uma maior divisão de tarefas, já que até 1930 se o movimento se autogeria apenas com a presença de homens, levando todos a saberem cozinhar e lavar suas roupas. Apesar disso, algumas atividades ainda retomavam sua vinculação com o papel tradicionalmente feminino, como borda e costura. Dadá, ex-cangaceira, disse em uma entrevista que, atreladas ao respeito ao marido, suas atividades e vida eram como uma dona de casa qualquer.

 

Dentro das rotinas de combate, às mulheres normalmente eram afastadas de emboscadas e ficavam fora da área de combate. Seu papel, portanto, não era semelhante a de uma amazona ou guerreira militante ativa. Mesmo assim, todas sabiam atirar e carregavam pequenas armas para defesa. Ainda nesse papel, enfrentavam as dificuldades da vida do cangaço: é relatado pelas próprias cangaceiras que às vezes elas não comiam ou bebiam devido ao perigo iminente,dormiam no chão molhado, tinham suas famílias presas e ameaçadas. Apesar das dificuldades, no entanto, muitas delas declararam que não pensavam em sair do cangaço quando estavam imersas no movimento, pois, apesar de difícil, era uma vida possível.

 

Outra característica muitas vezes destacada na vida das mulheres do cangaço é a maior autonomia adquirida. Elas eram não apenas companheiras, mas também co participes, ativas nas atividades do bando. Maria Bonita, por exemplo, acolhia e orientava as recém chegadas no bando, ensinando sobre a vida no cangaço. A autonomia entre as mulheres era uma realidade, formando um grupo que se reunia para conversar, bordar e discutir sobre a vida, e que, apesar da tentativa mesmo dentro do bando de contê-las em uma posição predeterminada, elas tinham opinião e se destacaram em diversos momentos. Em muitas situações, a mulher do cangaço saiu da periferia da vida, sempre sendo adjunto de algum homem, e se tornou autora da sua própria história, decidindo seu futuro de diversas maneiras.

 

Dadá é um exemplo de ex-cangaceira sempre relembrado por sua força excepcional: quando seu companheiro, Corisco, morreu assassinado, ela pegou em armas e foi lutar contra os soldados. Em vida, na época da anistia de Vargas, ele pensou em se render e ela respondeu que ele que então pegasse as roupas dela e lhes desse as suas, pois aquela não era uma atitude de homem. Apesar de seu rapto e violência, passou a respeitar o companheiro e, com o tempo, tornou-se, inclusive, incômoda para outros cangaceiros que não “aceitavam receber ordens de uma mulher”.

 

Além disso, as mulheres foram fundamentais em outros âmbitos, como, por exemplo, estabelecer a identidade visual conhecida do cangaço, criando os bornais enfeitados. Esses desafiavam, inclusive, o papel da masculinidade intocável dos cangaceiros que passaram a se enfeitar com os bordados.

 

Contemporâneo ao cangaço, o cordel, dentro da mentalidade machista, não retratava a mulher no movimento. A imprensa, por sua vez, demorou para absorver a entrada das mulheres nos bandos de Lampião e, quando o fez, as tratava exclusivamente como vítimas da sociedade, como prostitutas, que não constituíram família ou eram separadas, como Maria Bonita. Essa imagem negativa das mulheres trazia também sua participação como insignificante, ressaltando muitas vezes detalhes que nada tinham a ver com o movimento de fato, como sua aparência física. O cinema era também responsável por essa imagem, retratando diversas vezes as cangaceiras de maneira a desqualificá-las, menospreza-las e trazê-las como adúlteras. O próprio nome Maria Bonita, dado a Maria Gomes pela imprensa, e a idealização de sua aparência física deixam de lado os seus principais feitos como uma mulher que desafiou seu tempo, lutando contra o coronelismo, o machismo, se separando e deixando sua família para seguir Lampião e seu bando.

 

A relação das mulheres com o cangaço é, em sua maioria, cheia de paradigmas, contrastes e conflitos. Enquanto, por um lado, o movimento possibilitava a quebra de papéis de gênero e a resistência feminina, por outro muitas vezes elas eram vítimas de violência e não podiam escolher sair e, às vezes, nem se queriam entrar para o bando. Mesmo dentro de novos paradigmas, o papel das cangaceiras como mulheres de acordo com os padrões da sociedade era reafirmado. No entanto, é impossível não reconhecer a importância da sua participação no movimento, representando resistência, força e reinvenção dos limites possíveis para as mulheres nordestinas da época, ocupando um espaço antes impensável.

 

Ao estudar o cangaço, é impossível fazê-lo sem estudar a participação das mulheres no movimento.

 

Para saber mais sobre as mulheres e o cangaço, você pode acessar os links abaixo:

Documentário “Feminino Cangaço”: https://www.youtube.com/watch?v=wsTCQ7LOeds

http://www.vermelho.org.br/noticia/38479-1

Acervo mantido por Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita: http://usuarioweb.infonet.com.br/~LAMPIAO/index.htm

Mais sobre o Cangaço retratado no cordel: http://www.scielo.br/pdf/pcp/v24n4/v24n4a07.pdf

Mais sobre Lampião e o Cangaço: http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/media/4%20-%20lampiao,%20virgulino%20e%20o%20mito.pdf

Daniela Matos
    Colaboradora de Sociedade

Um pouco de tudo: muito comunicativa, meio programadora, bastante feminista, quase internacionalista e uma futura viajante. Escrevo o roteiro da série sobre a minha vida dentro da minha cabeça (é por isso que as vezes eu rio sozinha) e gosto muito de batatas.

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