16 de julho de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Em busca da “partícula de Deus”: as cientistas do LHC
Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Umas das coisas mais maneiras acontecendo no mundo da Física atualmente é o LHC, o Large Hadron Collider (Grande Colisor de Hádrons, em bom português), mais conhecido por ser um gigantesco acelerador de partículas que prometeu procurar pela “partícula de Deus” ou o Bóson de Higgs. Ele é basicamente um túnel circular enorme – enorme mesmo: seus 27km de circunferência se espalham pelas fronteiras subterrâneas entre a França e a Suíça! Nele, pesquisadores inserem feixes de partículas em direções opostas, e observam e estudam o que acontece quando elas colidem. A ideia é que as partículas vão acelerando até estarem próximas da velocidade da luz – e, nessa hora, poderiam sair resultados muito interessantes.

Os cientistas esperam que o LHC ajude a entender várias questões da Física que ainda não possuem respostas, desde a existência de outras dimensões até explicações sobre a matéria escura. E, é claro, sobre o Bóson de Higgs. Lembra quando na escola a gente aprende que toda matéria pode ser dividida e subdividida até chegar aos prótons, elétrons e nêutrons? Então, na verdade, quem se especializa em Física logo aprende que a divisão não para aí: existem partículas ainda menores, que podem ser de várias categorias diferentes. O Bóson de Higgs seria uma partícula elementar, ou seja, uma partícula que não é divisível, e que estaria presente na construção de todas as outras partículas da natureza. A existência dele ajudaria a comprovar as teorias mais aceitas hoje em dia sobre a estrutura do universo.

E olha só que legal: em março de 2013, depois de quase 5 anos de etapas e análises, uma partícula que se comporta como o Bóson de Higgs teoricamente se comportaria foi anunciada pelo CERN (a Organização Europeia de Pesquisa Nuclear).

Esse projeto, provavelmente uma das mais impetuosas obras da história humana, como não podia deixar de ser, conta com a participação de diversas mulheres fantásticas. Por isso, a gente da Capitolina decidiu falar um pouco de alguns nomes notáveis.

Deixando o preconceito de lado

A gente sempre ouve falar que mulheres não são boas na área de Exatas. Na verdade, existem diversas espalhadas pelas ciências, mostrando que isso é tudo bobagem. Só que essa história, que já vem de looonga data, acaba desmotivando muitas meninas a participar, desde pequenas, de qualquer coisa que envolva números e análises de dados brutos: isso é “coisa de menino”. Há quem diga que moços são “biologicamente programados” para serem melhores em números do que as moças (que seriam, por exemplo, melhores em atividades que envolvem sociabilidade). Por causa disso, somos muitas vezes desencorajadas a desenvolver nosso lado “cientista” desde pequenas.

Mas será que nosso cérebro é tão simples assim? Numa palestra sobre ciência e conhecimento secular realizada em Nova York, fizeram a seguinte pergunta à mesa: “Por que existem menos mulheres do que homens nas ciências? Alguém se habilita a falar de nossas diferenças genéticas?”. A fantástica resposta veio do astrofísico Neil DeGrasse Tyson, que, com todas as palavras, disse que antes de procurarmos pelas causas biológicas que nos tornam diferentes, devemos questionar se nossas sociedades não estão bloqueando nossos potenciais como seres humanos.

Fabiola Gianotti, que trabalha com física experimental, foi eleita democraticamente como porta-voz e coordenadora do ATLAS, que é um dos sete (e o maior) detectores de partículas do LHC, e que foi um dos dois que participou da descoberta do possível Bóson de Higgs. Ela contou em entrevista à CNN  que, apesar de ter estudado em uma escola em Milão que incentivava muito mais o estudo de Artes e História da Arte, ela acabou se apaixonando pela Física quando percebeu que tentava responder questões fundamentais, um pouco como a Filosofia, mas oferecia respostas, mesmo que não definitivas. Para ela, a Física está muito mais ligada às Artes do que pode parecer, já que as duas dependem tanto de cálculos e proporções quanto de imaginação e fantasia.

No próprio CERN, envolvidas com o projeto do LHC, existem várias outras mulheres que são responsáveis por atividades e questões supercomplexas: a Ana-Paula Bernades, por exemplo, é engenheira ambiental e trabalhou, entre outras coisas, estudando o impacto acústico do acelerador na região, e mesmo com treinamentos de segurança. Podemos lembrar também da Isabel Brunner, alemã que atua com engenharia de proteção à radiação ou da Monique Dupont, que trabalha com o alinhamento dos ímãs dos aceleradores, que são mais 1.800. Essa última atua no CERN desde 1978, e, quando estava na faculdade, era a única menina em um curso de mil alunos!

Vale falar também da Virgínia Greco, engenheira eletrônica, que dedica-se ao TOTEM, um dos experimentos menores do LHC. Ela já disse sentir que, como mulher, sempre teve que provar que merecia estar num ambiente tão dominado por homens, mas que no CERN a atmosfera parece um pouco diferente. Ou da Monica Pepe Altarelli, que trabalha com física experimental, e o trabalho dela no LHC passa por gerenciar diversas questões gerais e analisar a qualidade dos dados sendo coletados, para garantir que possam ser usados. Podemos mencionar ainda a Eva Sanchez Corral, engenheira da computação e que trabalha como controladora de acesso no acelerador, e disse em entrevistas que quando entrou no CERN, os homens estranhavam a presença dela e não a tratavam de igual para igual, mas confirme o staff foi sendo substituído por pessoas mais jovens, isso foi mudando, e mais mulheres também entraram. Outras são as físicas experimentais Gilda Scoli e Archana Sharma: Gilda ajudou a construir os detectores de colisões do acelerador, enquanto que Archana trabalha no grupo de coordenação técnica do LHC, cuidando de questões como a integração e a instalação do acelerador.

Essas mulheres, com suas diversas especialidades, nos ajudam a tentar entender como o universo funciona, e no caminho nos dão respostas para várias outras coisas, que ajudam até no tratamento de câncer. Não parece um desperdício que várias meninas desistam ou nem considerem a área científica, porque alguém um dia achou que mulheres não entendiam de Física? Parece difícil mesmo aprender uma coisa quando todo mundo diz que aquilo não serve pra você. Mas todas essas moças aí de cima, e várias outras pelo mundo, estão aí para mostrar e lembrar que a gente “serve” pro que quiser, e especialmente pro que a gente gosta.

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

  • Alexandre P.

    Acho irônico que a grande maioria das colaboradoras deste site sejam de humanas. Se houvesse um lugar onde eu esperaria encontrar garotas físicas, químicas, matemáticas, gamers, etc, etc. esse lugar seria aqui. Mas ao que parece a maioria segue carreiras ligadas à estética (moda, fotografia, teatro…), agindo excessivamente de acordo com o estereótipo vigente. Minha sugestão é que vocês buscassem mais garotas de exatas e também que criassem uma categoria “ciência” ou então que mudassem o nome “tech & games” de forma a abranger o termo ciência.

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Alexandre, existe um pensamento muito comum nos dias atuais que é daqueles que acreditam que alguém que se interessar pela área de humanas não pode se interessar também pelas áreas de exatas e biológicas. Aqui na Capitolina, tentamos mudar esse pensamento. Assim, temos garotas que estudam e/ou trabalham na área de humanas que gostam, se interessam e sabem de coisas de áreas de exatas e biológicas – e vice versa. Ficamos tristes em saber que você, assim como tantos outros, reproduz este pensamento. E esperamos verdadeiramente mudar tal lógica (a qual não faz sentido algum) com nossa revista.
      Também sentimos falta de uma área mais ligada a ciências em geral, mas atualmente não conseguimos acrescentá-la em nossa revista. Mas nossas contribuidoras de Tech & Games e de Estudo, Vestibular e Profissões abordam tais assuntos em suas colunas. São realmente muitas coisas que faltam ser tratadas por revistas femininas e nós queremos abranger todas, mas infelizmente não é tão simples assim.
      Além disso, gostaríamos de lembrar: não é porque uma garota joga vídeo game que ela, necessariamente, “é de exatas”. Da mesma forma que uma garota que gosta de teatro, moda ou fotografia (interesses os quais você citou) não é, necessariamente, de humanas. Este é um estereótipo que também queremos quebrar aqui na Capitolina. Em nossa revista, não acreditamos em estereótipo algum e acreditamos que cada garota se constrói unicamente. Tanto que, se você perceber, nossas próprias colaboradoras escrevem sobre diversos assuntos, independentemente de suas áreas de formação.
      Inclusive, não vemos problema algum de termos contribuidoras com currículos ligados à estética (usando aqui o termo que você usou). É importante ter em mente também que mesmo as áreas por você citadas (fotografia, teatro, moda) também demandam um conhecimento técnico e prático tanto no campo narrativo (o que é considerado “de humanas”) como no campo tecnológico (o que é considerado “de exatas”).
      Inclusive, quando procuramos contribuidoras, buscamos garotas que, antes de tudo, se identifiquem com a proposta da revista, independente da carreira que seguem (inclusive, temos vestibulandas em nossa equipe). Na Capitolina, acreditamos na interdisciplinaridade. Agora, fica de fato duas reflexões: 1. Por que é tão mais fácil encontrar garotas ligadas às áreas convencionalmente conhecidas por humanas? Como homem, talvez você não perceba, mas pessoas do sexo feminino são pouco encorajadas (quando não desencorajadas) a tentarem áreas conhecidas por exatas e biológicas, como mostramos nesta matéria. Assim, já por princípio se torna mais difícil encontrar contribuidoras em tal “padrão”. Além disso, como dito anteriormente, buscamos meninas que estejam ligadas ao feminismo (ou seja, à luta pela igualdade de gêneros, a qual, infelizmente, ainda não vinga). Assim, chega-se à segunda reflexão que fica: por que pessoas de humanas são mais conscientes das opressões da mulher, pensando, é claro, na ideia de estereótipo a qual você trouxe em seu comentário? Talvez exatamente porque são áreas em que seja aceito a presença de tantas mulheres. Se refletir sobre isso, talvez você perceba que não é tão irônico, de acordo com as suas próprias palavras, a maioria de nossas contribuidoras ser interessada em áreas de humanas (que não têm necessariamente a ver com estética, é bom lembrar).
      Novamente, gostaríamos de reiterar: gostar de humanas não exclui se interessar por outras áreas e vice versa. Inclusive, logo em nossa primeira edição escrevemos sobre isso, dê uma conferida!http://www.revistacapitolina.com.br/o-que-voce-gosta-nao…/

      • Alexandre P.

        Achei a resposta muito agressiva para um comentário não tão agressivo. Boa parte desse texto enorme poderia ser omitida se você não tivesse pressuposto coisas que eu não disse, como que quem é de humanas não gosta de exatas e que quem é gamer é necessariamente de exatas. Não disse essas coisas. Para mim, o único parágrafo que respondeu de acordo com o que eu disse foi o segundo, todo o resto pressupôs coisas erradas sobre o que eu penso. Se acha que estou errado, não precisa ficar metendo pau. Achei muito desproporcional.

        • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

          Alexandre, não fomos agressivas em momento algum. Muito pelo contrário; respondemos o seu comentário com bastante dedicação e procuramos explicitar os motivos pelos quais acreditamos que ele apresentou aspectos problemáticos. Somos bem preocupadas com nossos leitores e sempre tentamos deixar claro o posicionamento editorial da Capitolina.
          A partir do momento em que você diz achar irônico o número de meninas de Humanas e completa sua afirmação com “aqui esperava encontrar garotas gamers”, está deixando claro que os dois grupos não combinam, não é? Não estamos pressupondo coisas sobre o que você disse. Apenas respondemos o que estava no seu comentário.
          Se você não pensa assim, que ótimo! Ficamos felizes de verdade.
          Obrigada por visitar a Capitolina (:

          • Alexandre P.

            Discordo de várias coisas que você disse, de qualquer maneira, obrigado por esse mini-debate. Fico feliz em ver que meus comentários, apesar de sofrerem forte oposição, foram publicados e respondidos. Já escrevi em diversos blogs e páginas feministas e muitas vezes os meus comentários foram rejeitados ou posteriormente apagados. Obrigado pela recepção,

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