18 de setembro de 2014 | Artes | Texto: and | Ilustração:
Mulheres do samba

Pensar em samba é costumeiramente (e infelizmente) imaginar uma roda com homens, tocando alguns instrumentos, como pandeiro ou cavaquinho, e em volta mulheres negras sambando. Não que seja algo ruim, porém, se pararmos para pensar,  o samba nos traz à tona um mundo infinitamente maior, incrivelmente fascinante, que vai muito além desses estereótipos.

Samba é uma das representações artísticas mais populares no Brasil, pelo fato de ter nascido aqui, com raízes africanas. Cheio de suíngue e frases melódicas, que dele se originaram outros ritmos, dando então a tão incrível forma que conhecemos.

E ainda assim, eu cresci numa época onde era uma vergonha gostar de uma coisa tão bonita e bem feita, por ser dita como “vulgar” (e outros preconceitos).  Crianças da minha idade morriam de vergonha de ter nascido aqui, das coisas que aqui se originaram, e nem sabiam ao certo o porquê. Bonito era gostar das coisas que viam de fora, o pop, o rock e afins (mas, bom, isso é definitivamente um assunto pra outro texto).

O fato é que só depois que cresci e fui em busca dos meus próprios interesses, gostos e ancestralidades é que descobri o samba como uma forma de expressão tão sincera e digna de atenção. Uma maneira direta e poética de se dizer o que sente, resumidamente falando.

E como vivemos numa sociedade onde a mulher é posta de lado em tudo e em todo meio em que se encontra, tendo seu posto reduzido, são poucas as sambistas que têm seu renome devidamente reconhecido. Confesso, eu mesma, que não conheço tantas – não pelo fato de inexistirem ótimas sambistas, e sim pela pouca importância que o mundo dá a elas.

Então, deixo aqui escrito que o real foco desse texto são as maravilhosas sambistas que temos pelo nosso país e como elas contribuíram (e contribuem!) para nossa música, nossa cultura, nossa história.  Pensando nisso, fizemos uma listinha com nossas sambistas preferidas – mas saiba que existem muitas outras igualmente maravilhosas – e uma playlist delícia pra curtir o samba!

 dona ivone lara

Done Ivone Lara

A primeira da lista é, sem dúvidas, uma das sambistas mais encantadoras que já conheci. Com uma garra descomunal, essa mulher é mágica. É, com certeza, um exemplo. Isso mesmo, é a Dona Ivone Lara, a qual talvez vocês já tenham ouvido falar. Ela nasceu em 1921, num berço de puro samba, aprendeu a tocar cavaquinho com o tio que a criou. Foi a primeira mulher a ser compositora, e esse reconhecimento veio em 1965, com a canção “Os cinco bailes da história do Rio”. Mas as coisas não foram tão fáceis assim. Ela começou a compor desde novinha, com doze anos, e quando queria mostrar sua arte, era preciso que levasse o nome do seu primo, porque não aceitariam uma mulher como compositora. Mesmo assim, ela nunca deixou de compôr. Hoje, suas músicas são interpretadas por cantores como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso e muitos outros.
Uma amiga, inclusive, foi a um show dela e contou que, com 93 anos, a artista lembrava pouco das letras, estava numa cadeira de rodas e dependia da ajuda dos filhos. E, ainda assim, fazia seu show de emocionar qualquer ruim da cabeça ou doente do pé, fazia o público todo se apaixonar por tamanho talento. Vale a pena conferir as obras dessa sambista.

clara nunes

Clara Nunes

Clara Nunes nasceu em 1942, em Minas Gerais, começou sua carreira se apresentando em programas de rádio e TV. Nessa época, cantava principalmente boleros, até que se aproximou da Umbanda e das escolas de samba do subúrbio do Rio de Janeiro. Na maior parte de sua vida, cantou sobre os orixás, a cultura africana muito viva em nosso país, a Portela e o mar. Suas músicas têm o gosto do carnaval e da alegria, que é um modo de ser forte apesar de qualquer desamor ou dificuldade.

martnalia

Mart’nália

Para Mart’nália o samba também vem de berço. Ela nasceu em Pilares e desde pequena acompanha seus pais, Martinho da Vila e Anália Mendonça (também cantora), nas rodas de samba da Zona Norte do Rio de Janeiro. Por essa vivência tão precoce e intensa, ela faz samba com naturalidade de muitas formas: canta, compõe, dança, toca violão e percussão. Como percussionista, Martn’ália tocou com músicos da MPB, como Ivan Lins, e também na bateria da escola de samba de Vila Isabel. Sua experiência com a música é, portanto, muito rica e diversa, o que reflete em sua carreira solo que mistura diferentes tipos de sons e informações. O samba de Mart’nália parece que sai pelos poros, seu ritmo e sua voz não precisam de esforço, são de uma malemolência adquirida naturalmente como seu sotaque carioca.

beth carvalho

Beth Carvalho

Nasceu em 1946, no Rio de Janeiro, outra que também que cresceu dentro do samba, com mãe, avó e amigos dos pais, todos sambistas, cantando e encantando seus ouvidos desde novinha. E foi quando ganhou um violão de sua mãe que decidiu: era a carreira artística o que iria seguir. Porém, como se encontrava inicialmente no mundo da bossa nova, foi começar a trabalhar com o  samba de maneira fixa só em 1966, onde participava de shows e festivais. Em 1968, no Festival Internacional da Canção, ganhou fama pelo país todo. É considerada a madrinha do samba, por revelar e resgatar grandes nomes do samba, como Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, entre outros. Beth sempre teve muita confiança no samba e nos sambistas que conhecia e, por isso, nunca desistiu, incentivando e apoiando seus colegas. Até hoje Beth é um sinônimo de dedicação e inspiração e, claro, de inovação, acrescentando novos instrumentos e técnicas nas suas composições.

roberta sa

Roberta Sá

Roberta, uma das mais novinhas (mas não menos importante!), com seus 33 anos canta e encanta. Pra quem não lembra, em 2002 participou do programa Fama, que não acabou dando muito certo. Foi eliminada, mas isso não a impediu de continuar, pois conheceu muita gente que a ajudou a se preparar e crescer dentro do samba, a evoluir sua arte da maneira que a agradava e agradava seu público.  Foi então que não parou mais. Regravou grandes sucessos, inclusive a abertura de uma novela, e continua crescendo. Seu último disco “Segunda Pele” lançado em 2011 está com mais de 35.000 cópias vendidas.

elza soares

Elza Soares

Elza nasceu em 1937, em Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Teve uma vida sofrida e passou por enormes dificuldades até começar sua carreira em um programa de calouros. Sua voz rouca revela essa  trajetória árdua que a tornou uma mulher imbatível. Hoje, depois de ter sobrevivido à miséria, ela é conhecida internacionalmente e eleita como a cantora do milênio pela BBC de Londres. Neste programa, ela mesma conta alguns episódios de sua vida entre algumas canções.

Quer ouvir mais?

Mulheres do samba from capitolina on 8tracks Radio.

Paula Gomes
  • Colaboradora de Artes

Um dia quase Luisa, agora e para sempre Paula Gomes, só Paula, 18 anos, uma criançona, sabe nada da vida. Ah, sou de Sampa, Sampa da fria garoa, das ruas coloridas e da gente boa. Me arrasto pelos palcos e pelas bibliotecas, só finjo saber algumas coisas. Só não perco a cabeça porque fotografei ou escrevi e às vezes brinco de ser qualquer coisa. Tem números? Não sei! Como é isso em palavras? Dá pra soletrar? Seria até melhor se desenhasse, viu. Mas no final a gente resolve tudo com um sorriso e um abraço (só um não, né). :)

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Patricia Cunha

    Gente, esse texto foi feito pra mim (desculpa, roubei) haha! Principalmente esse parágrafo: “E ainda assim, eu cresci numa época onde era uma vergonha gostar de uma coisa tão bonita e bem feita, por ser dita como “vulgar” (e outros preconceitos). Crianças da minha idade morriam de vergonha de ter nascido aqui, das coisas que aqui se originaram, e nem sabiam ao certo o porquê. Bonito era gostar das coisas que viam de fora, o pop, o rock e afins (mas, bom, isso é definitivamente um assunto pra outro texto).”
    Atualmente eu moro em Dublin (sou amiga da Nicole – que faz as receitas mais lindas daqui) e eu sempre converso sobre isso com ela. Eu sou popular, haha, amo samba, fui criada assim, pulo na cadeira quando ouço o batuque e sou apaixonada por todas essas cantoras que você falou (estou inclusive ouvindo Clara Nunes agora). Adorei seu texto, estou compartilhando e preciso dizer que, mesmo em outro país, eu achei o samba aqui e fiquei bem feliz! =)

  • Juliane Ribeiro ? ?

    Poxa e a minha favorita ? Maria Rita <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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