9 de março de 2015 | Cinema & TV | Texto: e | Ilustração: Gabriela Sakata
Música: Beyoncé
Ilustração por Gabriela Sakata

Agosto de 2014, MTV Music Awards. Beyoncé canta “Flawless”, com transmissão ao vivo em rede nacional americana; atrás de sua silhueta, a palavra feminist parece em destaque em um grande telão preto. A apresentação no VMA foi o ato final de um longo processo onde Beyoncé se assumiu feminista.
A valorização da mulher no trabalho da cantora não começou com a apresentação na premiação e tampouco com seu último álbum, Beyoncé, lançado em dezembro de 2013.
Desde os seus primeiros anos como profissional com o grupo Destiny’s Child, Beyoncé já cantava sobre liberdade sexual, independência e empoderamento feminino.
A mudança gradual da percepção da cantora com relação ao feminismo foi pública; em 2010, Beyoncé declarou-se “um pouco feminista”, no início de 2013 ela identificava-se como uma “feminista moderna”, finalmente, com o lançamento de Beyoncé em dezembro de 2013, ela abraçou o movimento, diferente de muitas artistas de sua geração que temem a palavra, Beyoncé se assumiu feminista.

Em “Pretty Hurts”, ela canta sobre a pressão que as mulheres sofrem para se encaixarem em padrões sociais. Beyoncé critica a cultura em que ela está inserida; a cantora convive, desde a infância, com a pressão para tornar-se a personificação de um ideal feminino. Ela sabe quão opressora é a perfeição para mulheres porque, pelo menos publicamente, ela não pode cometer erros; como muitas outras artistas, Queen B é obrigada a cultivar uma imagem perfeita para evitar o massacre da mídia. “Pretty Hurts” é uma canção de libertação para ela e para muitas outras mulheres.

“Blow” valoriza sua sexualidade. Apesar de críticas conservadoras ao erotismo em suas canções, Beyoncé não se deixou oprimir e sempre demonstrou ter controle sobre sua vida sexual; argumentar que a sensualidade dela invalida seu feminismo é o equivalente a reprimir a sexualidade feminina.

Com “Who Run the World” ela defende o empoderamento feminimo. Beyoncé, porém, sabe que a igualdade de gêneros ainda está muito longe de ser alcançada. Em seu artigo intitulado “Gender Equality is a Myth!” ela escreve:
“Temos de ensinar aos nossos filhos sobre as regras da igualdade e respeito e, quando crescerem, a igualdade de gêneros seja algo natural. E temos de ensinar às nossas filhas que elas podem chegar tão longe como qualquer ser humano. Temos muito trabalho a fazer, mas podemos chegar lá se trabalharmos juntos. As mulheres representam mais de 50% da população e mais de 50% dos eleitores. Devemos receber 100% de oportunidades.”

Mais do que um ícone feminista, ela é também uma importante e poderosa mulher negra.

Em todos os seus trabalhos faz questão de celebrar e exaltar o amor próprio, e fazendo isso, inspira garotas negras que lutam todos os dias para se acharem bonitas porque, infelizmente, ainda estão inseridas em uma sociedade racista, que dita o padrão branco como o ideal a ser conquistado. Sua arte está repleta de representatividade. Conseguimos nos perceber e nos ver em cada canto de suas apresentações.

Mesmo sendo uma das mais bem-sucedidas artistas dos últimos anos, ela ainda precisa exigir reconhecimento, e acredito que é isso que esteja fazendo, por exemplo, em “Flawless”. Está pedindo que uma sociedade racista e misógina se curve a seu poder e ao seu trabalho enquanto mulher afro-americana.

Quem acompanha a sua trajetória sabe que ela sempre frisou que, desde pequena, foi ensinada, principalmente por seu pai, a dar tudo de si, a trabalhar e se esforçar mais do que qualquer um, porque é assim que ainda funciona para as pessoas negras.

Ela sabe que representatividade importa. Ligar a TV, ouvir o rádio, abrir uma revista e ver que a artista mais importante da década é uma mulher negra nos ajuda – e muito – na construção positiva de nossa autoestima.

Para ser ainda mais clara, darei um exemplo do quanto ela é um ícone importante para a população negra. No Behind the Scenes de sua apresentação no Grammy de 2015, onde cantou “Precious Lord, Take my hand” como parte da homenagem ao filme Selma – Uma Luta pela Igualdade (Selma, 2014), que fala sobre a trajetória de Martin Luther King, pastor e militante pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, ela diz:

“Meus avós marcharam com Martin Luther King. Meu pai fez parte da primeira geração de negros que frequentaram uma escola só para brancos. E, por isso, ele cresceu com vários traumas, que surgiram através dessas experiências. Sinto que agora eu posso cantar a sua dor. Sinto que posso cantar as dores dos meus avós. Sinto que posso cantar a dor das famílias que perderam seus filhos.”

Ao se apresentar no palco do maior evento da música no mundo, cercada de homens negros, enquanto os Estados Unidos ainda se recuperam dos brutais assassinatos de jovens negros cometidos pela polícia americana, ela ajudou a gritar a nossa dor, numa espécie de oração pelo fim do genocídio de nosso povo, e como forma de falar “ei, estamos aqui, nós somos importantes e seguiremos em busca de justiça’’. Black lives matter.

Giulia Fernandes
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

Giulia Fernandes, 17 anos, Rio de Janeiro, estudante. Meus interesses são: film noir, batons roxos, criptozoologia, árvores centenárias, garimpar livros e LPs, colecionar caracóis e algumas vezes outras coisas também.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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