26 de junho de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Música de mulherzinha sim, e daí?

Eu comecei a me interessar por um tipo específico de música quando eu tinha uns 11 anos. Naquela época, eu escutava de tudo um pouco e não me importava com os rótulos que eu pudesse ganhar ao longo do tempo, afinal de contas era só música,  não é mesmo? Bom, eu estava enganada. Ao ver o primeiro clipe da Avril Lavigne, “Complicated”, eu achei aquilo tudo demais: a Avril se vestia como uma “sk8ter”, usava gravatas, pulseiras com spikes, maquiagem pesada nos olhos e parecia negar tudo aquilo que é considerado como “feminino”.

 

Ela tinha atitude, ela era aceita entre os meninos, ela zombava das outras meninas por elas serem “menininhas demais”, ela andava de skate, ela era demais. Eu queria ser como ela. E para ser como ela, eu teria que mudar, porque obviamente eu era “menininha” demais e não me encaixava no estilo da Avril, que era “um dos caras”. Durante muito tempo deixei de escutar música pop, e mesmo Avril Lavigne sendo pop, era tida como “roqueira”, e isso podia. Mas ouvir Britney Spears não. A Britney possuía todas as características contrárias à Avril, assim como várias outras cantoras pop da categoria que chamarei aqui de “mulherzinha”: as que têm melodias dançantes, usam elementos culturalmente estabelecidos como femininos, letras muito emotivas, aparência de frágil ou sensual que conquista com seu corpo o olhar masculino.

 

Por mais que a Avril fosse lida como uma “roqueira” por muitas meninas, pelos meninos ela era vista ainda assim como “mulherzinha”. Sabe por que? Porque mesmo pertencendo aquele mundo do skate e dos homens, ela não era um menino no fim das contas. Ela era mulher, sempre seria. E isso nunca tiraria o status da sua música de “ música de mulherzinha”, por mais que ela negasse isso na sua aparência e atitude.

 

Concluí esse meu raciocínio de que as mulheres sempre eram vistas como inferiores no mundo da música pop/rock quando percebi que muitos achavam músicas e álbuns feitos por mulheres ruins, bobos, infantis, pop demais ou que era cópia de alguma coisa que já tinham ouvido. O preconceito com música feita por mulheres é tanto, que é muito difícil encontrar homens héteros que digam que são fãs ou admiram o trabalho de alguma cantora ou banda de mulheres. Normalmente, o público dessas artistas se limita às meninas e os homens gays, podendo citar aqui como exemplo a Lady Gaga e Beyoncé.

 

Raramente você verá algum homem hétero aclamar o trabalho de alguma dessas artistas: quantos homens você já viu elogiarem o trabalho da Beyoncé ao invés do de Kanye West? Não é só pelo fato da Beyoncé ser mulher, mas por cantar música considerada como pop.

 

Muitas pessoas não gostam de dizer que escutam música pop justamente por ser um gênero musical que muitos entendem ser dominado pelas mulheres. É mais fácil para uma mulher fazer sucesso no pop do que no rock, pois a música pop acolhe as mulheres de maneira mais branda. Tudo bem que sempre há críticas, mas é bem mais difícil achar cantoras/ bandas de mulheres fazendo sucesso tanto quanto bandas/cantores homens no meio do rock, por exemplo. Não adianta a mulher tocar tão bem ou melhor que um homem, pois ela sempre será vista como “alguém que faz música de mulherzinha”, “que toca mal como uma mulher”, que “canta com uma voz de menininha”, que “finge ser algo que não é”. E isso se extende a várias outras áreas, como produtoras de música (quantas você conhece que são aclamadas?), cinema, artes, e por aí vai, como já falamos sobre aqui

 

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É por esse motivo que hoje eu não nego que escuto música pop: não me importo se alguém no final vai me rotular como “mulherzinha”. Qual o problema? Se isso antes soava como uma ofensa, já não é mais. Mulherzinha sim, mas com a mesma capacidade de produzir algo tão bom quanto qualquer homem. E não é esse rótulo bobo e antiquado que vai me impedir de ouvir minhas músicas ou dizer para vocês não se limitarem à estilos musicais simplesmente por ser rotulado como eu já mesmo disse, “música de mulherzinha”. Ninguém sai por aí chamando as músicas dos outros de “coisa de hominho” né?

Isadora M.
  • Coordenadora de Ilustração
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora

Isadora Maríllia, 1992. Entre suas paixões estão: Cookie Monster, doces, histórias de espiãs (como Harriet The Spy e Veronica Mars), gatos e glitter. No entanto, detesta bombom de abacaxi e frutas cristalizadas.

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