30 de abril de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Nada é por acaso: o racismo nos clássicos da literatura brasileira

 O que é um clássico?

Muitas vezes o conceito de livro “clássico” no sentido de “essencial”, que deve ser lido por todos, está ligado à literatura hegemônica. Temos lá: escritores brancos, com personagens brancos escrevendo para um público branco. Óbvio que existem exceções: Machado de Assis, por exemplo, era um autor negro que se tornou cânone. Mas depender dessas exceções para ter um pouco de representatividade não é nada legal, certo?

Aliás, cânone é uma palavrinha esquisita que já diz muito sobre o que queremos discutir.  Ela deriva do grego kanón, uma varinha de madeira usada como padrão de medida. Ou seja, os cânones definem para nós o que é considerado “bom” e o que é considerado “ruim”.

O grande problema é que esquecem de nos avisar que algo só pode ser bom ou ruim relativamente a um ângulo específico (uma “vara”) e por usarmos esse prisma há tanto tempo ele parece natural. Há inúmeros hábitos que passam pelo mesmo processo sem nos darmos conta.

Pausa dramática: Você sabia que nem sempre o arroz com feijão foi o prato mais popular para os brasileiros, por exemplo? Parece doidinho usar esse exemplo, mas é só pra dizer: coisas que são comuns para nós hoje foram construídas durante muito, muito tempo e mudaram outras tantas vezes.

Pensando nisso (e voltando para a literatura, rs), imaginar que os parâmetros de toda a história da humanidade culminam na Europa e apenas escritos europeus (ou que recorrem aos seus moldes) têm “qualidade” e por isso devem ser estudados é bastante racista, redutor e triste.

A escola brasileira também tem um currículo quase que de uma cor só (a branca!) e apesar dos esforços pela diversidade (amparados inclusive em lei) continuamos a estudar a literatura de uma perspectiva bastante europeia, deixando a cultura popular para uma margem folclórica muitas vezes reduzida ao ponto de só sobrar o “exotismo”. Valorizamos a diversidade de personagens brancos e padronizamos as minorias.

E quando aquele livro que cai na prova, além de demonstrar apenas um ponto de vista, ainda tem conteúdo racista?

Infelizmente, isso não é raro. Olha esse trecho de A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães:

“Meu Deus! meu Deus!… já que tive a desgraça de nascer cativa, não era melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das negras, do que ter recebido do céu estes dotes, que só servem para amargurar-me a existência?”

A personagem (que de tão famosa, virou novela) é uma escravizada “quase branca”, símbolo da mestiçagem brasileira. Na época, uma galera da política, ciência, literatura e muitos setores da sociedade acreditavam que a miscigenação (embranquecimento, claro!) seria a única forma de trazer “progresso” ao país. No romance, Isaura é perseguida, humilhada, mas, para o narrador, ela não merece esses castigos. Ora, é uma “mulata quase branca”! O racismo contra ela é percebido como “maldade”, já que ela corresponde a todos os ideais da sociedade da época.  É como se o racismo pudesse, de fato, ser justificável em alguma circunstância. Não é.

Iracema, a “virgem dos lábios de mel” é representação dos povos indígenas de maneira romantizada: primitiva, infantilizada e subordinada ao homem branco. Sua vida não importa em nome de um “amor” que a suga por completo, literalmente. Iracema sofre, mas sua dor não significa nada. É tratada como necessária. Péssimas referências tanto pensando na estrutura psicológica da personagem quanto no que ela socialmente representa.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é outro exemplo de obra com construções racistas. O livro traz duas personagens negras altamente estereotipadas: Rita Baiana, a “mulata” hiperssexualizada, e Bertoleza, a mulher retinta, animalizada, humilhada. Ela é alegoria de um sem número de mulheres negras retratadas como o oposto cruel da “bela, recatada e do lar” ambicionada em pleno 2016: “Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante.” É a mulher que se expõe para o serviço e se esconde no relacionamento, a que não se deve amar…

A cena da morte de Bertoleza é uma das mais tristes de toda literatura brasileira:

“A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para, sem pestanejar. Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.”

A mestra em Literatura Brasileira e escritora <3 Conceição Evaristo <3  fala de forma mais profunda desse retrato aqui. É imperdível!

Mas, pera aí!  Você está dizendo que devemos parar de ler esses  livros?

Não. Não estou. Esses livros devem continuar circulando e a ser um registro de uma questão que estrutura a sociedade brasileira e traz sofrimento a tanta gente. Usar a literatura para compreender esse problema pode ser interessante. O que não é nada legal é incorporar esses estereótipos e transformar as pessoas negras em objetos planos. Ler essa literatura racista, sabendo que ela é racista. Ter senso crítico com o texto.

O caso mais famoso de racismo na literatura talvez seja o de Monteiro Lobato que além de ser nitidamente racista em seus livros chegou a defender ideias eugenistas (de pureza racial). Aqui está bem explicadinho pela maravilhosa Ana Maria Gonçalves.

As descrições pejorativas (“macaca”, “beiçuda” etc.) de personagens negros, como Tia Anastácia, atingem em cheio os leitores em formação. O que temos aí, se não houver debate adequado? Um prato cheio para crianças pertencentes a grupos minoritários terem sua autoestima duramente abalada e outras, as que correspondem à imagem dos heróis, propensas a estigmatizar o diferente.

Obvio que (repito!) esses livros não devem ser proibidos. Mas por que a insistência em negar o racismo existente nessas obras?  Por que continuar fazendo escolhas que ferem pessoas em um país tão diverso quando o nosso? Que tal usarmos Isaura para discutir colorismo? Que tal não naturalizarmos a animalização/estigmatização de pessoas negras e discutirmos o racismo nessa literatura em turmas com idade adequada para compreender essa complexidade?  Por que não ler literatura indígena produzida por povos indígenas? Volto a perguntar: O que é essencial? A quem essas escolhas privilegiam? Questionar é sempre importante.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

  • Rosa Correa da Silva

    Excelente. Muito bom você retomar a reflexão sobre Monteiro Lobato, pois, o setor do Movimento Negro e Educação inclusiva que analisam a sua obra para redistribuição nas escolas públicas, nunca fez projeto para proibir Monteiro Lobato nas escolas, mas, para crítica e como trabalhar o conteúdo, incluindo que o autor compartilhava simpatia pelas teorias eugenistas. Setores contrários às ações afirmativas começaram a fazer propaganda acusando o Movimento Negro de censura. É importante com seu ensaio, sugiro, também retomar o trabalho que este grupo está fazendo sobre a leitura crítica de Lobato pelos professores e alunos. Grata.

  • Gustavo Gollo

    Gostei 🙂

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  • Carolina

    Só uma correção, com relação ao trecho que vc fala de Iracema, “Sua vida não importa em nome de um ‘amor’ que a suga por completo, literalmente” – ela não é literalmente sugada, certo? 🙂 Beijos

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