7 de abril de 2015 | Edição #13 | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Não conte seu tempo

“O tempo não é dinheiro, o tempo é o tecido da nossa vida.”

Antonio Candido.

Para ler ouvindo:

 

Acontece de vez em quando, geralmente depois do almoço: de uma soneca despretensiosa, surgem sonhos que atravessam eras, duram meses; acordo assustada, crente que perdi a hora, mas foram apenas quinze minutos. Esse é só um delicioso exemplo de como o tempo é uma parada louca e elástica que ninguém sabe muito bem como definir. Esses dias, vi em um livro “tempo = vida”, concordei. Assim como a vida, ninguém sabe onde começa e termina o tempo; são como entidades que existem indiferentes às nossas pequeninas existências. De tão grandes e indomáveis, o tempo/vida assustam e nós precisamos inventar medidas, máquinas e fábulas para garantir um pouco de controle. Mas, no fim, não há relógio capaz de domar o tempo, não há história que possa contar ou prever o desenrolar de nossas vidas. Quando eu começo pode até ter uma data fixa, mas meu aniversário é só uma parte do meu nascimento. Ninguém sabe contar como foi o tempo dentro da barriga. Nos meus melhores dias, entendo que é preciso conviver com esses mistérios, não sou dona do tempo, nem de mim.

Os problemas começam quando as ideias correm como se tivessem vida própria.  Às vezes me apego a uma meta e enxergo tudo a partir disso. Nessas horas de obsessão, esqueço o que se relaciona e se transforma com o tempo, meu corpo, as coisas, o mundo. Paulinho da Viola canta com muita serenidade “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”; é esse o mantra que repito quando perco minha noção misteriosa do tempo e me afundo em uma correria sem sentido. Porque, infelizmente, a sabedoria das sonecas ainda não governa o mundo e precisamos de muitas coisas. As necessidades — as de verdade, como ter uma casa, comida e saúde, e as inventadas que não são, por isso, menos reais — se acumulam como listas infinitas. Nós somos jovens e, então, temos ainda mais urgência. As séries, filmes, revistas e amigos nos dizem o tempo inteiro que precisamos aproveitar enquanto ainda somos jovens. Aproveitar o tempo significa produzir o máximo possível, não deixar nenhuma brecha escapar, trabalhar, estudar, fazer muitas coisas, ter habilidades, um currículo incrível; mas também saber desfrutar das folgas, finais de semana precisam ser incríveis, festas, fotos, diversão, sem parar, porque o tempo não para. Daí vêm os planos e a afobação para acompanhar um ritmo que não é meu.

A correria movida pelo medo de perder tempo não é só minha, vejo por aí, entre meus amigos e conhecidos. Quando entro nessa ansiedade coletiva, sinto que nunca sou suficiente e preciso correr obstinadamente atrás do tempo, acumulando, medindo e comparando minhas experiências. É como brincar de batata quente com a própria existência, não dá pra ter calma, olhar bem, sentir do que é feita a bola em minhas mãos, é preciso continuar jogando o mais rápido possível para não se queimar, ainda que nada esteja pegando fogo. Às vezes, concentrados em nossas rotinas e perspectivas individuais, não enxergamos que nossas alegrias e tristezas estão atadas por linhas que nos ultrapassam. A verdade é que uma grande parte dos nossos desejos, experiências e possibilidades é influenciada por sistemas e planos. Aprendemos a medir nosso tempo antes mesmo de saber o que é um minuto; no momento em que vestimos um uniforme escolar, já estávamos dentro de uma linha de pensamento: Tempo é dinheiro. Assim, o sentido da vida parece delimitado e óbvio: nascer, se alimentar, crescer, se preparar, estudar, passar no vestibular, trabalhar, ganhar dinheiro, se reproduzir, ganhar ainda mais dinheiro e morrer. A partir dessa lógica, o tempo perde sua força elástica e se torna uma medida limitada.

Mas, é claro, a vida e o tempo são indomáveis e não funcionam assim. Por mais que nos imponham moldes e fórmulas, nós, humanos, sempre erramos o cálculo e nos deparamos com imprevistos — a fome, o sono, o desejo e tudo em nós que diz vontade. O que pode ser considerado um desperdício de tempo, um desvio ou um erro é justamente o que constitui nossa história. A sabedoria das sonecas me ensinou que o tempo não é um trajeto reto e certeiro, porque as vidas são experiências únicas: podemos dar voltas, parar, pegar atalhos, sonhar, nos perder ou simplesmente nos esquecer de nos achar. Quando abandonamos os cálculos e construímos nossas próprias medidas, o medo do desperdício desaparece, ficamos, enfim, convivendo com as coisas e o mundo.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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