27 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: | Ilustração: Laura Viana
Não dá pra viver só de universo paralelo
Direto do diário da Laura Viana.

Acho que um pouco antes de escolhermos o tema Universo para esse mês da revista, circulou pela internet uma notícia sobre o Stephen Hawking dando conselhos a meninas tristes com a saída de um membro da banda One Direction. “Dediquem-se ao estudo da física”, disse o renomado físico, “pois aí ficarão sabendo da existência de universos paralelos.” “Em um deles”, continuou, “Zayn ainda faz parte do One Direction…e em algum outro, ele é feliz e casado com você.”

A Laura, que sempre posta as coisas certas nos momentos certos (muitas Capitolinas têm esse dom, aparentemente), postou o link para esse texto no facebook numa certa madrugada em que eu não conseguia dormir. Não sabia quem vinha a ser tal Zayn Malik exatamente (desculpem, meninas), mas mesmo assim fiquei com aquilo na cabeça. Fui falar com ela.

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Parecia que aquelas palavras do sábio físico transformado em guru adolescente falavam a maior verdade de todas as galáxias. Na verdade, eu não estava conseguindo dormir justamente porque estava pensando nos mil e um cenários que as madrugadas tendem a inspirar. Cada uma com seu universo. Cada um possível ao mesmo tempo nesses lugares paralelos, era o consolo que ficava, diante da muito verdadeira sensação de que eu estava de novo me encaminhando para uma treta. Finalmente, dormi.

Acordei no dia seguinte curada da obsessão por outras dimensões. Confesso que, apesar da emoção do dia anterior, mal pensei nas palavras de encorajamento de Hawking. E saí por aí vivendo a vida, como a gente tende a fazer todo dia, até que começamos a discutir o tema e depois as pautas para a edição da Capitolina desse mês – e acabou caindo no meu colo o Universo Paralelo. Lembrei na hora do nosso amigo que dá palestras por holograma. E uma coisa meio louca aconteceu: comecei a achar desonesto o conselho dele.

Direto do diário da Laura Viana.

“Como você ousa duvidar do cara?”, dirão-me alguns. Pois bem, não duvido dele. Só acho que esse conselho sobre consolar-se com universos paralelos e suas possibilidades não funciona muito bem. Porque, no fim do dia, eles podem até existir… mas a gente tá nesse universo aqui. A não ser que também esteja em seus planos estudar um jeito de pular de um universos para outro, onde você vai poder de fato viver a realidade cuja existência tanto te conforta.

Não me entenda mal, sonhar faz bem. Também vivo de sonhos, sou motivada pelo impossível e acho importante tentar o tempo inteiro chegar no inalcançável – ainda mais na adolescência, quando todas as portas estão tão abertas e a vida parece um grande jogo de adivinhação. Mas temo que, ao focar-nos em tanto estudo sobre física, fiquemos demais na teoria e jamais partamos para o lado de fora da biblioteca, esperando que a vida nos aconteça para além do corredor de armários onde guardamos nossos pertences, apesar de estarmos paralisadas entre as estantes JHA-JJK e LLM-LSU. E isso não dá.

Um dia desses a Luiza escreveu que temos vergonha de ligar demais pras coisas. Acho que temos um tanto de medo também. Neura: exportamos aquilo que é possível para a dimensão do inatingível por medo e vergonha. Vergonha de deixar-se ser vulnerável e medo de sofrer. Sofrer o quê? Rejeição – seja do Zayn pelo One Direction, seja de quem for. Sou a primeira a assumir que tenho culpa nesse cartório. E acabamos numa maldita inação angustiante que nos deixa acordadas até altas horas da madrugada vendo links no facebook.

No fim disso tudo, fica o fato de que, nesse universo, não vamos nos casar com Zayn – nem eu, nem você (desculpa, mas as chances realmente são ínfimas… se acontecer, te dou um brownie), independente do quanto estudarmos física. Mas isso não deve nos causar pânico. Tem tanta coisa boa que pode acontecer, que podemos fazer acontecer, se pararmos de ter tanto medo e vergonha de demonstrar que somos humanas e temos sentimentos e vontades.

Não precisamos nos consolar com teorias de mundos possíveis quando podemos tomar as rédeas da situação e mudar o que está ao nosso alcance. Mas, para isso, me disse Carolina, com a propriedade de quem é pós-doutora no assunto, temos que deixar de ser represa. Eu completaria: temos que ser avalanche. Cabeça d’água. Tsunami.

E sabe onde avalanches, cabeças d’água e tsunamis acontecem, cara leitora? Aqui mesmo. Neste universo. Ele é todo nosso. Então vai e agarra ele para você. Deixa o Zayn pra lá, te garanto que vai ficar tudo bem.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

  • Kyõfu

    Esse texto veio a calhar para mim.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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