26 de julho de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Não deixe o blog morrer, não deixe o blog acabar

Nos últimos tempos, andei esbarrando mais vezes do que gostaria em posts sobre aquele aplicativo que é tipo um Tinder, só que levemente mais stalker. De repente, parecia que toda a minha lista de feeds tinha resolvido que conseguir descobrir, pelo seu celular, o nome do bonitinho que passou ao seu lado na rua era a inovação tecnológica mais surpreendente dos últimos tempos.

Acontece que aquilo não era amor, não era admiração, não era dica de amiga. Era conteúdo pago, publicidade. Era cilada. Como muita coisa do que tem sido produzida pelos blogs atualmente.

É claro que todo mundo tem que se sustentar nesse mundinho capitalista, e não tem como colocar os blogs sinceros que separam claramente o que é publicidade e o que não é no mesmo nível de escrotidão daqueles que fingem que é tudo conselho amigável. Mas não é esse o maior – ainda que seja um dos bem grandes – problema. O que incomoda de verdade é que parece cada vez mais difícil perceber o que diferencia um blog da mídia tradicional.

Sempre que abro uma Vogue, me vem uma angústia no fundo da alma. Começa pela capa, que parece ter a mesma cara todo mês. Depois, vem a tristeza de notar que, opa! paguei pra me venderem mais coisas: não é uma conta das mais fieis, já aviso, mas chuto que cerca de 60% do total das páginas seja publicidade clara, anúncio de verdade. Já outros 30% são publicidade escondida. E o que sobra – ou seja, uma migalhinha – é informação aproveitável. E olhe lá.

Assim, é bem triste notar que os blogs, que já foram um baita sopro de revitalização nesse pequeno mundo de gente que fala sobre moda, vêm reproduzindo a mesma fórmula. Não é raro ouvir sobre aquela blogueira famosinha que ganha valores com seis casas todo mês, e já existem agências encarregadas de ligar anunciantes à sites independentes. Ou seja, é realmente uma indústria imensa, e não dá pra ser ingênua a ponto de acreditar que tá todo mundo nisso só pra democratizar a imprensa de moda. Mas a questão é: entre a Vogue e o blogs que tentam ser a Vogue, só que sem todo o aparato técnico – bons fotógrafos, escritores minimamente competentes, acesso ilimitado a todas as coleções recém-lançadas -, por que diabos alguém optaria pela versão mais precária?

Então, ao construir a própria linha editorial em torno de um modelo já tão desgastado, as blogueiras caminham, mesmo que em seus bonitos Louboutins, rumo ao próprio fim. E bem rápido. Não sem motivo, muitas delas já não causam o mesmo impacto no mundo da moda como há uns cinco anos: nas últimas semanas de moda internacionais, a presença de blogueiras renomadas era bem menos notável, beirando a irrelevância, e a atenção dos que buscavam reviews e comentários sobre o que estava sendo mostrado nas passarelas andaram fazendo o caminho de volta para veículos em formatos mais tradicionais. Muitas blogueiras, inclusive, andaram digievoluindo para coisas mais próximas dos modelos mais tradicionais de portais de notícias, como o Man Repeller, nos EUA, ou o Petiscos, por aqui mesmo.

Isso quer dizer, então, que a mídia convencional sempre foi a saída?

Nunquinha. Afinal, não é a toa que o jornalismo-corporação também não anda muito bem das pernas. O negócio está, na verdade, justamente em correr o mais longe possível desse modelo – como muita gente, tipo a incrível Tavi ou até mesmo um pessoal menos subversivo, como os Bryanboys que existem por aí, já andaram fazendo muito bem – e retomar a ideia de produzir informação que se diferencie do editorial comum por uma coisa bem menos absurda de se conseguir que um carregamento de roupas Prada: personalidade. A gente só queria que vocês voltassem a ser legais, sabe?

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Maria Luiza Neves

    Todos os blogs que conheço e cujas blogueiras conhecem uma a outra estavam comentando sobre o tal app. Sério, vamos limitar as páginas da internet a isso? Sem contar o número de blogueiras que migrou para o YouTube e não conseguem produzir um post sem adicionar um vídeo junto. Se estou ali no blog, estou para ler, para conhecer a rotina da blogueira, o que a inspira. Postagens patrocinadas são uma realidade para aquelas que vivem desse tipo de plataforma, mas nós, como leitoras, queremos pelo menos uma postagem que não seja sobre isso. Será que é tão difícil? Será que vale a pena dar valor comercial para cada postagem só pra poder comprar o creme daquela marca famosa? Poxa, pensem nas leitoras: nós queremos conteúdo de qualidade; se quiséssemos propagandas, ligaríamos a TV. E se disserem “ah, migrem para outro blog”, estarão atirando no próprio pé. Uma mensagem sem um receptor é algo inútil, apenas reflitam.

  • http://revistapolen.com Revista Pólen

    O mundo seria bem melhor se todos seguíssemos a Tavi como exemplo de pessoa maravilhosa. Adorei o post 🙂

    – Lorena

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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