26 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Não deixe que o que você ama te mate: como canalizar sentimentos de forma não destrutiva
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Nos cantos motivacionais da internet, uma das frases que vejo aparecer sempre é “find what you love and let it kill you“, livremente traduzida para “encontre o que você ama e deixe que te mate”, geralmente no contexto de te motivar a criar algo com todo seu coração, a encontrar sua verdadeira paixão criativa-profissional, a deixar que sua criação te consuma, te destrua, te deixe esgotado e vazio. Eu provavelmente já rebloguei/retwittei/re-o-que-quer-que-seja essa frase em algum ponto da minha vida, porque nos momentos de desespero, quando você acha que já tem algo (que você não ama) te comendo por dentro, é bem melhor pensar em se destruir por algo importante pra você; é por isso que, enquanto estava mais deprimida, eu escrevia como se aquilo fosse minha salvação e minha maldição ao mesmo tempo, como se eu estivesse arrancando tudo que existia dentro de mim e jogando no papel, como se eu tivesse encontrado o que eu amo e deixado que me matasse.

O problema dessa mentalidade de que o que você ama deve te consumir, de que, no desespero, o escape também precisa te esgotar, é que o foco é unicamente na destruição. Você está se sentindo destruída e o único caminho parece ser se destruir ainda mais, você sente dor e acha que o caminho é amputar o que sente em vez de curar; e eu entendo, entendo mesmo, porque já me senti assim (porque às vezes ainda me sinto), mas o processo de sair de uma lógica de destruição e me encaminhar para uma lógica de construção foi uma mudança de perspectiva tão enorme e saudável para mim que eu realmente não podia deixar de compartilhar com vocês nessa pauta.

Eu falo sobre escrever porque é como eu crio, mas talvez para você a criação seja diferente – artes plásticas, dança, música, tecnologia, projetos pessoais, projetos colaborativos, qualquer coisa, mesmo. O que importa é que a canalização do que você sente, do medo, da crise, do que está te consumindo, seja construtiva e não destrutiva – o que importa é que aquilo seja um processo de cura e não de eutanásia.

Mais para o final do ano passado, eu tive uma grande crise pessoal/profissional/criativa (tudo junto, na verdade, porque essa separação pessoal-profissional-criativa não existe muito na forma como vivo minha vida, o que também é um problema). Chorei, esperneei, parei e não soube mais para onde ir, porque alguns caminhos que eu trilhava não pareciam mais os melhores caminhos, porque algumas decisões que eu tomara não pareciam mais as melhores decisões, mas não existe voltar e fazer as coisas de novo então eu precisava seguir em frente de alguma forma. A vontade de (metaforicamente) queimar tudo e me queimar junto foi grande por um momento – destruir, começar do zero, não só projetos, mas a vida, assim, no geral.

Arranjei uma máquina do tempo só para descobrir a verdade decepcionante: não importa aonde eu vá, lá estou.

Arranjei uma máquina do tempo só para descobrir a verdade decepcionante: não importa aonde eu vá, lá estou.

Em vez disso, me permiti ficar mal por um tempinho, dar ataque, encher o saco das amigas, e, passado o pior, usar minhas energias para outras coisas: escrevi textos, entrei em contato com pessoas para começar projetos interessantes, criei e construí; fiz questão de usar minhas forças para incentivar coisas positivas, para acrescentar e somar, não para me afogar num poço de raiva, desespero e destruição. Queria, com este texto, conseguir transmitir para vocês um passo a passo simples, direto e objetivo, um tutorial de como se construir e não se destruir, mas, como quase tudo na vida, na verdade é mais e menos simples do que parece: a base é só uma mudança de perspectiva e aquele velho clichê, o equilíbrio.

Então, da próxima vez em que estiver sentindo algo com muita intensidade, algo que precisa botar para fora, canalizar de alguma forma, meu conselho é o seguinte: em vez de pensar no que fazer para queimar, esmagar, arrancar o sentimento, experimente jogá-lo para o outro lado da equação e pense no que ele pode construir.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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