6 de outubro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
“Não foi bem isso!” – Do “cabelo ruim” ao empoderamento da mulher negra

Nesta semana nos deparamos com a imagem de uma reportagem da revista Atrevida sendo amplamente divulgada no Facebook e demais redes sociais, em que integrantes da banda FLY BR deram sua triste e racista opinião, durante uma entrevista de janeiro de 2015, quando perguntados sobre o uso de tranças por mulheres. Como se já não bastasse homem dar pitaco no que mulher deve usar ou não, fazer ou não no cabelo, o pitaco dado ainda é criminoso (sim, mesmo que muitos pareçam ainda não saber, em pleno 2015, racismo é crime). Mas por que isso é tão difícil de ser admitido e discutido?

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 Difícil saber se a pior parte desse relato é a utilização do termo “cabelo ruim” para falar de cabelos crespos, ou o “[Todos riem]” no final. Péssimo dia para se saber ler!

Após a repercussão da entrevista dos meninos da banda, a revista Atrevida publicou uma nota de desculpas (ou tentativa), na sua página do Facebook, às leitoras que se sentiram ofendidas pelo comentário. No entanto, tudo que ela fez foi se contradizer, já que, apesar de admitir não compactuar com discriminações, a mesma não assumiu em momento algum o erro cometido, e pior ainda, tentou encobrir com uma desculpa de “bad hair day” o que suas leitoras, felizmente, não deixaram passar.

“Nossas leitoras sabem que temos como lema o ‘Você é única’ e sempre buscamos incentivar e estimular o empoderamento das garotas com matérias que reforcem a autoestima de cada uma e celebrem o fato de elas serem únicas e tenham orgulho das suas características pessoais e intransferíveis”. (Página Oficial da Revista Atrevida, 6 de Outubro de 2015)

Nós, mulheres negras, então, podemos aceitar que nos enganamos, que estamos exagerando e que devíamos acreditar que tudo não passou de um mal-entendido, tentando ver pela perspectiva “correta” que as palavras quiseram passar. Então a nota de explicação publicada na página da revista diz que o “cabelo ruim” NÃO é uma referência a cabelo afro, mas, sim ao bad hair day. Se seguirmos essa lógica, o meu cabelo, assim como o de milhares de mulheres crespas e negras, está passando por um “dia ruim” desde o momento em que viemos ao mundo. Difícil ter cabelo crespo, né? Não!

O que esse episódio pode nos mostrar, enchendo o coração, cachos, black powers e tranças de diversas meninas de alegria e poder, é que comentários machistas e racistas como este não passarão despercebidos. As adolescentes de 2015 não são as mesmas de anos atrás, não permitem mais que homens digam como elas devem se vestir, arrumar o cabelo ou se comportar.

O grande problema de comentários de ódio racial, exemplificado em termos como “macaco”, “encardido”, ou “cabelo ruim” – utilizado pelo Caíque Gama -, é que quando as pessoas utilizam expressões como essas e deixam transparecer seu racismo, elas tentam justificar que “Não foi bem isso que eu quis dizer”, “Mas tudo é racismo para vocês!”, “Não é bem assim!”, “Você esta levando para o lado pessoal.”

Por que é tão difícil admitirmos que somos racistas? Admitir que foi cometido um erro? Qual a dificuldade em se desculpar? Por que parece ser mais fácil arrumar uma explicação para um erro e tentar fazer com que o oprimido ou a pessoa ofendida em questão sinta que está “exagerando”, que “não é tudo isso”, que “foi um erro de interpretação”? Será que é porque ao admitirmos um erro, admitimos também que devemos mudar?

Talvez esse seja o maior desafio quando tratamos de racismo. O ser racista é uma construção da nossa sociedade que dita estilo e padrões europeus há anos, que nós negros e, principalmente, nós mulheres negras, tentamos seguir e nos adaptar ao longo desse tempo, e é difícil aceitar que não está tudo bem você seguir impondo esses padrões e reproduzindo essas ideias. Mas a partir do momento que você percebe que está cometendo um erro ao disseminar um pensamento de ódio racial, o primeiro passo para que ele seja desfeito é admitir que errou, ouvir a pessoa com quem errou, se desculpar e [re]construir suas ideias e opiniões, que apesar de ser um trabalho de formiguinha, nos dá resultados gigantes.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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