9 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: and | Ilustração: Natália Schiavon
Não foi Cabral

Nós crescemos sendo ensinadas nas aulas de história do Brasil sobre como o nosso país foi descoberto e povoado por portugueses. Nossos professores explicam que, ao chegar aqui, os europeus descobriram que as nossas terras tinham matérias-primas valiosas e, por isso, decidiram que seria uma boa ideia ficar por aqui mesmo, colhendo todo tipo de riqueza natural e mandando para sua terra natal, que na época era uma superpotência. Já que nenhum tipo de civilização parecia habitar aqueles solos férteis, por que não aproveitar, certo?
Errado.

Apesar do fato ser vagamente mencionado nessa parte da história, esta terra desconhecida pelos europeus era, sim, habitada. Quando chegaram aqui, por terem encontrado florestas inteiras intactas e nenhum sinal de civilização como a do seu país, os portugueses deduziram que esta era uma terra nunca antes explorada. Pouco tempo depois fizeram a verdadeira descoberta: povos indígenas, que não só falavam uma língua própria, como também tinham vestimentas, costumes e crenças nunca antes vistas em Portugal.

Na carta que foi enviada ao rei assim que a tripulação chegou ao Brasil, Pero Vaz de Caminha, o encarregado de documentar por escrito tudo o que aconteceria desde que os navios partissem de Portugal, diz que a interação entre os portugueses e os índios foi pacífica. E foi isso que aprendemos ao longo de anos, acreditando que fomos de certa forma “salvos da ignorância” pelos bondosos europeus, que ao chegarem nessas bandas, nos ensinaram não apenas a sua língua, mas também nos deram um Deus em que acreditar e decidiram que nomes deveríamos ter.

A verdade por trás da história que escutamos na escola não é fácil de reproduzir, por isso a maioria escolhe deixar de lado. Mas, ao contrário do que se imagina, os povos que aqui viviam – indígenas e negros – não eram burros, muito menos poucos. A vivência que tinham era apenas diferente da experiência dos portugueses, e por isso, estes a invalidaram.

Os anos que se passaram após a descoberta do Brasil, ao contrário do que se conta, não foram anos pacíficos, de belas interações entre colonizadores e colonizados e moças ingênuas se apaixonando por portugueses, dando origem ao que somos hoje. Os homens que seguiram em expedição para povoar nossas terras, por exemplo, não foram exatamente os salvadores que somos levados a imaginar. O objetivo era apenas um: povoar para que a realeza portuguesa não perdesse seus direitos sobre as terras. Tribos inteiras foram dizimadas e várias indígenas, estupradas.

E percebemos que tem muita história mal contada quando comparamos com outras realidades: a quilombola e estudante de fisioterapia, Queila Alves, 23 anos, conta que quando deixou a escola do Quilombo do Campinho da Independência, o primeiro a ter suas terras tituladas do estado do Rio de Janeiro, notou uma diferença gigantesca: “No quilombo sempre se prezou muito a questão da preservação cultural e histórica, e era outro tipo de literatura utilizada no ensino. Princesa Isabel foi apenas a mulher que assinou a lei Áurea. Zumbi e Dandara foram os guerreiros que lutaram pela libertação de nosso povo. Já no CIEP foram as mesmas histórias dos livros grossos de sempre. O negro trazido como escravo, o Brasil colonizado, os índios que sumiram da história.”

Gabriela Barreto, estudante de direito na UFRJ, também critica a forma como a história é contada (e modificada) por aí: “Tinha muito professor que falava que éramos considerados membros da família pelos senhores (QUÊ??) e nada nos faltava; éramos da família.”

A reprodução de uma história traz muitos perigos, conforme nos explica Chimamanda Adichie na sua palestra The Danger of a Single Story (O perigo de uma história única). Um deles é que o racismo é tanto estrutural quanto estruturante: isso significa que, infelizmente, o próprio sistema educacional tem colaborado para formar pessoas despreparadas para o propósito de equidade (julgamento justo) nas relações étnico-raciais.

Tentando mudar isso, em 2001, o Brasil participou da “III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata”, que aconteceu em Durban, na África do Sul. Lá, o país se comprometeu a implantar políticas para a promoção da igualdade da população negra e dos povos indígenas. As ações afirmativas, por exemplo, foram uma resposta a essa necessidade e à pressão do movimento social. A lei 10639/03 e, depois, a 11645/08 também fizeram parte desse conjunto de ações. Elas buscam atender ao tópico do acordo que pede aos países participantes para “(…) promoverem a plena e exata inclusão da história e da contribuição dos africanos e afrodescendentes no currículo educacional”.

Como assim? Então, a lei 10639/03, introduz no regulamento da educação (pública e privada), a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), artigos que preveem a mudança da posição central (e supostamente neutra!) da cultura europeia nos currículos escolares. A lei de 2008 (11.645), basicamente amplia as medidas da primeira para as culturas indígenas.

Nota: As visões africanas/afro-brasileiras e dos povos indígenas devem ser incluídas no núcleo da educação e na forma como ela é construída! Nada de exotismo ou atividades descontextualizadas no 13 de maio, 19 de abril ou 20 de novembro! Os saberes desses povos devem ser base em todas as disciplinas. De química à filosofia!

Essa é uma mudança bastante importante para todos os níveis do ensino brasileiro e, essencial para a melhora do conhecimento de populações marginalizadas sobre si mesmas e da valorização desses grupos em toda a sociedade.

Recentemente, a maravilhosa MC Carol também trouxe essas questões para a grande mídia. Na música “Não foi Cabral”, a funkeira usa seus versos contundentes para problematizar esse tipo de reprodução que não serve à educação plena.

Por o Brasil ser um país tão grande e de cultura tão ampla, nossa história não pode ser resumida a apenas um lado da moeda. MC Carol entendeu. Vamos todos também?

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

  • Helena Zelic

    texto incrível, arrasaram, meninas!

  • nina

    amei!

  • Mayara Teixeira

    Texto maravilhoso! É isso mesmo. A didática brasileira é terrível no quesito história, é bom ver mulheres como a MC Carol e as autoras desse texto pensando diferente! É nois! (PS: esse é um dos motivos pelo quais eu quero cursar História).

  • heartsugarcubes

    nossa, disse tudo!!! texto maravilhoso.

  • Pingback: A linguagem através das gerações — Capitolina()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos