9 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Marina Sader
Não me mande abaixar meu tom!

Em tempos de PL5069/13, de bancada evangélica e conservadora avançando no poder e de páginas feministas sendo derrubadas no Facebook, fica muito explícita a importância da garantia de algo que deveria ser nosso, de um direito que deveria ser básico: a nossa voz, a possibilidade de falarmos por nós mesmas e sermos ouvidas.

“Não precisa gritar, fica calma” / “Você está nervosa?” / “Mas pra que tanta agressividade?” / “Assim você perde a razão.” / “Não precisa ser tão radical!” / “Mulher é assim mesmo, menos racional, já sai falando alto.”

Historicamente, a voz das mulheres é silenciada. Nas cidades gregas o “espaço da democracia” era a ágora — local de encontro, de decisão política, de construção efetiva daquela sociedade. Porém, a tal da democracia tinha seus limites e mulheres, escravos e imigrantes não podiam estar naquele lugar e, consequentemente, participar dos processos de decisão. Dando alguns saltos históricos, 1879 foi o ano em que se decretou no Brasil a possibilidade da presença feminina no Ensino Superior (entendendo aqui o recorte racial e de classe, afinal, esse decreto obviamente só contemplava mulheres brancas e ricas), só em 1932 alcançamos o direito ao voto e, nesse momento, ainda havia restrições — só dois anos mais tarde todas as mulheres tiveram esse direito. As mulheres estiveram e, muitas ainda estão, submetidas aos seus maridos e não conseguem ter independência para pensar, falar ou fazer o que bem entendem. Nossa voz vira silêncio.

Culturalmente, se espera que a mulher seja sensível e delicada, exerça as funções domésticas e… fale baixo. Em casa, no espaço educacional, no trabalho, na mesa do bar ou do jantar… Pelo pai, namorado, amigo, colega, chefe ou desconhecido… Quem nunca foi interrompida no meio de uma frase? Quem nunca falou sobre um fato e não obteve muita reação, mas ouviu um homem falar exatamente o mesmo e ser ovacionado? Quem nunca abaixou a cabeça quando recebeu um grito? Afinal, além de esperarem que sejamos assim, quietas, fomos ensinadas dessa forma. Temos medo, insegurança.

Podemos entender, então, a voz tendo dois aspectos diferentes. Um deles sendo o que sai do nosso corpo, o nosso tom de voz, o ato de falar. E o outro em sentido metafórico, sendo a voz das mulheres (ou qualquer outro grupo oprimido), uma questão de representatividade. Em uma sociedade que nos coloca em um patamar inferior, somos, consequentemente, também silenciadas nesses dois aspectos. Se um homem fala em tom de voz elevado, ele está sendo viril, duro, firme, tem credibilidade pra isso, é o seu papel. Se nós falamos em tom de voz elevado somos loucas, histéricas, descompensadas. Por quê? Porque não estamos na política, nos mesmos empregos, no cinema ou nos livros? Por quê? O patriarcado ganha com isso. E, assim, a nossa sociedade se mantém. Uns com tanto, outros com pouco, uns falando, outros ouvindo. Não. Não precisa ser assim.

Dois fatos: 1. só nós podemos falar por e sobre nós, e 2. não, não somos loucas e histéricas. Na verdade, estamos cansadas, exaustas. É impossível estar sempre calma, é impossível não perder a paciência quando se é oprimida a todo momento. Quando o direito à fala é cerceado, quando a presença masculina dá medo — na rua, em casa ou no papo de bar. Se eles usam contra nós o tom de voz para se colocar de forma superior, porque nós não faríamos o mesmo? Falar é nosso direito, perder a paciência também. Antes de nos julgar como loucas e sem razão, antes de duvidar de nossas denúncias, nos escutem.

Em tempos de meios virtuais de comunicação cada vez mais intensos, falar acaba sendo um pouco mais possível, nós temos como construir o nosso próprio espaço, o que não quer dizer que não seremos silenciadas. Duas hashtags que bombaram nas últimas semanas foram a #meuprimeiroassédio e a #agoraéquesãoelas. Ambas tratam justamente disso: espaço de fala. A construção de um lugar seguro para nós e a tomada de espaços masculinos pelas mulheres, respectivamente. No segundo caso, o fato de leitores que esperam ler reflexões de um homem serem surpreendidos pelas nossas reflexões é de extrema importância. Nós temos o que dizer, mas precisamos de mais espaço e reconhecimento.

Por isso, hoje venho em coro com as hashtags e as tantas mulheres que falaram através delas: meninas e mulheres, falem, gritem, utilizem da sua voz! Antes de tudo, é importante que saibamos entre nós: nossa voz importa, nossa denúncia importa, nosso argumento importa, nossos pensamentos importam. Não precisamos falar baixo, falar menos, não precisamos nos calar. E estejamos ao lado das outras mulheres que, muitas vezes, não podem falar — a conquista de espaço é diferente, inclusive, entre nós. A voz pode ser algo muito poderoso, seu som e seu significado. Ela é nossa e o mundo precisa ouvir.

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Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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