10 de outubro de 2015 | Edição #19, Edicoes | Texto: | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Não quero ter que crescer para aparecer

Quando uma criança pergunta alguma coisa, você precisa responder, pelo amor de Deus. Crianças são crianças, mas elas percebem uma evasiva mais rápido que os adultos e ficam confusas.
O sol é para todos, Harper Lee

Ouso dizer que nós somos levemente obcecados com crescer. Eu me lembro de ter passado grande parte da minha infância sonhando em virar adolescente e ter aquela vida SUPEREMPOLGANTE que eles pareciam ter (spoiler alert para o meu eu de dez anos: não é bem assim), e atualmente ainda me pego desejando ser só um pouquinho mais velha, porque assim, talvez, eu entenda tudo melhor. Afinal, não é o que sempre me disseram? Que “quando você for mais velha, você vai entender”?

Como uma criança curiosa que sempre teve a necessidade incontrolável de falar o que pensava, essa era uma das coisas que eu mais ouvia. Ouvi quando falei que não queria ter filhos porque o parto deve ser uma coisa horrorosa, ouvi quando questionei porque tanta gente abria mão de fazer o que realmente gostava, e também ouvi quando perguntei o que leva uma escola a proibir o uso de shorts. O que eu só percebi mais tarde era que o que eles realmente estavam tentando dizer era que, quando eu fosse mais velha, eu veria o mundo exatamente do jeito que eles viam.

Esse pensamento é proveniente de uma combinação de vícios que todos nós temos, e que parecem ficar mais fortes ao longo do tempo: o de tomar nossas vidas como parâmetro para todas as outras (como eu não tinha maturidade para lidar com assunto x na idade dela, ela claramente não deve ter), o de esquecer de como era ter certa idade (nos falta empatia até com os nossos “eus” mais jovens, é bem louco), e o de acreditar que a vida sempre segue uma mesma ordem – você vai dar o seu primeiro beijo aos quinze, vai viajar sozinha aos vinte, vai perder um ente querido aos 24, etc. Com um toque da preguiça e do conformismo que parecem inibir algumas pessoas mais velhas de sequer tentar responder às perguntas de crianças e adolescentes, acabamos com uma geração que subestima enormemente a outra.

Hoje, um adolescente é exposto a um volume muito maior e menos limitado de informações do que a vinte, trinta anos atrás. É possível que você já tenha tido contato com realidades mais diversas em quinze anos do que uma pessoa de quarenta teve durante toda a sua vida. O que não quer dizer que nossa vivência seja melhor do que a de gerações passadas, mas sim que ela tem o potencial de oferecer novas perspectivas e, certamente, de mudar por completo os nossos parâmetros de vida ideal. Nossas vidas são diferentes, e, portanto, nossas opiniões provavelmente serão diferentes. É bem possível que eu cresça e continue não entendendo (leia-se: discordando do seu ponto de vista).

Com ou sem a realidade tecnológica de hoje, a verdade é que subestimar pessoas jovens não leva a lugar nenhum. Acreditar que uma criança ou adolescente é incapaz de fazer ou entender certas coisas não faz nada além de atrasar o seu crescimento e evolução. Excluir pessoas mais novas de debates – seja não respondendo às suas perguntas ou simplesmente invalidando seu ponto de vista – só serve para continuar com uma visão restrita de assuntos que afetam a todas faixas etárias. Por mais que possam vir em formatos diferentes – um trabalho insatisfatório, um zero numa prova de matemática, um monstro no armário – sentimentos como confusão, medo, amor e ansiedade são constantes na vida de qualquer um. E a maturidade para lidar com eles não é sempre algo que vem com a idade.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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